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“As apostas online estão destruindo as famílias por dentro”, afirma pesquisa

Uma pesquisa divulgada em agosto analisou a relação das mulheres com as apostas online, com dados alarmantes, como o de que 42% das mulheres já realizaram apostas. Boa parte com filhos e com desejos de consumo simples, segundo Ana Clara Toledo, coordenadora da “Mulheres e Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias”.

A gravidade da situação é consenso e ultrapassa, inclusive, questões ligadas à polarização política, já que 62% dos eleitores de Lula e 56% de Bolsonaro apoiam o encerramento das atividades. 

Na opinião de Ana Clara Toledo, ativista e integrante do Estúdio Clarice, as mulheres precisam ser ouvidas na formulação das políticas públicas de combate ao problema, que tem diferentes faces: econômica, social, familiar e de saúde. Confira a entrevista: 

Reprodução / Ana Clara Toledo – coordenadora da pesquisa “Mulheres e Bets”

Como vocês identificaram que era necessário olhar para essa relação das mulheres com as apostas? Muitas vezes este acaba sendo um tema mais associado como um problema ligado aos homens, não é? 

O diagnóstico surgiu exatamente disso. Quando a gente pensa em apostas no Brasil, a gente normalmente pensa em um homem apostando em futebol, mas os números já falavam que as mulheres estavam apostando cada vez mais. Além disso, já mostravam o endividamento das famílias brasileiras, e não dá para falar da família brasileira sem falar da mulher. Então, se a mulher está apostando mais e se a família dela está endividada, está faltando essa perspectiva feminina dentro da discussão também e foi por isso que a gente foi para esse lado na pesquisa.

A pesquisa fala das mulheres a partir de dois aspectos. Delas enquanto apostadoras e sofrendo as consequências com outros membros da família que jogam. Comenta um pouco desses perfis. 

Na pesquisa, a gente entrevistou tanto mulheres que apostam quanto as mulheres impactadas, que são mulheres que têm um apostador dentro de casa e se sentem afetadas por essa aposta do outro. E aí é uma perspectiva muito interessante, porque a gente consegue ter uma visão 360 dessa crise, tanto do ponto de vista de quem tá sequestrada por aquele jogo, quanto do ponto de vista de quem tá pagando a conta por um jogo que nem joga, né? É muito interessante porque elas convergem em muitos momentos e elas divergem em muitos momentos também. E talvez uma das grandes diferenças entre a apostadora e a impactada é que a apostadora acredita por muito mais tempo na promessa, na ilusão que as apostas prometem a ela. Então, porque às vezes ela ganha e muitas vezes ela perde, ela fica em um certo pêndulo que cria uma espécie de ambiguidade. Ela pensa ‘já perdi muito e eu deixei de fazer muita coisa por causa dessas apostas, mas de vez em quando eu também ganho um pouco e aquilo também me ajuda na minha vida prática’. A impactada, quando tem o apostador dentro de casa, primeiro acaba comprando um pouco dessa promessa também, então ela pensa que essa prosperidade que é prometida pelas bets vai se estender para ela e para o resto da família, mas ela rapidamente vê que é uma cilada. Elas chamam de armadilha, de câncer, droga, lavagem cerebral, e elas são as maiores ativistas, as maiores mobilizadas contra as bets porque elas percebem e elas vivem na própria pele os impactos negativos que as bets causam dentro de casa. E é importante porque aponta o fato de que as políticas públicas devem ouvir as mulheres, principalmente por isso, porque elas têm esse diagnóstico. 

Ainda nesse perfil das apostadoras, a pesquisa mostrou que as mulheres com filhos apostam mais e que dentre os motivos listados estão, por exemplo, pagar contas atrasadas, dívidas, colocando as bets como uma saída ao invés de grandes ideais de prosperidade. Como você avalia esse ponto?

