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4 teses em defesa da colonialidade, contra os decoloniais

Antes de mais nada: viva o sentir-pensamento de Nêgo Bispo. Viva o saber ancestral quilombola, indígena, ribeirinho, caiçara, caipira e de todos os povos e comunidades tradicionais de Nossa América. Viva o saber oralizado e as memórias que atravessaram gerações e se recusaram ao apagamento epistemicida. Eu sou porque elas foram.

Dito isso, quero, nesta coluna de estreia em Opera Mundi, debater com intelectuais como Silvio Almeida, Douglas Rodrigues Barros e Neil Larsen, que ocuparam importante espaço de opinião em meios de esquerda brasileiros com críticas – mais ou menos moderadas – à “decolonialidade”.

Nós precisamos separar o joio do trigo. A confusão teórica que se estabeleceu periga deslegitimar uma corrente de pensamento essencial para compreender a América Latina em sua diversidade e complexidade. Em nome da “defesa do marxismo”, da crítica à mercantilização da universidade e do combate ao “identitarismo”, corre-se o risco de jogar fora justamente uma das tradições que melhor nos permite pensar classe, raça, território e dependência como partes de uma mesma formação.

1 – O que é colonialidade?

Colonialidade do poder é a manutenção, por outras vias, dos mecanismos de exploração, dominação e espoliação instalados pelo colonialismo. Na América Latina, a maior parte dos países se tornou independente, mas isso não significou uma independência verdadeira, senão uma reconfiguração das estruturas de subjugação. Quijano fala em colonialidade do poder. Hugo Chávez falava sobre a necessidade de uma “segunda independência”.

É falso dizer que a teoria da colonialidade seja antimarxista ou que pretenda substituir a discussão sobre classes sociais. (Foto: Santiago Sita / Flickr)
É falso dizer que a teoria da colonialidade seja antimarxista ou que pretenda substituir a discussão sobre classes sociais.
(Foto: Santiago Sita / Flickr)

Esse conceito foi sintetizado pelo peruano Aníbal Quijano com base na tríade modernidade, capitalismo e América Latina. Ele diz que essas três categorias nasceram juntas, “no mesmo momento histórico”, e foram amalgamadas com base no racismo – por isso ele é estrutural. Foi graças  à ideia moderna de raça que os europeus impuseram e justificaram sua supremacia diante do território recém-conquistado. 

2 – Colonialidade não é contra Marx ou o marxismo

É falso dizer que a teoria da colonialidade seja antimarxista ou que pretenda substituir a discussão sobre classes sociais. Quijano chega à formulação de colonialidade do poder a partir de uma genealogia crítica latino-americana, marxista e anticolonial. Ele passa por Mariátegui, que pensou Marx a partir da realidade indo-americana; pela teoria da dependência; pelo sistema-mundo de Immanuel Wallerstein; pelo anticolonialismo revolucionário de Fanon, Césaire e Cabral; e pela crítica ao eurocentrismo de Dussel e Said. Ou seja, ele bebeu diretamente de marxistas.

Além disso, intelectuais latino-americanos como Jaime Coronado e Enrique Dussel se referem a Quijano como um “grande marxista”. O que faz dele tão excepcional na chave do pensamento latino-americano? Marx, como ser humano que foi, escreveu a partir de suas experiências e práticas europeias — o tal lugar de fala. Quijano latino-americaniza Marx: relê sua força crítica a partir da colônia e a coloca contra o eurocentrismo do próprio Marx, que chegou a escrever um artigo racista, depreciativo e elitista contra Simón Bolívar, a quem via como personagem patético encenando o papel de herói.

3 – O que é decolonialidade?

Sinceramente, não sei se ela existe. Em minha dissertação de mestrado, usei o termo como aspiração, horizonte, utopia. Porque, literalmente, decolonizar algo significaria superar a colonialidade – e colonialidade é um conceito complexo demais para ser superado por reformas curriculares, mudanças de vocabulário, inclusão simbólica ou reorganização de bibliografia.

Superar a colonialidade exigiria uma transformação profunda e radical da vida social – ou, para usar termos mais marxistas, uma revolução.

Como, quando e onde essas estruturas foram superadas? Não foram. Em Nossa América, tivemos tentativas de avançar contra uma ou outra dimensão da colonialidade: contra a dependência, contra o racismo, contra a subordinação imperialista, contra o latifúndio, contra o epistemicídio, contra a colonialidade do Estado. Mas não rompemos nem superamos a modernidade colonial-capitalista.

E sim: isso tem uma dimensão universalizante. Não é possível que apenas Cuba seja decolonial, ou apenas a Bolívia, ou apenas um território, uma universidade, um museu, uma prática pedagógica ou um currículo. Pode haver práticas de enfrentamento à colonialidade. Pode haver experiências contracoloniais. Pode haver fissuras, ensaios, rebeliões, pedagogias e territórios em disputa. Mas a decolonialidade, se levada a sério, não é uma etiqueta local. É a superação de um padrão mundial de poder.

Há uma exceção importante, que mereceria tratamento próprio: o Haiti.

4 – E os intelectuais decoloniais?

Deles eu também quero distância. É aqui que reside a confusão. Muitos desses famosos intelectuais estão em universidades europeias e/ ou, principalmente, estadunidenses. Escrevem a partir de abstrações e visões essencialistas sobre a América Latina. 

Meu primeiro choque com estes foi em 2019 quando, diante do golpe de Estado contra Evo Morales, a antropóloga argentina Rita Segato se colocou contra Evo, com a alegação de que o mandatário teria rompido com formulações decoloniais a partir da representação de mulheres indígenas em cargos públicos. A declaração ocorreu durante o Congresso Internacional ALAS Peru, realizado em Lima. Ela parece não ter visto que a primeira atitude de Jeanine Añez, ao entrar no Palacio Quemado, foi retirar a bandeira Wiphala, representação das diversas nações indígenas do país. Um processo de destruição do Estado Plurinacional que vem se consolidando com o atual presidente Rodrigo Paz.

O segundo choque foi com a declaração internacional “Detener la escalada del conflicto político en Venezuela”, assinada por Edgardo Lander, Arturo Escobar, Rita Segato e outros nomes associados ao campo decolonial. A nota dizia rejeitar Guaidó e a intervenção dos Estados Unidos. Mas, ao colocar no mesmo plano o governo Maduro e uma oposição golpista, financiada e reconhecida por Washington, produzia uma falsa simetria. Em plena ofensiva imperialista contra a Venezuela, esse tipo de crítica “nem-nem” não era neutralidade: era abdicação anti-imperialista.

Queridas e queridos, não vamos jogar a água com o bebê na banheira. A teoria é uma coisa, o que estão fazendo dela é algo totalmente diferente. Em uma breve entrevistaă concedida justamente em Caracas, Ramón Grosfoguel define bem: “você pode ser anti-imperialista sem ser decolonial, mas não se pode ser decolonial sem ser anti-imperialista”. Parece óbvio, mas vivemos em um tempo em que o óbvio precisa ser dito.

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