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70% das gestantes querem parto normal, mas 60% têm cesariana

Sete em cada dez brasileiras iniciam a gestação desejando um parto normal. No entanto, quando chega o momento do nascimento, a realidade é outra: mais de 60% dos bebês nascem por cesariana no país, índice que se aproxima de 90% na rede privada. Para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), essa mudança de trajetória não é explicada como uma decisão exclusivamente individual. Ela é resultado de um conjunto de fatores psicológicos, sociais e estruturais que limitam a autonomia das mulheres e moldam suas escolhas ao longo da gestação.

As conclusões fazem parte do estudo “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, lançado em junho de 2026. A pesquisa qualitativa ouviu 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde, em Belém (PA) e São Paulo (SP), contemplando usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede privada. O objetivo foi compreender por que tantas mulheres que manifestam preferência pelo parto vaginal acabam tendo seus filhos por cesariana.

Mais do que investigar preferências individuais, o relatório parte da premissa de que a escolha da via de nascimento é construída ao longo da gravidez, influenciada por crenças, experiências familiares, recomendações médicas, organização dos serviços de saúde e condições sociais. “A decisão sobre a via de nascimento é construída a partir de múltiplos fatores informacionais, culturais, relacionais, institucionais e assistenciais”, afirma o estudo.

Cesarianas continuam predominando

O levantamento contextualiza um cenário que distancia o Brasil dos padrões internacionais. Enquanto na maior parte dos países predominam os partos vaginais, o Brasil figura entre os três países com maior frequência de cesarianas no mundo. Segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), utilizados pelo estudo, 60,5% dos nascimentos no país ocorreram por cesariana em 2024, percentual que chega próximo de 90% na saúde suplementar.

Nas duas capitais pesquisadas, os índices também permanecem elevados, embora revelem diferenças importantes entre os sistemas público e privado. Em Belém, 69,28% dos nascimentos ocorreram por cesariana, contra 30,67% de partos vaginais. Em São Paulo, a proporção foi de 56,19% de cesarianas e 43,81% de partos vaginais.

Quando os dados são separados por tipo de atendimento, a desigualdade torna-se ainda mais evidente. Na capital paraense, as cesarianas representam 80,41% dos partos na rede privada e 61,21% no SUS. Já em São Paulo, correspondem a 71,05% na rede privada e 41,95% na pública. Embora o setor privado concentre as maiores taxas, o estudo destaca que os percentuais também permanecem elevados no SUS, especialmente em Belém.

Essa diferença reforça uma das principais conclusões do relatório: o tipo de assistência recebida altera significativamente a experiência das gestantes e influencia diretamente a decisão sobre a via de nascimento.

Medo da dor e relatos traumáticos moldam decisões

Entre os fatores psicológicos identificados pela UNICEF, o desejo de uma recuperação mais rápida aparece como um dos principais argumentos favoráveis ao parto normal. Ao mesmo tempo, o medo da dor, alimentado por relatos negativos e experiências traumáticas compartilhadas por familiares e amigas, surge como uma das maiores barreiras para sua escolha.

Segundo o relatório, essas percepções raramente nascem da experiência individual. Elas são construídas socialmente, a partir das histórias ouvidas desde antes da gravidez e das informações que circulam nas redes de apoio das mulheres.

A pesquisa observa que muitas narrativas associadas ao parto normal descrevem intervenções desnecessárias, sofrimento intenso e experiências marcadas por violência obstétrica. Nesse contexto, o medo deixa de ser apenas uma reação individual e passa a refletir problemas estruturais da assistência ao parto. O estudo afirma que “crenças, medos, experiências anteriores e normas sociais” constituem elementos centrais na tomada de decisão das gestantes.

Modelo de atendimento influencia a via de nascimento

A pesquisa mostra que as diferenças entre o SUS e a rede privada vão além das taxas de cesariana. Elas também aparecem na forma como as mulheres chegam ao momento do parto.

