Notícias

96% dos brasileiros temem diferentes formas violência e 40% dizem ter vivido alguma

Pouco mais de 96% da população brasileira com mais de 16 anos têm algum medo relacionado com a violência; 40% afirmam ter vivido alguma situação dessa natureza nos últimos 12 meses e 41% reconhecem a presença, em seu bairro, de organização criminosa (tráfico ou milícia). Tal cenário reforça a relevância do debate sobre segurança pública, principalmente neste ano eleitoral.

Os dados fazem parte da pesquisa “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança”, feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo instituto Datafolha, divulgada nesta segunda-feira (11). 

Desdobrado em recortes de gênero, raça e classe, o levantamento faz uma radiografia sobre o clima de medo da sociedade e as diferentes preocupações captadas em cada segmento. 

Ao mesmo tempo, indica que além dos elementos concretos que intensificam a sensação de insegurança num país historicamente violento, o alarmismo — sobretudo via via redes sociais — contribui para mobilizar esse sentimento. 

A centralidade da segurança pública no rol de preocupações da população brasileira é “resultante do entrecruzamento entre medo da violência, maior exposição à experiência da violência, seja de modo direto ou indireto, por redes de proximidade ou proporcionada pelas redes sociais”, diz o estudo. 

Segundo a pesquisa, de uma lista de 13 situações de crime e violência, em mais de 11% cerca de metade da população disse ter medo. Os principais temores relatados são os de golpe pela internet/celular (83,2%), roubo à mão armada (82,3%), ser morto em um assalto (80,7%) e ter o celular furtado ou (78,8%).  

Em seguida estão: ser roubado/assaltado na rua (78,6%), ser vítima de “bala perdida” (77,5%), ter a residência invadida (76,1%) e ser assassinado (75,1%).

Com isso, diz a pesquisa, “a projeção consolidada indica que 96,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais têm medo de ao menos uma dessas situações”. 

Gênero, raça e classe

As mulheres relatam maior temor que os homens em todos os itens listados pela pesquisa, mas com mais peso em alguns tipos específicos, que refletem a situação de vulnerabilidade das brasileiras. Por exemplo: o medo de ser vítima de agressão sexual é de 48,6% entre os homens, mas salta para 82,6% entre as mulheres, sendo este o terceiro maior medo delas. 

Ainda que em patamar mais baixo, a realidade feminina também se reflete no medo de andar pela vizinhança depois de anoitecer, que é de 56,7% entre as mulheres, caindo para 37,7% dos homens. Outro dado relevante neste sentido é o medo de ser agredida fisicamente por parceiro íntimo ou ex, marcando 48,6% entre elas e 35,4% entre eles. 

Esses dados indicam que, para as mulheres, o medo não se restringe ao ‘crime convencional’; ele inclui de maneira muito mais intensa a violência sexual, a restrição da circulação e a ameaça que emerge do espaço doméstico”.

Quando feito o recorte racial, a desigualdade também se estabelece. Neste caso, as maiores diferenças aparecem no medo de ser vítima de bala perdida (80,3% entre negros x 71,9% entre brancos); de sofrer agressão física por parceiro íntimo ou ex (44,3% x 37%); de ser assassinado (77,4% x 71%) e de ser vítima de agressão sexual (68,3 x 62%. 

No que diz respeito à classe social, o levantamento constatou que quanto mais vulnerável economicamente, maior a intensidade do medo, com hierarquias distintas. 

Nas classes A/B, pesam mais os crimes patrimoniais, a violência urbana, golpe digital e financeiro. Este último atinge 78,8% dos medos relatados nesse estrato, seguido de roubo à mão armada (78,7%), ser morto em assalto (77%) e ter o celular roubado (76,8%). 

Na classe C, diz a pesquisa, “as situações que mais provocam medo são similares, mas com maior intensidade”: golpe digital é o mais citado (84,6%), seguido pelo roubo à mão armada (82,4%) e morte em assalto (81%). Roubo na rua e de celular ficam com 78,7% cada, enquanto o medo de bala perdida fica com 78%. 

Ao analisar as classes D/E, o FBSP verifica que o maior medo deixa de ser o golpe digital e passa a ser o roubo à mão armada (85%); na sequência, estão o medo de ser morto durante assalto (83%) e o de ser vítima de bala perdida (82,3%). 

Vitimização 

Outro dado relevante desdobrado na pesquisa diz respeito aos 40% dos entrevistados que afirmaram ter vivido ao menos uma das 13 situações de violência investigadas nos últimos 12 meses, o que corresponde a 66,8 milhões de pessoas.

Considerando a frequência, o mais vivenciado foi o crime de golpe com perda de dinheiro na internet ou celular, relatado por 15,8%, seguido de 13% que disseram ter tido algum familiar ou conhecido assassinado — neste caso, vê-se que a população negra é claramente a mais atingida: no recorte racial, o percentual pula para 15%, ante 9,8% dos brancos. 