Isso é super importante. Para entender porque que essa mulher começa a apostar, e quem é essa mulher que começa a apostar, a gente tem que entender como que tá a vida dela quando a aposta bate na porta prometendo renda fácil e rápida. E aí a gente conversa com essas mulheres e elas contam para a gente de uma vida que a gente chamou no na nossa pesquisa de “vida mínima”. Então é uma vida muito reduzida à sobrevivência imediata, estão sempre muito pressionadas para pagar a conta do final do mês, às vezes nem dá para pagar essa conta, e sempre muito aquém dos desejos. E quando a gente fala do desejo dessa mulher, não é um desejo de enriquecer, de viver uma vida luxuosa, a vida da influenciadora do Instagram. Na verdade, elas estão falando de poder comprar um presente para o filho, comprar o material escolar sem preocupação, pedir um delivery em casa para comer com o marido e levar os filhos ao cinema. Para essa mulher, prosperidade é deitar a cabeça no travesseiro sem se preocupar sobre ter dinheiro para pagar o boleto do gás no dia seguinte e sem se preocupar com precisar dizer não para o filho, que é uma coisa que traz uma sensação de impotência gigantesca para essas mulheres. E foi o que a gente viu nessa pesquisa. 

“As apostas exploram justamente esse lugar do cuidado da mulher”. 

A mulher que cuida dos filhos, a mulher que cuida da família, que quer poder prover um pouquinho mais, poder dizer um pouquinho mais de ‘sim’ para os seus filhos, mas não pode porque a vida está muito reduzida, a sobrevivência imediata, principalmente depois da crise financeira gigantesca deixada pela pandemia, e aí quando a aposta bate na porta e fala ‘olha só, aqui tem dinheiro rápido, aqui tem dinheiro fácil’, ela vai e compra essa promessa. E aí uma vez que a aposta entra dentro de casa, ela é seguida de uma destruição muito grande daquele mesmo lar quando ela só queria viver um pouquinho melhor, com um pouquinho mais de dignidade.

E nesse lugar de cuidado que você citou que as mulheres ocupam, como se dá o processo quando a situação escala para um grande endividamento? Por exemplo, vemos vários casos em que o marido ou os filhos acabam endividados e essas mulheres pedem empréstimos e tentam alternativas para sanar a dívida, e quando elas são as apostadoras, o contrário também acontece? Muitas são mães solo, inclusive… 

Observamos estratégias diferentes a depender se você é a mulher que aposta ou se você é a mulher que tem um apostador dentro de casa. Para quem tem um apostador dentro de casa, elas recorrem a muitas estratégias diferentes. A gente ouviu as mulheres falando, por exemplo, que pegaram o aplicativo do banco da filha e colocaram no próprio celular para conseguir monitorar as transações, muitas contam que restringem de alguma forma o acesso ao celular. Ouvimos uma mãe que contou para a gente que o filho tentou cometer suicídio e aí ela colocou uma cadeira na frente da porta do quarto dele e ela ficava ali sentada a noite inteira vigiando para ter certeza que ele não ia se ia se machucar de novo. Uma mãe de uma menina de 17 anos, que, na verdade, nem poderia apostar, precisou levar a filha para o psiquiatra e precisou fazer uma intervenção na vida da filha que já estava se cortando, se machucando por causa do vício nas apostas. Elas tentam cuidar da família de muitas maneiras, tentam colocar limites para a pessoa que está ali adoecendo, presa na armadilha. Quando a mulher aposta, a gente vê que o tensionamento entre ‘isso está dando certo e isso está virando um problema’ aparece principalmente quando o orçamento da casa é comprometido. Então, é quando o papel dela, de cuidar da família e de administrar aquele lar, é comprometido pelas apostas. Quando ela perde o dinheiro de uma conta de gás ou consegue comprar o bolo de aniversário para o filho. Tem alguns cenários diferentes, mas sempre relativos a isso. E aí elas tentam algumas estratégias diferentes. Tem mulheres que já usaram a plataforma de autoexclusão do governo, tem mulheres que começam a impor limites financeiros com ‘eu só aposto tanto por semana, eu só fico tantas horas jogando, se eu perco tanto eu paro’, mas é muito difícil você estabelecer esses limites porque a plataforma, os jogos, eles são feitos para te deixar ali dentro e para fazer com que você queira apostar de novo. Principalmente quando você perde, a primeira coisa que as pessoas pensam é ‘eu vou apostar de novo para recuperar o que eu perdi’. Então a plataforma torna essa saída do jogo muito difícil mesmo com essas mulheres estabelecendo alguns limites para si. 