Entre as usuárias do SUS, predominou a percepção de que a decisão final sobre a via de nascimento está nas mãos da equipe médica, o que reduz o sentimento de autonomia. Muitas entrevistadas afirmaram evitar criar expectativas em relação ao parto por acreditarem que suas preferências dificilmente serão consideradas na maternidade. O relatório identifica esse sentimento como uma das barreiras para que as gestantes busquem mais informações ou elaborem um plano de parto.

Na rede privada, por outro lado, as mulheres relataram maior preparo para o parto, frequentemente construído por iniciativa própria. O estudo registra casos de gestantes que trocaram de obstetra durante a gravidez para encontrar profissionais favoráveis ao parto vaginal, contrataram equipes multidisciplinares ou recorreram a doulas para aumentar as chances de uma experiência alinhada às suas expectativas.

Essa diferença também reflete desigualdades econômicas. Enquanto mulheres atendidas pela saúde suplementar conseguem mobilizar recursos para buscar profissionais e serviços compatíveis com suas escolhas, usuárias do SUS dependem da organização da rede pública e da disponibilidade de equipes capacitadas.

Outro contraste importante diz respeito ao acesso à analgesia. Segundo o relatório, o recurso é amplamente disponível na rede privada, mas permanece restrito a poucos hospitais públicos de referência. Para o UNICEF, ampliar essa oferta é uma medida fundamental para reduzir o medo da dor e garantir uma experiência de parto mais digna.

Belém apresenta cenário mais crítico

A comparação entre as duas capitais também evidencia diferenças importantes.

Belém registrou taxas de cesariana superiores às de São Paulo tanto na rede pública quanto na privada. Na capital paraense, oito em cada dez partos realizados em hospitais privados ocorrem por cesariana, enquanto no SUS esse percentual ultrapassa 60%. Em São Paulo, embora os índices também permaneçam elevados, a participação do parto vaginal é significativamente maior, sobretudo na rede pública.

O UNICEF explica que a escolha das duas cidades buscou contemplar contextos regionais distintos, considerando diversidade territorial, indicadores epidemiológicos e municípios onde a organização desenvolve ações voltadas à primeira infância e à saúde materna. A comparação mostra que, apesar das diferenças locais, os fatores que influenciam a decisão sobre a via de nascimento se repetem nos dois contextos, combinando aspectos culturais, institucionais e assistenciais.

Informação qualificada e políticas públicas

Para reverter esse cenário, o relatório defende mudanças que vão além da conscientização das gestantes. Entre as recomendações estão o fortalecimento do pré-natal com informações claras sobre trabalho de parto, manejo da dor, direitos reprodutivos e elaboração do plano de parto; a ampliação dos Centros de Parto Normal; a expansão da analgesia na rede pública; a qualificação das equipes de saúde; e a revisão de modelos de financiamento que possam favorecer cesarianas sem indicação clínica.

O estudo também recomenda envolver parceiros, familiares e redes de apoio nas atividades de pré-natal, reconhecendo que mães, avós e outras mulheres exercem forte influência sobre a construção das expectativas em relação ao parto. Além disso, propõe fortalecer conteúdos confiáveis nos ambientes digitais, onde muitas gestantes buscam informações durante a gravidez.

Ao final, o estudo reforça que a elevada proporção de cesarianas no Brasil não pode ser compreendida apenas como resultado da preferência das mulheres. “Promover escolhas informadas sobre a via de nascimento, com base em necessidade clínica, escuta qualificada e respeito aos direitos, é parte essencial de uma agenda de saúde pública comprometida com a equidade e a dignidade”, afirma o prefácio do relatório.

Mais do que discutir qual é a melhor via de nascimento, a pesquisa sustenta que o desafio é assegurar que cada mulher possa tomar uma decisão realmente informada, apoiada por evidências científicas e respeitada pelos serviços de saúde. Em um país onde a maioria das gestantes inicia a gravidez desejando o parto vaginal, mas termina em uma sala de cirurgia, a distância entre desejo e realidade revela que a autonomia feminina ainda encontra barreiras que extrapolam a vontade individual.

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