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100 anos de Milton Santos: o geógrafo que transformou território em política

Em 3 de maio de 1964, o jovem e já destacado geógrafo brasileiro Milton Santos completou seus 38 anos no quartel do 19º Batalhão de Caçadores (19º BC), localizado no bairro do Cabula, em Salvador, Bahia. O golpe militar havia acabado de acontecer no Brasil, e intelectuais como ele estavam na primeira leva de subversivos a serem perseguidos.

Negro, insubordinável e com ideias que ainda ecoam nas palavras de ordem do campo progressista, Santos passou os três meses seguintes isolado de todos. Isolado do mundo. Sua força narrativa e física, no entanto, sucumbiria a um grave problema de saúde, curiosamente o responsável por sua liberação do cárcere.

O geógrafo sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em junho de 1964, que paralisou parte de seu rosto. Após ser internado em um hospital, foi liberado pelos militares e autorizado a voltar para casa, embora continuasse sob vigilância e mal visto pelo regime. Mas havia ali uma nova oportunidade: partir com passagem só de ida para a Europa e fugir da violência em curso no país.

Seu destino foi a França, onde viveu até 1977. Foi nesse período que, por sugestão de colegas franceses, passou também a lecionar no país europeu. A trajetória foi marcante, a ponto de se tornar professor titular da Universidade de Sorbonne e consolidar-se como uma das principais referências em sua área no mundo. A consagração veio em 1994, com o Prêmio Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia”.

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1997, ele proferiu uma de suas frases mais emblemáticas e que, de certa forma, resume sua trajetória até então:

“Eu creio que é difícil ser negro e é difícil ser intelectual no Brasil. Essas duas coisas, juntas, dão o que dão, não é? É difícil ser negro porque, fora das situações de evidência, o cotidiano é muito pesado para os negros. É difícil ser intelectual porque não faz parte da cultura nacional ouvir tranquilamente uma palavra crítica.”

A renovação da geografia

100 anos após seu nascimento, celebrado neste 3 de maio de 2026, seu legado permanece central para compreender o mundo contemporâneo. Milton Santos morreu em 2001, em decorrência de câncer de próstata, e é reconhecido como um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX.

Autor de mais de 35 livros, geógrafo, professor e pensador crítico, tornou-se reconhecido mundialmente por sua análise da globalização, do espaço urbano e das desigualdades sociais. Sua obra propõe uma geografia crítica, voltada à perspectiva dos países subdesenvolvidos e à humanização do território.

“A globalização é uma expressão que é baseada num velho ideal da humanidade que é a comunhão universal, mas que é feita justamente para reduzir a possibilidade dessa comunhão. A globalização é o estágio supremo do imperialismo”, definiu o pensador em entrevista.

Além de sua conhecida reflexão sobre globalização, Santos também cunhou o termo Meio Técnico-Científico-Informacional, conceito que define a fase atual do capitalismo, em que o espaço é transformado por novas tecnologias e fluxos de informação. Ideias que se mantêm conectadas com o presente.

É dele também a formulação dos conceitos de Geografia Crítica e Território, em que sugere o espaço geográfico como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações, o chamado território usado, criticando a visão puramente física da geografia.

Embora reconhecido pela academia, Milton Santos nunca se desvinculou de sua origem humilde, nem mesmo quando lecionava para públicos do Brasil e do exterior. Até o fim da vida, defendeu que a transformação social viria “de baixo para cima”, ou seja, a partir dos deserdados e dos países pobres, e não das elites globais. Um visionário, portanto.

Dois livros de Milton Santos para baixar

Território e Sociedade – Entrevista com Milton Santos (2000)

Resultado de duas sessões que totalizaram cerca de dez horas de conversa, o livro oferece um acesso privilegiado ao pensamento de Milton Santos. Para ele, a tarefa do intelectual é, antes de tudo, a da crítica. Engajado, buscou compreender o mundo para produzir as ideias necessárias à sua transformação, como deixa evidente ao longo de suas respostas nesta entrevista.

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Milton Santos e o Brasil – Território, lugares e saber (2004)

O livro reúne 17 artigos críticos que analisam diferentes aspectos do pensamento de um dos mais importantes geógrafos brasileiros. Os textos são fruto do seminário homônimo realizado em Salvador, entre 17 e 19 de julho de 2002, promovido pela Fundação Perseu Abramo em parceria com a Universidade Federal da Bahia.

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