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65 anos da batalha de Playa Girón: a primeira grande derrota do imperialismo na América Latina

PÁTRIA OU MORTE! Povo cubano pegou em armas para impedir invasão imperialista. Foto: GRANMA

Há exatamente 65 anos, as areias de Playa Girón, em Cuba, tornaram-se cenário de uma das mais gloriosas páginas da história de resistência dos povos oprimidos contra o imperialismo, quando 1.500 mercenários cubanos, treinados e financiados pelos Estados Unidos, foram derrotados e feitos prisioneiros após uma tentativa fracassada de invasão armada cujo objetivo era derrubar o governo revolucionário liderado por Fidel Castro.

Heron Barroso | Redação


Desde 1º de janeiro de 1959, quando os guerrilheiros do Movimento 26 de Julho, dirigidos por Fidel Castro, Ernesto Che Guevara, Raul Castro e Camilo Cienfuegos, puseram fim à ditadura de Fulgencio Batista e abriram caminho para profundas transformações sociais na pequena ilha caribenha, o povo cubano vem protagonizando atos de heroísmo que orgulham e inspiram os povos oprimidos de todo o mundo. 

Um, em especial, entrou para a história como a primeira derrota militar do imperialismo estadunidense na América Latina: a Batalha de Playa Girón. 

Era abril de 1961, o “Ano da Educação”. No campo, a reforma agrária nacionalizava as terras que estavam em mãos estrangeiras, entregando-as aos camponeses pobres. Bancos, refinarias e monopólios dos EUA tornavam-se propriedade social para que o povo pudesse controlar a economia do país. Os cubanos estavam construindo com as próprias mãos uma vida nova.

Os Estados Unidos, como era de se esperar, não aceitavam que Cuba levasse adiante uma revolução a apenas 145 km de distância do país mais poderoso do mundo. Era um “mau exemplo” para o restante do mundo. Nas palavras do próprio Fidel, “o que os imperialistas não podem perdoar é que estamos aqui; o que eles não podem nos perdoar é a dignidade, a integridade, a coragem, a firmeza ideológica, o espírito de sacrifício e o espírito revolucionário do povo de Cuba”.

Foi então que a Casa Branca decidiu invadir Cuba. 

O início da invasão 

O plano da invasão começou um ano antes, durante a gestão do presidente Dwight Eisenhower, e posto em prática por John F. Kennedy, que assumiu a presidência dos EUA no começo de 1961. A ideia era recrutar e treinar cubanos exilados, muitos deles antigos colaboradores da ditadura Batista, organizados na chamada “Brigada 2506”. 

A operação militar começou na madrugada de 15 de abril de 1961. Oito aeronaves da CIA com bandeiras de Cuba em suas fuselagens bombardearam as bases aéreas de Ciudad Libertad, San Antonio de los Baños e Santiago de Cuba, matando sete militares cubanos.  

No dia seguinte, Fidel convoca o povo para um gigantesco ato em homenagem aos mortos nos ataques, que foi transmitido para todo o país por rádio e TV, e declara o caráter socialista da Revolução – “a revolução socialista e democrática dos humildes, com os humildes e para os humildes”

No dia 17 de abril, mais de 1.500 mercenários saíram em navios piratas da Guatemala e da Nicarágua e desembarcaram em Playa Girón e Playa Larga, na Baía dos Porcos. O objetivo imediato era ocupar a região e resistir por tempo suficiente para estabelecer um “governo de oposição” que logo seria reconhecido e apoiado pelos Estados Unidos.

Porém, a grande simpatia e apoio que a Revolução Cubana possuía entre os povos do mundo deixou Kennedy na defensiva. Preocupado com a repercussão pública internacional de um envolvimento direto seu com a invasão, o presidente estadunidense mudou os planos iniciais e proibiu o emprego aberto da Força Aérea e da Marinha dos EUA na operação. 

A derrota da invasão

Diante da agressão, o povo cubano, organizado em milícias operárias, camponesas e estudantis, juntamente com o Exército Rebelde, mobilizou-se rapidamente para defender a Revolução. Antes do anoitecer do dia 17, os navios da Brigada 2506, sem o esperado apoio aéreo dos EUA, foram completamente destruídos.

No dia 18 de abril, comandadas pessoalmente por Fidel, as forças revolucionárias cercaram as tropas invasoras. Mais de mil mercenários foram feitos prisioneiros, cinco tanques de guerra foram confiscados, além de uma grande quantidade de armamentos. Dois navios e três embarcações foram afundados e 12 bombardeiros B-26 abatidos. Os detidos foram julgados e condenados à prisão. Alguns ex-oficiais da polícia de Batista foram julgados e condenados à morte por crimes cometidos durante a ditadura.

