
Chegamos ao 8º capítulo da série “A história oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro”, exclusiva para o jornal A Verdade. Nesse capítulo, movimentos importantes o como o Tenentismo, a Semana de Arte Moderna, a fundação do PCB. Ano histórico para a classe trabalhadora brasileira, que dava um salto qualitativo em organização, agitação política e mobilização nas ruas.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
HISTÓRIA (Parte 08) – Em 1922 o Brasil comemorava o centenário da “Independência” de Portugal. Porém, para cobrir o déficit público recorria a empréstimos externos. Assim, ampliava a dependência econômica e política junto aos banqueiros credores estrangeiros, notadamente aos Rothschilds ingleses.
População de 31 milhões de habitantes e 1,5 milhões de imigrantes, a maioria emigrados de Portugal, Espanha e Itália. A política nacional de imigração atendia demandas das classes dominantes por mão-de-obra e exército de reserva às lavouras do café e à indústria nascente.
A agricultura era a força motriz da economia. E o café o principal produto de exportação. A crise mundial pós-guerra se prolongaria até o final da década de vinte. As exportações diminuem. Os preços do café despencam no mercado mundial. Mas o pacto do estelionato nacional das oligarquias “café com leite” chamado de “política de valorização do café” espoliava o Tesouro Nacional. Estabelecia preços prefixados, independente da variação internacional. E pagava as toneladas de café estocadas, sem comprador. Queimava e jogava toneladas de café no mar, literalmente.
O dinheiro do povo garantia o lucro dos barões do café. A súcia oligárquica assaltante de São Paulo e Minas mandavam na Presidência e no Congresso Nacional com apoio das oligarquias regionais periféricas, mediante troca de favores recíprocos.
O processo de desenvolvimento capitalista brasileiro – tardio, dependente e conservador gerou contradições, cisões e conflitos em todas as classes desta formação econômica e social. Contradições expressadas nas disputas políticas, cisões e rupturas. As maiores oligarquias – São Paulo e Minas entre si, e entre as oligarquias periféricas. Cristalizava-se assim os antagonismos fundamentais entre o proletariado que se definia como classe e a burguesia.
Cisões verificadas nas classes altas entre o Partido Democrático e a Aliança Liberal separaram os campos dominantes que se confrontarão nas efemérides de 1930. Nos segmentos altos, artísticos, intelectualizados, a ruptura da Semana de Arte Moderna da crítica “pelo alto” aos padrões culturais dominantes.
No âmbito do proletariado, a alteração da correlação de forças na disputa ideológica e subsequente cisão do movimento operário e sindical, entre anarquistas e comunistas. Do marco fundamental de criação do “Partido Comunista do Brasil – Seção Brasileira da Internacional Comunista”.
No âmbito da pequena-burguesia militarista de caráter golpista insurrecional entra em cena o movimento tenentista com o Levante do Forte de Copacabana do 5 de julho de 1922. Inegavelmente, 1922 foi um ano “interessante” no sentido de um “ano em que sonhamos perigosamente” dado pelo filósofo Slavoj Žižek.
A Semana de Arte Moderna
A “Semana de Arte Moderna” realizou-se nos 13 a 17 de fevereiro, São Paulo capital. Badalado evento artístico financiado pela aristocracia do café. Causou sensação. Marcou época. Divide opiniões. Evento patrocinado pela burguesia para seu deleite cultural e artístico. A aristocracia cafeeira pagou a banda, mas por não ter escolhido o repertório, se arrependeu da festa.
As músicas, artes plásticas, escultura, pintura, literatura – tocadas no Teatro Municipal de São Paulo desagradaram ao setor mais reacionário e tradicional das elites dominantes. A tal Semana é chamada de “revolução dos anjos”, “revolução modernista” e outras denominações. Para muitos intérpretes representou o momento de rompimento com os padrões tradicionais da cultura parnasiana europeia predominante no Brasil.
