A promessa do “tesouraço” de Flávio de Bolsonaro (PL) para cortar quase R$ 200 bilhões dos gastos, em 18 meses, pode ser uma armadilha para a população com pouco acesso à renda. Isso por que um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) aponta que os cortes devem reduzir 2,2 milhões de postos de trabalho, gerar R$ 68,7 bilhões em perdas de massa salarial e causar impacto de R$ 203,1 bilhões no PIB já em 2027, primeiro ano da implementação.
Técnico do Dieese e autor do estudo, Leonardo Horie, explica que a simulação foi realizada como base em análises de dados públicos do tesouro, disponíveis em portais de transparência. De acordo com ele, a “Proposta de Lei Orçamentária Anual já está entregando R$ 18 bilhões de superávit primário. Eles garantem entregar R$ 116 bi este ano e R$ 68 bilhões até o meio do ano que vem, valores que somados totalizam R$ 194 bilhões”.
Este valor corresponde a 1,5% do PIB, margem que, segundo o levantamento, pode atingir “diretamente o emprego, a renda dos trabalhadores, o consumo das famílias e a atividade econômica”. O cenário pessimista seria de “recessão, com retração de 0,15% do PIB e número de desempregados saltando dos atuais 5,8 milhões para 7,4 bilhões”. A taxa de desocupação também subiria de 6,5% para 7%.
A propaganda da campanha afirma que “a economia virá de privatizações públicas e redução de Ministérios, mas tudo isso é perfumaria”, avalia o técnico do Dieese, que emenda: “você não privatiza em menos de seis meses, não são ativos líquidos que vão gerar receita na hora”. Ademais, em vez de falar em redução, o candidato menciona resgatar incentivos fiscais para setores de evento e turismo.
Ainda segundo Horie, “eles devem cortar das despesas primárias, ou seja, congelar a aposentadoria, gás, saúde, despesa com benefício social”. Como essas despesas estão previstas na Constituição Federal, “eles devem fazer uma PEC [Proposta de Emenda à Constituição] para garantir esse corte”, detalha. Neste caso, o bolsonarista não encontraria obstáculos para aprovar a medida, uma vez que o PL é o maior partido com deputados na Câmara, 121, e, no Senado, ampliou a sua bancada de 15 para 28 parlamentares.
Na distribuição simulada pelo Dieese, 51% dos cortes recairiam sobre transferências de renda, incluindo Previdência Social, Benefício de Prestação Continuada (BPC), seguro-desemprego e abono salarial. Outros 17% atingiriam despesas com pessoal e 32%, as demais despesas públicas.
O estudo revela ainda o risco de queda na arrecadação decorrente do enfraquecimento da economia. A previsão é de que o país deixe de arrecadar R$ 46,8 bilhões, o que consumirá 40% da economia bruta prevista com o ajuste inicial, aponta o levantamento. Isso ocorre porque “a arrecadação de impostos no Brasil é majoritariamente focada no consumo e não em propriedade”, disse Horie.
O efeito multiplicador de renda na classe com pouco acesso à recursos é maior do que entre as classes mais altas. “Tudo que ela [a pessoa que possui menor renda] recebe, ela gasta, daí a economia gira muito mais”.
As projeções do Dieese indicam que, mesmo no cenário mais otimista, a economia brasileira cresceria apenas 0,91% em 2027, ritmo insuficiente para absorver a entrada de novos trabalhadores no mercado de trabalho.
A conclusão do levantamento é de que “o tesouraço pode combinar baixo crescimento econômico, aumento do desemprego, redução da renda dos trabalhadores e aprofundamento das desigualdades econômicas e sociais, sem resolver o problema fiscal que pretende enfrentar”.
Para Horie, o desequilíbrio nas contas é fruto da “alta taxa de juros, que fazem com que o governo gaste muito para rolar o que deve”. Em 2025 e 2025, o governo gastou mais de R$ 1 trilhão em doze meses. Ele também enfatiza que é preciso “uma reforma tributária que, de fato, tribute mais patrimônio e riqueza e menos renda, salário e consumo”.
O post ‘Tesouraço’ de Flávio Bolsonaro deve reduzir 2,2 milhões de empregos e aposentadoria, diz Dieese apareceu primeiro em Opera Mundi.