A pesquisa trouxe um experimento comparando a visão das pessoas sobre a responsabilização do apostador a partir do gênero. O que vocês avaliaram a partir desse recorte?

Foi na pesquisa quantitativa. A gente criou uma pequena história e quatro versões dela foram apresentadas para grupos numericamente parecidos. Então, a história central é mais ou menos assim: Mariana é responsável pela administração da casa dela, ela tem dois filhos e aí numa tentativa ela joga um dia, aposta e ela perde o dinheiro do aluguel. Então, ela não consegue pagar o aluguel naquele mês e ela é a principal provedora dessa família. A história tem algumas variações, então, para algumas pessoas é a Mariana, para outras pessoas é o Marcos. Então, às vezes uma mulher que aposta, às vezes um homem que aposta, e em uma versão da história eles têm filhos e em outra versão não tem filhos. Ainda é responsável pela gestão da casa, mas não tem filhos para cuidar. E aí a gente fez uma série de perguntas para os entrevistados na pesquisa, se eles culpavam, se eles colocavam a culpa na Mariana, a culpa no Marcos, como que eles enxergavam essa pessoa que apostou e que perdeu o dinheiro do aluguel nas apostas. E aí o que a gente viu primeiro é que a sociedade absolutamente responsabiliza o apostador. Então, ao invés do responsável ser a plataforma, ser a casa de apostas – que é feita justamente para sequestrar, é como uma armadilha para essas pessoas – a responsabilidade recai toda sobre o indivíduo. E a gente também descobriu uma coisa muito triste, que é que quando a mulher tem filhos, ela é mais culpada do que o homem com filhos, como se a maternidade subisse a régua de cobrança e a paternidade baixasse. Então, o Marcos só estava só tentando cuidar da família, enquanto que a Mariana é mais irresponsável porque ela tinha filhos e porque ela apostou e perdeu. 

Um dos pontos centrais da pesquisa é mostrar que as políticas públicas capazes de frear o avanço do problema devem ser elaboradas ouvindo as mulheres, que trazem o diagnóstico completo da situação. Quais são essas políticas? Vocês têm um mapeamento? 

A gente apontou para três principais caminhos de política pública. O primeiro é o do cuidado com quem aposta e por quem é impactado pelas apostas. Então, o investimento na saúde pública para cuidar dessas pessoas que estão viciadas naquele jogo, que estão com a renda, suas relações, e saúde mental comprometidas por causa do jogo, seja porque eles jogam, seja porque algum familiar, alguma pessoa amada joga. O segundo ponto é evitar que mais gente comece a apostar. É importante falar que metade dos brasileiros já aposta. A gente precisa parar isso antes que ultrapasse esse limite da metade. E aí quando a gente pensa nas pessoas não apostarem, não começarem a apostar, a gente tá falando principalmente de uma restrição maior de propaganda. E aí tem duas coisas que a gente identificou como muito graves no universo da propaganda, não são as únicas, mas a gente ouviu muitos relatos de mulheres que já receberam propostas que em que diretamente se falava que elas iam ganhar a partir das perdas dos seus amigos. Então, digamos assim, eu começo a promover uma plataforma de aposta e aí eu mando o meu link para os meus amigos e eles perdem. Eu ganho 50% de tudo que eles perderam. Isso precisa ser parado imediatamente e tem uma outra estratégia de publicidade, de propagação das bets muito inteligente e acho que muito perversa, que é a lógica da recomendação. Então, mesmo que eu não esteja trabalhando para uma casa de apostas, se eu compartilho o meu link do jogo e uma pessoa joga nele, eu ganho um bônus, eu ganho uma espécie de crédito dentro da plataforma. Isso faz com que as pessoas que a gente mais confia, a nossa rede pessoal, nosso pai, nossa mãe, o nosso marido, o nosso filho, nossa vizinha, sejam justamente as pessoas que apresentam a aposta para gente, que botam as apostas nas nossas vidas. Então, isso também precisa ser melhor regulamentado. E aí, como um terceiro caminho, a gente fala sobre a descontinuação das apostas. Sabemos que é um processo gradativo, que precisa ter muito monitoramento, acompanhamento, mas a gente fala um pouco sobre começar pela descontinuação, então, pela proibição dos cassinos online, que são justamente as plataformas que as mulheres mais jogam, que são muitas vezes as mais perversas pela sua lógica. Então a gente aponta um pouco para esses três caminhos de política pública e acho que são caminhos que têm, de fato, sido explorados pelo poder público.

