O vírus que escancarou o abismo de classes, a barbárie estatal e a resistência do SUS
Seis anos se passaram desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, em março de 2020, que o mundo enfrentava uma pandemia de Covid-19. O que se seguiu foi a maior crise sanitária, econômica e social do século XXI. Ao olharmos para o retrovisor da história, os números globais ainda assustam: segundo a OMS, foram mais de 7 milhões de mortes oficiais registradas no mundo — com estimativas de excesso de mortalidade que ultrapassam a casa dos 20 milhões de pessoas.
A pandemia não foi apenas um evento biológico; ela foi um espelho cruel das nossas fraturas sociais. No Brasil, o vírus encontrou um terreno fértil não apenas na desigualdade histórica, mas também na condução desastrosa e negacionista do governo anterior, transformando o país em um dos epicentros globais da tragédia.
“Um defeito de cor”
A narrativa de que “o vírus era democrático”, no Brasil, caiu por terra logo nas primeiras semanas. A Covid-19 escancarou o abismo de classes. Enquanto as classes média e alta puderam se isolar em casa, os trabalhadores informais e essenciais continuaram expostos nas ruas e no transporte público lotado.
O marco dessa desigualdade no Brasil tem rosto, classe e cor. É simbólico e trágico que uma das primeiras vítimas fatais registradas no país tenha sido Cleonice Gonçalves, uma mulher negra de 63 anos, trabalhadora doméstica no Rio de Janeiro. Ela contraiu o vírus de seus empregadores, que haviam retornado de uma viagem à Itália e não a dispensaram do trabalho, mesmo apresentando sintomas. A morte de Cleonice foi o prenúncio de como a pandemia afetaria os mais vulneráveis.
O médico pneumologista da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da FMUSP, Dr. Ubiratan de Paula Santos, apontou que a Covid acometeu os mais pobres e com mais gravidade.

O especialista realizou, em 2024, uma pesquisa com faxineiras e funcionárias administrativas do HC. Foram entrevistadas 420 servidoras de cada setor. “As faxineiras tiveram muito mais Covid, porque elas ganham menos, moram pior, a casa delas tem pior ventilação e a gravidade da Covid dependia muito da carga de vírus inalado. Se você tem um ambiente com menor ventilação, com o mesmo número de pessoas, mas não tem menos janela, o tamanho é menor, é menos arejado, a concentração de vírus permanece mais tempo no ar”, explicou.
Dados do Banco Mundial e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) confirmam essa tragédia social: a pandemia empurrou milhões de latino-americanos de volta para a extrema pobreza. A perda de renda, a inflação de alimentos e o desemprego atingiram em cheio as periferias, onde o distanciamento social era um privilégio inatingível e o acesso ao saneamento básico, uma miragem.

Na outra ponta, estavam os grupos de risco, pessoas com as chamadas “comorbidades” – ocorrência simultânea de duas ou mais doenças ou distúrbios, crônicos ou agudos – uma palavra que a pandemia popularizou. No estado do Piauí, Antônio Nonato Lima Gomes, prefeito da cidade de São José do Divino do PT, foi a primeira vítima fatal da doença. Ele tinha 57 anos e pertencia ao grupo de risco por ser diabético.
O Dr. Paula Santos destaca que atualmente, a Covid tem mais impacto em pessoas bem mais idosas e com comorbidade, doença pulmonar ou cardiovascular mais graves.
O negacionismo como política de Estado e a solidariedade internacional
Do ponto de vista médico e administrativo, o Brasil viveu um pesadelo particular. Com mais de 700 mil vidas perdidas, o país concentrou cerca de 10% das mortes globais, tendo apenas 2,7% da população mundial. Esse saldo não foi obra do acaso, mas sim resultado direto da gestão do governo de Jair Bolsonaro.
A administração anterior transformou o negacionismo em política de Estado. O mundo assistiu, perplexo, a um presidente que se recusava a usar máscaras, promovia aglomerações e boicotava as medidas de isolamento adotadas por governadores e prefeitos. Mais grave ainda foi a sabotagem na compra de vacinas: e-mails da farmacêutica Pfizer ficaram meses sem resposta, atrasando a imunização que poderia ter salvo dezenas de milhares de vidas. Como se não bastasse a omissão, houve a crueldade: em transmissões ao vivo, o então chefe do executivo chegou a imitar, em tom de deboche, pacientes morrendo asfixiados.
O ápice do colapso ocorreu em Manaus, no início de 2021, quando pacientes morreram asfixiados nos hospitais por falta de cilindros de oxigênio. Diante da inércia do governo federal brasileiro, a salvação veio de fora: o governo da Venezuela, mesmo enfrentando seus próprios embargos e crises, enviou comboios de caminhões carregados de oxigênio para socorrer a capital amazonense, um gesto histórico de solidariedade latino-americana em meio à barbárie.
Trabalho remoto: legado “positivo”?
Se é que se pode extrair algo de positivo de um período tão sombrio, as mudanças nas dinâmicas de trabalho despontam como o principal legado. A necessidade de isolamento forçou uma digitalização abrupta que, seis anos depois, consolidou-se no mercado.
O trabalho remoto e os modelos híbridos deixaram de ser uma exceção para se tornarem uma exigência de qualidade de vida para milhões de profissionais. Segundo relatórios recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o teletrabalho demonstrou ser capaz de manter ou até aumentar a produtividade, além de reduzir o tempo de deslocamento nas grandes metrópoles, diminuir as emissões de gases de efeito estufa e permitir uma melhor conciliação entre a vida pessoal e profissional.
Contudo, a própria OIT alerta que esse “lado positivo” também exige regulamentação para evitar o esgotamento digital (burnout) e garantir o direito à desconexão. Além disso, é preciso lembrar que o teletrabalho permanece uma realidade majoritariamente restrita aos trabalhadores de colarinho branco, reforçando a necessidade de políticas públicas que protejam aqueles cujas funções exigem a presença física.
Memória e Justiça
Seis anos após o início do pesadelo, o Brasil e o mundo ainda lidam com as sequelas da Covid-19 — desde a “Covid longa”, que afeta a saúde de milhões, até as cicatrizes econômicas. Lembrar dessa data não é apenas um exercício de luto pelas vítimas, mas também um ato político.
A pandemia provou a importância vital de um Estado forte, do financiamento adequado da ciência e da defesa incondicional do Sistema Único de Saúde (SUS). Dr. Ubriratan afirma que a tragédia evidenciou a importância vital de o país contar com o sistema. Ele reitera que foi essa estrutura pública que evitou uma mortalidade ainda mais catastrófica, resistindo bravamente a um governo federal negacionista na época. A capilaridade de uma rede de atenção espalhada por todo o território nacional, com hospitais e centros de referência, foi algo que “fez a diferença”.
O pneumologista recorda um exemplo emblemático: “quando o HC conseguiu montar 800 leitos exclusivos para pacientes com Covid-19 em apenas 30 dias. Mais do que salvar vidas, essa terrível experiência deixou um legado fundamental: reforçou, de forma incontestável para a categoria médica e para todos os profissionais da área, o papel insubstituível do SUS na condução e resolução dos grandes problemas de saúde pública do Brasil”, conclui.
Acima de tudo, os seis anos da pandemia nos lembram que a saúde pública nunca pode estar à mercê do negacionismo e da necropolítica. Que a memória de Cleonice, Antônio de Felícia e de centenas de milhares de brasileiros sirva de lembrete permanente de que a vida deve estar sempre acima do lucro e da barbárie.