Do lado cubano, 176 heroicos combatentes perderam a vida e mais de 300 ficaram feridos.

Em dezembro de 1962, depois de negociações entre Cuba e os EUA, os prisioneiros foram trocados por US$ 53 milhões em alimentos, medicamentos e tratores, e expulsos da ilha para nunca mais voltar.

A derrota dos “gusanos” (vermes), como são chamados os opositores anticastristas, só aconteceu graças à vontade inquebrantável de um povo que havia decidido, de uma vez por todas, ser dono do seu próprio destino. E essa é a primeira grande lição de Playa Girón.

É possível vencer o imperialismo

Desde então, o dia 19 de abril é comemorado em Cuba como a data da “primeira grande derrota do imperialismo na América Latina”. Segundo Fidel, “a partir de Girón, todos os povos da América foram um pouco mais livres”.

A derrota dos invasores elevou a moral e aprofundou a unidade entre o povo cubano e a Revolução e provou que é possível vencer o imperialismo. Tudo depende da força das ideias e da decisão de lutar por uma causa justa, ainda que o preço seja a própria vida. Essa é a segunda grande lição de Playa Girón.

Na cerimônia que comemorou o vigésimo quinto aniversário da vitória, em 1986, Fidel afirmou que “a importância de Girón não reside na magnitude da batalha, dos combatentes ou dos feitos heroicos que ali ocorreram; o grande significado histórico de Girón não é o que aconteceu, mas o que não aconteceu graças a Girón (…). Tenho absoluta certeza de que foi um grande golpe de sorte o fracasso da invasão. Muita sorte para nós, e até para os Estados Unidos, porque o Vietnã teria acontecido em Cuba, não no Vietnã”.

Bloqueio econômico para sufocar a Revolução

A surra que levaram em Playa Girón fez com que os Estados Unidos adotassem novas estratégias para derrotar a Revolução Cubana. Sem nunca abrir mão da violência e do terrorismo, a Casa Branca impõe há 64 anos o mais longo bloqueio econômico contra um país já realizado em toda a história da humanidade, um verdadeiro “genocídio prolongado”.

Soma-se a este criminoso bloqueio, as determinações neocoloniais da Lei Helms-Burton e a inclusão arbitrária de Cuba na lista de estados patrocinadores do terrorismo. O objetivo permanece o mesmo de 1961: gerar revolta, fome e caos para forçar a rendição da Revolução.

Ao longo dos anos, sucessivas administrações estadunidenses têm buscado sufocar o processo revolucionário cubano. A lista é longa: Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho, Obama, Trump, Biden e Trump novamente. Treze presidentes dos EUA buscaram a mudança de regime em Cuba pela força, sem sucesso. 

O atual ocupante da Casa Branca, o ditador Donald Trump, chegou ao ponto de declarar Cuba “uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa” dos EUA!

Em janeiro, após o sequestro do presidente da Venezuela Nicolás Maduro por tropas estadunidenses, Trump cortou o fornecimento de petróleo e seus derivados ao povo cubano. Desde então, nenhum carregamento chegou à ilha. Essa medida só foi possível graças à traição do atual governo venezuelano, encabeçado por Delcy Rodríguez, que se curvou vergonhosamente aos interesses dos EUA e entregou o controle do petróleo do país aos monopólios estadunidenses, com a desculpa de “não transformar a Venezuela numa nova Gaza”. Que vergonha, senhora Delcy!

O preço da liberdade

José Martí, apóstolo da luta pela independência de Cuba do colonialismo espanhol, disse certa vez que “a liberdade custa muito caro e temos ou de nos resignarmos a viver sem ela ou nos decidirmos a pagar o seu preço”.

O povo cubano, assim como o de Gaza, sabe muito bem disso, e prefere pagar o preço da liberdade com o próprio sangue do que se ajoelhar. Cuba jamais negociou sua soberania para cessar as agressões imperialistas. Essa é a terceira grande lição de Playa Girón. 

Celebrar os 65 anos desta vitória é também reafirmar que o socialismo é a única alternativa possível à barbárie capitalista. 

Playa Girón não acabou em 1961; é uma luta permanente. Cada vez que uma escola se abre em Cuba, cada vez que uma brigada médica parte para o estrangeiro, cada vez que o povo cubano resiste às privações impostas pelo bloqueio sem baixar suas bandeiras, Girón está sendo vencida novamente, todos os dias, até a vitória final.

Matéria publicada na edição impressa nº332 do jornal A Verdade