Na terceira posição, 12,4% de todos os entrevistados disseram ter sofrido fraude ou desvio de recursos por seus aplicativos bancários ou via pix e na quarta, 9,7% afirmaram que ter tido algum conhecido vítima de bala perdida.

A percepção e a vivência de situações violentas também resultam numa mudança comportamental. A pesquisa captou que mudar um percurso rotineiro (36,5%), deixar de sair à noite (35,6%) e deixar de sair com o celular (33,5%) foram as transformações mais relatadas. “Os dados indicam que a principal resposta social ao medo não é o recolhimento absoluto mas a gestão cotidiana do risco”, diz o FBSP.

Também neste caso, as mulheres acabam sendo as que mais sentem necessidade de se adequar ao cenário de insegurança. Por exemplo, deixar de sair à noite é apontado por 40,9% delas contra 29,8% dos homens. 

Presença do crime organizado

Embora não seja novidade, a grande presença de organizações criminosas no cotidiano da população não deixa de ser chocante: ao todo, 41% dos brasileiros dizem perceber, em seu bairro, a atuação desses grupos, sejam eles ligados ao tráfico ou à milícia, contra 51% que dizem não reconhecer tal presença. (GRÁFICO 12)

Nas grandes cidades, o percentual dos que percebem esses grupos é de quase 56%, contra 46% em municípios da região metropolitana e 34% no interior. 

“Em termos analíticos, isso sugere que a atuação desses grupos não é percebida como fenômeno excepcional ou restrito a áreas muito específicas, mas como uma experiência socialmente disseminada, que já integra o horizonte de insegurança de parte expressiva da população”, destaca o levantamento. 

Cabe destacar, ainda, que entre os que percebem a atuação dessas organizações, apenas 9% a classificam como nada visível; 43,4% a consideram pouco visível; 21,1% visível e 25,3% muito visível. A soma destes dois últimos atinge 46,4% (cerca de 32 milhões de pessoas). O FBSP destaca que esse dado é importante porque indica que “a presença do crime organizado, mesmo quando não se impõe de forma ostensiva, é percebida no cotidiano local”. 

A influência dessas organizações nas decisões dos moradores e nas regras de convivência do bairro é classificada como um dos achados destacados da pesquisa: 34,9% dizem que esses grupos influenciam muito e 26,5%, moderadamente. Isso significa que 61,4 % (42,2 milhões de pessoas) reconhecem os níveis mais altos de influência. 

Nesse caso, o FBSP aponta para o fenômeno da governança criminal, ou seja, “a capacidade de grupos armados de impor regras, restringir comportamentos, arbitrar conflitos e moldar a rotina de civis não membros”. 

Como efeito da presença dessas organizações, 81% dizem ter medo de ficar no meio de confrontos armados; 75% evitam frequentar certos locais; 71% temem que um familiar se envolva e 65% evitam circular em determinados horários. Além disso, 64% têm medo de sofrer represálias por denunciar crimes e 59,5% evitam falar sobre política. 

“Projetando para a população, significa dizer que 65,4 milhões de brasileiros alteram seus hábitos em função da presença de grupos criminosos armados no seu bairro”, ressalta a pesquisa. 

Neste sentido, o FBSP enfatiza que para o debate eleitoral de 2026, essa é uma implicação central: “segurança pública não pode ser apresentada apenas como promessa de confronto ou endurecimento penal, mas como tarefa de proteção das comunidades mais expostas e de recuperação das condições mínimas para que justiça, circulação e projeto de futuro deixem de ser condicionados pelo poder armado”. 

Agenda eleitoral

Com base nos achados da pesquisa, bem como em levantamentos e análises anteriores, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública propõem tópicos de uma espécie de agenda programática para estas eleições. 

Entre os principais itens estão a proteção da vida e a redução da violência letal como elementos prioritários do combate à violência; o enfrentamento ao crime organizado por meio da inteligência, da coordenação federativa, da investigação e controle de fluxos financeiros e a presença estatal contínua nos bairros mais vulneráveis, fronteiras e territórios com infraestrutura estratégica, como portos e aeroportos. 

Além disso, defende a proteção do cidadão contra roubos, furtos e assaltos à mão armada como fator básico para restabelecer as condições mínimas de circulação no espaço público. 

Por fim, ressalta que “nenhuma agenda eleitoral será consistente se não incorporar a proteção das mulheres e outros grupos vulneráveis. A violência que atravessa o lar, as relações íntimas e a vida familiar precisa ser tratada como problema estrutural da segurança pública”. 

O post 96% dos brasileiros temem diferentes formas violência e 40% dizem ter vivido alguma apareceu primeiro em Vermelho.