Um dado interessante da pesquisa é que as bets superam a polarização política e são apontadas como um mal tanto para eleitores de Lula quanto para eleitores de Bolsonaro. Ou seja, uma pauta transversal. Apesar disso, só um candidato, o Lula, se posicionou contra as bets. Como você avalia?

É muito raro, né? A gente tá vivendo um país altamente polarizado, poucos assuntos são consenso na população e esse é um deles. Isso mostra como é grave. É um consenso que as apostas fazem mal, que estão destruindo as famílias e é um consenso que a gente precisa frear as apostas de alguma forma, inclusive é um consenso a proibição, não importa se eu sou de direita, se eu sou de esquerda, os brasileiros acreditam que tem que proibir aposta online no Brasil. Essa transversalidade da pauta é muito rara. Então, eu acho que isso também coloca as apostas como um tema bastante quente e há uma certa bola que ainda tá quicando e que ninguém cortou com muita força ou com muito direcionamento ainda. E acho que ainda mais nesse período de eleições seria interessante olhar para as apostas online, para a regulação ou para proibição das bets, como um tema que é muito relevante para ser discutido nesse momento. As mulheres são um eleitorado essencial e estão sentindo nas famílias, no cotidiano delas o mal que as apostas fazem e elas querem que isso acabe, elas precisam do apoio do poder público para isso. Então, eu acho que quando a gente vê que é uma pauta que ela é um consenso na esquerda e na direita, ela também se mostra uma pauta muito relevante, que merece mais atenção dos candidatos.

E o impacto não é apenas econômico, né?

Quando ouvimos o que essas mulheres contam sobre como ficam as famílias delas depois que as bets entram em casa, isso fica muito claro. Porque a gente tem muitos depoimentos de mulheres falando que precisaram fazer empréstimo, que não conseguiram pagar a conta, que a família se dividiu mais por causa das apostas, então o impacto econômico é só uma face desse prisma.

Então a gente tem quase um quarto da população brasileira que conhece ou presenciou situações em que as apostas contribuíram com violência dentro de casa. A gente ouve essas mulheres falando que quando um familiar, principalmente quando o marido começa a apostar, acaba a confiança dentro de casa. Então elas falam que é como uma traição para elas. Uma quebra total de confiança dentro de casa. Como a família sobrevive a isso? A gente ouve muito elas falando sobre o adoecimento mental. Então, as mulheres quando elas perdem, principalmente, elas se isolam, elas sentem uma culpa gigantesca, não só a sociedade culpa elas, mas elas também se culpam. Elas sentem muita vergonha. E aí nas entrevistas, a gente ouve essas mulheres falando que tiveram tremedeira, crise de pânico, coração disparado e que tiveram vergonha de pedir ajuda porque elas têm vergonha de admitir que elas apostam e que elas perderam um dinheiro que era importante, que era para o bolo de aniversário do filho em uma aposta online. Então, é um impacto gigantesco, é um impacto na carteira, afetivo nas relações, coloca as mulheres em situação de risco, de violência, de insegurança e acaba com a saúde mental de todo mundo. 

“É uma destruição que não é só econômica, ela é afetiva, de saúde, das relações e por isso que ela merece tanta atenção“.

A pesquisa Mulheres e Bets aparece relacionada com outra pesquisa do Estúdio Clarice chamada Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras. Como os levantamentos se relacionam?

É uma conexão muito interessante que a gente faz com essa pesquisa, a do imaginário de poder, em que a gente vê que o lugar que a mulher sente que tem mais poder é justamente dentro de casa. E as apostas estão destruindo a casa e a família por dentro. Então, elas se infiltraram no lugar onde a sociedade reconheceu às mulheres o seu maior poder e onde as mulheres se sentem mais poderosas e estão destruindo esse lugar por dentro. Então, estão destruindo também o pouco poder que essas mulheres tinham.