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Colonos e soldados israelenses mantêm famílias sitiadas na Cisjordânia

Famílias palestinas estão há quase uma semana sitiadas dentro de suas próprias casas por colonos e soldados israelenses na aldeia de Qusra, perto de Nablus, na Cisjordânia ocupada.

Três famílias estão confinadas em duas residências, enquanto uma terceira casa foi tomada pelas forças de ocupação israelenses. Entre os moradores cercados estão duas meninas com menos de cinco anos.

Segundo relatos feitos à Al Jazeera, colonos e soldados israelenses se revezam no entorno das casas e controlam quem pode chegar até os palestinos. 

A entrada de alimentos e água, assim como os trabalhos para restabelecer as redes de eletricidade e abastecimento sabotadas pelos colonos, dependem de autorização militar.

Ao mesmo tempo, os próprios colonos circulam pela área e tentam entrar nas residências.

Os moradores relatam que os estoques de comida estão acabando e que vivem sob medo constante de uma invasão. Imagens de câmeras de segurança registraram colonos derrubando um muro diante de uma das casas e utilizando as pedras para bloquear a estrada de acesso.

My latest report from Qusra, where Israeli settlers continue to besiege 3 Palestinian homes, 1 of which is owned by a US citizen.
The IDF has so far failed to remove the settlers & is now deploying a battalion.
We tried to reach the residents, but Israeli soldiers stopped us.
W/… pic.twitter.com/mGeKjaobl3

— Jeremy Diamond (@JDiamond1) August 13, 2026

“Estamos vivendo em nossa própria casa, em nossa própria terra, e não pedimos nada além do direito de viver com segurança e dignidade”, escreveu Qusay Abu Ridi nas redes sociais.

Aysha Hassan relatou que os colonos tentaram arrombar o portão de sua residência e atacaram a família com pedras, insultos e ameaças. “Estamos morrendo de medo, extremamente aterrorizados”, afirmou à Reuters.

Uma ambulância palestina só conseguiu chegar às famílias na terça-feira (11), depois de dias de bloqueio. O veículo levou alimentos e retirou uma criança que precisava de atendimento médico.

Exército ocupa casas palestinas

A presença das forças militares israelenses não impediu o cerco. Nos primeiros dias, soldados enviados ao local após uma denúncia dos palestinos chegaram a ser filmados rezando ao lado dos colonos.

Jornalistas do jornal israelense Haaretz também foram impedidos pelos colonos de chegar às casas. Segundo os repórteres, soldados se recusaram a intervir durante duas horas e alegaram que a região havia sido declarada zona militar fechada. A restrição, porém, não foi aplicada aos colonos.

Na quarta-feira (12), o comandante das forças israelenses na Cisjordânia, general Avi Bluth, foi a Qusra e prometeu retirar o posto avançado montado pelos colonos.

As forças israelenses removeram uma tenda, mas deixaram no local os colonos e seus equipamentos. Após confrontos, soldados e policiais de fronteira utilizaram gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral, mas recuaram sem retirar todo o grupo.

Colonos israelenses são flagrados por câmeras de segurança usando pedras para bloquear uma estrada em Qusra, na Cisjordânia ocupada. Foto: Reuters

No dia seguinte, o Exército israelense tomou oito casas palestinas sob a justificativa de realizar uma operação de três dias contra os colonos. Seis foram posteriormente devolvidas aos moradores.

Qusay Ridi contou que sua família inicialmente se recusou a abandonar a residência, mas acabou sendo transferida pelos militares para outra casa. Quando conseguiu retornar, encontrou o sistema de câmeras de segurança danificado e percebeu o desaparecimento de equipamentos.

A residência de seu vizinho Yousef Hassan continuou ocupada pelos soldados.

O Exército israelense afirmou que havia determinado que os palestinos permanecessem em suas casas e que os militares não deveriam ocupar as residências sitiadas. Questionado pelo Guardian sobre o descumprimento das ordens, o Exército não apresentou explicação.

“Tentativa de limpeza étnica”

A relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, afirmou à Al Jazeera que o cerco em Qusra deve ser entendido como parte da política israelense aplicada há décadas nos territórios palestinos.

“Israel terceirizou a coerção aos colonos e está promovendo violentamente a limpeza étnica da Palestina por meio dos colonos”, afirmou.

Albanese lembrou que a Corte Internacional de Justiça considera ilegal a ocupação israelense e disse que, mesmo em uma operação militar legítima, a população civil deveria ser protegida.

Ativistas tentam levar alimentos e água a famílias palestinas sitiadas em Qusra, enquanto soldados israelenses bloqueiam a estrada de acesso às casas. Foto: Reprodução

“Ministros israelenses disseram há dois anos que, quando terminassem com Gaza, passariam para a Cisjordânia. E é isso que estão fazendo”, declarou. “É incrível e absolutamente vergonhoso ver a comunidade internacional permitir que isso aconteça.”

O ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert também classificou o cerco como uma “tentativa coordenada e meticulosa de limpeza étnica”.

“São crimes contra a humanidade ativamente apoiados pelo governo israelense e auxiliados pela indiferença e pela total falta de ação do Exército e da polícia israelenses”, afirmou.

Até o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, conhecido pelo apoio aos assentamentos israelenses, classificou o cerco como um “ato horrível de terror” praticado por “terroristas israelenses”.

Violência de colonos expulsa comunidades palestinas

O cerco de Qusra repete uma estratégia utilizada em outras localidades da Cisjordânia ocupada.

Em julho, colonos cercaram durante semanas uma casa palestina na aldeia vizinha de Jalud. Sem proteção das forças israelenses, a família acabou abandonando o imóvel, que foi tomado pelos colonos. Nesta semana, soldados e colonos israelenses foram filmados jogando futebol juntos no terraço da residência ocupada.

Em Qusra, a violência já havia deixado outras marcas. Em março, o palestino Amir Moatasem Odeh, de 28 anos, foi morto por um colono na região, enquanto seu pai foi esfaqueado. Ninguém foi preso pelos ataques.

No mês passado, uma mesquita recém-construída na aldeia foi incendiada e pichações em hebraico foram deixadas nas proximidades.

Segundo a ONU, 76 palestinos, entre eles 18 crianças, foram mortos por forças ou colonos israelenses na Cisjordânia desde o início deste ano. Três israelenses, incluindo um civil, morreram em confrontos ou ataques atribuídos a palestinos no mesmo período.

Desde janeiro de 2023, 127 comunidades palestinas sofreram deslocamento total ou parcial. Em 47 delas, toda a população foi expulsa. Mais de 6,3 mil palestinos foram afetados.

Somente em 2026, cerca de 3,8 mil palestinos — quase metade crianças — foram deslocados pela violência dos colonos, demolições e expulsões, segundo as Nações Unidas.

O vice-coordenador especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio, Ramiz Alakbarov, afirmou ao Conselho de Segurança que a violência dos colonos atingiu “níveis sem precedentes” e alertou que “a Cisjordânia está no limite”.

Os assentamentos israelenses nos territórios palestinos ocupados são ilegais segundo o direito internacional. Apesar disso, o embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, afirmou ao Conselho de Segurança que os assentamentos permanecerão e continuarão crescendo.

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