Na visão de Abguar Bastos: “[… a revolução dos anjos nascia nos palacetes, entre esnobes, cavalheiros viajados, senhoras que falavam francês, poetas chegados de Paris, aristocratas do café. Mas não deixou de ser uma revolução municiada de irreverência, sátira, polêmicas e escândalos […] os modernistas representaram no terreno das artes a derrubada dos padrões clássicos da burguesia” (RJ, 1969).
Ordinariamente, destaca-se a quebra do paradigma cultural no rompimento com o formalismo e a retórica. Na busca da simplicidade do estilo, da clareza e de uma identidade nacional. Os modernistas trazem à ribalta escritores e artistas como Mário e Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Heitor Villa-Lobos e Di Cavalcanti.
Mas, o proletariado, onde sentou na “Semana Modernista”? Evento da burguesia ascendente para desfrute dessa mesma classe, os trabalhadores e a maioria do povo ficaram a ver navio. A produção artística e cultural popular não é chamada. O papel dos trabalhadores nas exposições e saraus foi inspirar artistas da burguesia e varrer os tapetes do Teatro. A apregoada “mudança na cultura” – ou seu desejo – reflete as mudanças na superestrutura das transformações ocorridas na infraestrutura econômica.
Se foi financiada pela aristocracia cafeeira, expressava mais a ascensão da burguesia industrial a buscar a hegemonia cultural. Daí a limitação e contradição do “vanguardismo importado” pelos modernistas. Eles proclamavam a busca de uma “identidade nacional”, mas o faziam sob a influência do movimento Europeu cultural do “futurismo”.
A expressão “revolução dos anjos” vem a calhar, se considerarmos que ocorreu nas nuvens, no Céu das superestruturas culturais das elites “cultas” e dificílimo acesso ao comum dos mortais pobres e trabalhadores que formam a maioria do povo brasileiro. Ao “modernismo” do salto alto aristocrático não se nega inovações, rompimentos e mesmo escândalo na alta sociedade herdeira do escravismo. Contudo, ao cabo, o “tufão” modernista foi um movimento cultural de renovação pelo alto, da mudança nas elites paulistas em ascensão.
Março de 1922. A fundação do Partido Comunista
No contexto das mobilizações do final da 1ª guerra mundial, das grandes greves e sob os ecos da revolução proletária da Rússia, trava-se intensa luta política e ideológica entre comunistas e anarquistas no Brasil. Disputava-se a direção ideológica do nascente movimento operário.
No Brasil existiam poucos núcleos comunistas influenciados pelas ideias de Marx, Engels e Lênin. A hegemonia no movimento operário até os anos 20 era exercida pelos anarquistas. Como principal força do movimento operário, dirigiam federações, sindicatos e inúmeros jornais e revistas. Os principais: “A Plebe”, “Ação Direta”, “O Amigo do Povo”, “A Voz do Trabalhador”, “Aurora” e “A Batalha”. Todavia, os “maximalistas” (comunistas), embora força ainda menor no movimento, contavam com as experiências das conquistas recentes da revolução Bolchevique, dirigida pelo Partido Comunista na Rússia.
Os poucos núcleos comunistas começam o gigantesco esforço de agitação e propaganda do comunismo. Editaram os primeiros periódicos: “Movimento Comunista” e “Voz Cosmopolita”, no Rio de Janeiro; em São Paulo capital “O Internacional”, em Santos, “O Solidário”. A boa semente frutifica rápido em terreno fértil.
Nos 25 a 27 de março de 1922, realiza-se em Niterói, o 1º Congresso – de fundação – do Partido Comunista. Participam 9 delegados egressos da cisão com o movimento anarquista: Abílio de Nequete, Astrogildo Pereira, Cristiano Cordeiro, Hermogêno Silva, João da Costa Pimenta, Joaquim Barbosa, José Elias da Silva, Luiz Peres e Manoel Cendón. Eles representavam 73 comunistas nucleados em Porto Alegre, Recife, São Paulo (capital) e Cruzeiro (SP), Niterói e Rio de Janeiro.
