
Não me surpreende que a mobilização digital tenha ganhado tanto protagonismo na reta final desta eleição. O que me surpreende é que ainda exista surpresa com isso. Afinal, organizar pessoas para agir coletivamente sempre foi uma das maiores forças da política, principalmente do campo progressista. E é justamente essa lógica que André Janones está recuperando, em outra escala, com o Exército do Lula.
Em poucas semanas, o canal de WhatsApp organizado pelo deputado ultrapassou oito milhões de seguidores, transformando-se em um dos fenômenos de mobilização desta eleição. Mas, para mim, o mais interessante não é apenas o crescimento impressionante dessa comunidade digital. É o que Janones está fazendo com ela: convocando pessoas, distribuindo missões e transformando apoiadores em participantes ativos de uma campanha.
Há muito mérito nessa iniciativa, sobretudo porque ela recupera um princípio que deveria ser central em qualquer estratégia política: pessoas organizadas têm uma capacidade de ação muito maior do que indivíduos que apenas consomem conteúdo.
Nos últimos anos, a comunicação digital ganhou enorme centralidade nas campanhas eleitorais. Aprendemos a produzir vídeos, disputar tendências, investir em anúncios e perseguir milhões de visualizações. Tudo isso importa, sem dúvida alguma. Mas, em algum momento, parece que passamos a confundir comunicação com mobilização. Como se alcançar milhões de pessoas fosse a mesma coisa que organizá-las. Não é. Existe uma diferença enorme entre ter uma audiência e construir uma comunidade capaz de agir coletivamente.
É essa diferença que torna o Exército do Lula tão interessante. A estratégia parte de uma lógica relativamente simples: reunir o maior número possível de pessoas em um canal de comunicação direta, criar uma identidade coletiva e oferecer tarefas concretas para que elas participem. Não se trata apenas de informar os apoiadores sobre o que está acontecendo na campanha, mas de dar a eles um papel ativo no que acontece a partir dali.
Quem trabalha com mobilização digital sabe que nem todas as pessoas de uma comunidade vão participar de todas as ações. Vivemos em um ambiente de atenção fragmentada, atravessado por uma quantidade quase que infinita de estímulos e distrações. Parte das pessoas sequer verá uma convocação. Das que virem, apenas uma parcela executará a tarefa.
Mas, quando estamos falando de milhões de pessoas conectadas, mesmo uma participação proporcionalmente pequena pode representar centenas de milhares de ações concretas. É por isso que crescer uma comunidade importa tanto. Não como uma disputa por números, mas como a construção de uma base cada vez maior de pessoas que podem ser mobilizadas.
Outro ponto que considero fundamental é entender que a mobilização digital não significa mobilização restrita ao ambiente digital. O celular é o instrumento que permite alcançar, conectar e organizar pessoas, mas a ação política não precisa terminar nele.
Uma missão pode ser compartilhar um vídeo, comentar uma publicação ou enviar uma mensagem. Mas também pode ser conversar com um vizinho, ligar para um familiar, procurar um colega de trabalho ou puxar uma conversa política na padaria. A mobilização acontece quando conseguimos transformar uma convocação em ação, independentemente de onde essa ação se realiza.
Essa é, inclusive, uma das maiores potências das ferramentas digitais: permitir que milhões de pessoas espalhadas por diferentes territórios sejam convocadas e organizadas em torno de objetivos comuns. Algo que antes dependia de uma estrutura presencial muito mais extensa pode hoje ser articulado com uma velocidade impressionante. Isso não elimina a importância da organização territorial, dos movimentos sociais ou da militância de rua. Pelo contrário, oferece novas possibilidades para ampliar sua capacidade de atuação.
E é justamente aqui que quero fazer uma provocação ao campo progressista. A esquerda brasileira tem uma tradição extraordinária de organização popular. Aprendemos a fazer política nos sindicatos, nos movimentos estudantis, nas associações de bairro, nas comunidades e nas ruas. Sabemos construir vínculos, organizar coletivos e mobilizar pessoas em torno de causas comuns. Mas nem sempre conseguimos transportar essa experiência para o ambiente digital. Em muitos momentos, parece que nos preocupamos tanto em aprender a disputar as redes sociais que deixamos em segundo plano aquilo que historicamente fizemos melhor: organizar gente.
Isso não significa que faltem experiências importantes de mobilização digital no campo progressista. Elas existem, e muitas vêm sendo construídas há anos. Mas ainda precisamos fazer dessa capacidade uma prioridade permanente, e não apenas uma iniciativa extraordinária que ganha força nos momentos mais decisivos de uma eleição.
Organizar uma comunidade exige mais do que reunir contatos: exige construir confiança, cultivar vínculos, estabelecer uma comunicação contínua e fazer com que as pessoas percebam que sua participação importa.
O que Janones está demonstrando com o Exército do Lula é a capacidade de transformar uma audiência gigantesca em uma estrutura de convocação política. Ainda será necessário compreender quanto dessa mobilização efetivamente se traduz em votos, mas sua capacidade de reunir pessoas e colocá-las em movimento já merece atenção. Não porque tenha inventado a mobilização política, mas porque soube reconhecer sua importância e utilizar as ferramentas digitais disponíveis para colocá-la no centro da disputa.
Talvez a principal lição dessa reta final seja justamente essa. A mobilização não deveria ser tratada como um recurso emergencial, acionado quando uma eleição aperta, mas como parte estruturante de qualquer projeto político que pretenda construir força social. O desafio não é simplesmente conquistar mais seguidores, produzir mais conteúdo ou alcançar mais pessoas. É construir comunidades que continuem organizadas e capazes de agir também depois que as urnas forem fechadas.
A esquerda não precisa aprender a mobilizar com a internet. Precisa aprender a usar a internet para potencializar aquilo que sempre soube fazer: organizar pessoas. E, se o Exército do Lula ajudar a recolocar essa discussão no centro das nossas estratégias, sua contribuição já terá ido muito além desta eleição.
O post Janones, o Exército do Lula e a força de organizar pessoas apareceu primeiro em Vermelho.
