
Flávio Bolsonaro acredita que a memória do eleitor é curta e que vale qualquer promessa para arrancar votos na reta final da campanha. Na sexta-feira (23), durante o debate da TV Globo, o senador vestiu a fantasia de defensor dos animais e prometeu ampliar a Lei Sansão (Lei 14.064/2020), que endureceu as penas para maus-tratos contra cães e gatos, para incluir também animais silvestres. “Eu quero me comprometer com essa causa”, declarou.
O detalhe que o candidato convenientemente deixou de fora é seu próprio histórico no Senado: em 2024, Flávio deu parecer favorável a um projeto que concede porte automático de armas a caçadores, atiradores esportivos e colecionadores. Para conquistar o eleitorado da causa animal, promete proteger a fauna; quando o assunto é ampliar o acesso a armas para caçadores, seu discurso toma outro rumo.
Em abril de 2024, Flávio apresentou parecer favorável ao Projeto de Lei 2.666/2023, de autoria do senador Jorge Seif (PL-SC), que pretende conceder porte automático de armas de fogo a colecionadores, atiradores esportivos e caçadores, os chamados CACs. A proposta altera o Estatuto do Desarmamento e inclui a caça entre as atividades usadas para justificar a necessidade de transportar armas. O projeto continua em tramitação no Senado.
Agora, o mesmo senador que apoia a ampliação do porte de armas para caçadores quer convencer os eleitores de que a proteção animal é uma de suas prioridades. A contradição não exige malabarismo: basta colocar o discurso do debate ao lado de seu parecer legislativo.
Promessa eleitoral não apaga histórico
Na Globo, citou um suposto estudo do FBI sobre a relação entre maus-tratos a animais e comportamentos violentos e prometeu usar esse conhecimento no combate à violência. Também defendeu apoio federal às prefeituras para ampliar programas de castração e atendimento veterinário gratuito. São propostas que podem ser discutidas, mas que precisam de detalhamento, metas e recursos. No debate, o candidato anunciou compromissos sem apresentar como pretende tirá-los do papel.
A poucos dias da eleição, a causa animal aparece como mais um tema ao qual Flávio quer associar sua imagem. O problema é que seu plano de governo não traz uma política específica de proteção animal à altura das promessas feitas diante das câmeras.
O eleitor merece mais que discurso de ocasião
Quem promete proteger a fauna precisa explicar como essa promessa se concilia com o apoio à ampliação do porte de armas para caçadores. Flávio pode acrescentar a proteção animal à lista de promessas eleitorais. O que não pode é esperar que o discurso da última hora apague suas escolhas no Senado. Na televisão, posa de defensor dos animais; no Congresso, apoiou mais porte de armas para caçadores. A campanha tentar mudar o discurso, mas o histórico permanece.
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