Nas sessões do 1º Congresso debateu-se: 1. As 21 condições de adesão à Internacional Comunista; 2. Os estatutos do PC; 3. A eleição da Comissão Executiva Central (eleitos: Astrogildo, Antonio Canellas, Luís Peres e Antonio Cruz Jr.); 3. Ações nacionais e internacionalistas quais o socorro aos flagelados do Volga.
A criação do Partido Comunista no Brasil, queiram ou não queiram os reacionários burgueses e os críticos anticomunistas ou de qualquer natureza, com acertos e erros históricos, colocou o movimento do proletariado brasileiro em novo patamar, qualitativamente superior da luta de classes.
Trazer a concepção marxista-leninista de organização nacional e centralizada como Estado Maior das classes exploradas para lutar revolucionariamente pelo socialismo, o poder proletário e quebrar o estado burguês e sua dominação capitalista. Articular a luta de classes de nosso país com o Movimento Comunista Internacional – MCI – foi um salto qualitativo da vanguarda mais consequente do proletariado brasileiro.
O Tenentismo
Movimentos insurgentes de militares, politicamente difuso e comumente relacionado com a revolta das classes médias ou pequena-burguesia – que aspirava mudanças e reformas contrapostas à “corrupção eleitoral” das oligarquias da Velha república. Sucederam dezenas de levantes em quartéis do Amazonas ao Rio Grande do Sul entre 1922 e 1924. Lideranças tenentistas tiveram protagonismo no golpe da deposição de Washington Luís em outubro de 1930.
Parcela do “tenentismo” é cooptada pelo poder e muda sua rebeldia mudancista no pós-1930, à sombra do poder. Outros, desenganaram-se com os “rumos da revolução de 30”. Outros não quiseram saber da luta de oligarquias, caso de Luís Carlos Prestes que recusou convite de ser chefe militar da “revolução de 1930” por esse motivo.
A eleição presidencial de 1922 foi marcada pela violência e corrupção. A oposição espalhou na campanha “Cartas” falsas com ofensas aos militares atribuídas ao candidato Artur Bernardes, publicadas no Correio da Manhã do Rio de Janeiro. Mas Bernardes apoiado na forte aliança “café (SP) com leite (MG)” derrotou Nilo Peçanha da “Reação Republicana” das oligarquias do RJ, RS, PE e BH. Os barris de pólvora dos quartéis estavam prontos para a explosão. Ocorre no 5 de julho.
A revolta dos 18 do Forte de Copacabana
Os aquartelados no Forte de Copacabana da Capital Federal Rio de Janeiro se revoltam, em 5 de julho de 1922, a pretexto de ofensas contra o Exército “feitas” por Arthur Bernardes. Tomam a fortaleza e bombardeiam prédios do Arsenal de Marinha e o Quartel General. Na reação legalista, as forças militares cercam a fortaleza e a metralham, tropas lideradas pelo Coronel Eduardo Hermes da Fonseca. O encouraçado Minas Gerais completa a reação bombardeando o Forte de Copacabana.
17 militares rebeldes saem pelas ruas na chamada “Marcha da Morte”, a eles se junta um civil. Na fuzilaria apenas dois militares da “marcha” sobrevivem, Eduardo Gomes e Siqueira Campos. Tornar-se-iam símbolos e “heróis” da historiografia oficial dessa “Revolta do Forte de Copacabana.
O golpismo militarista de caráter pequeno-burguês senão representa interesses da alta burguesia, tampouco expressa os interesses do proletariado. O discurso “moralista contra a corrupção” e o corporativismo militar predominam sobre interesses de emancipação da classe operária, com a qual a pequena-burguesia não se identifica e quase sempre quer distância. Tão mais próximos da pobreza proletária, porém ideologicamente no mundo burguês (modus vivendi e valores populistas, nacionalistas e anticomunistas) essa classe secundária na formação econômica do Brasil observado no tenentismo.