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Eu sei que está difícil. Para muitos de nós, parece óbvio que a reeleição do presidente Lula seria muito melhor para o país do que a alternativa representada por Flávio Bolsonaro. Mas precisamos compreender por que uma escolha que nos parece tão evidente está longe de ser evidente para milhões de brasileiros.
É impossível entender o momento atual sem considerar o que aconteceu no Brasil desde a primeira década deste século. Foram mais de vinte anos de acusações, campanhas de desmoralização, escândalos políticos, manchetes e disputas em torno da imagem do PT e de Lula. O mensalão, o petrolão, a Lava Jato, o golpe de 2016 contra Dilma Rousseff, a prisão de Lula e os processos judiciais que contribuíram para desarticular setores importantes da economia brasileira produziram consequências que continuam presentes na sociedade. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018, seu governo e a tentativa de golpe de Estado que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023 fazem parte dessa mesma trajetória de despolitização e ódio à política.
Não pretendo discutir aqui quais acusações tinham fundamento, quais foram exageradas ou quais erros foram efetivamente cometidos pelos governos progressistas. A questão é outra. Durante anos, uma mistura de fatos, mentiras, meias verdades, distorções e manipulações foi alimentando uma rejeição profunda ao PT. A atuação de setores da imprensa, do sistema de Justiça e de forças políticas interessadas em derrotar a esquerda teve consequências que ultrapassaram cada episódio particular.

E há algo ainda mais complicado. A repetição contínua de determinadas acusações acaba produzindo uma espécie de verdade social. Mesmo quando os fatos são desmentidos, quando processos são anulados ou quando aparecem provas de manipulação, a convicção permanece. A mentira pode perder sustentação, mas o sentimento que ajudou a construir continua circulando.
A extrema direita soube explorar esse terreno. Transformou o antipetismo em identidade, mobilizou ressentimentos, medos, preconceitos e valores conservadores. Encontrou nas redes sociais um instrumento poderoso para reproduzir e aprofundar uma hostilidade que já vinha sendo cultivada havia muito tempo. O bolsonarismo cresceu nesse ambiente e chegou ao ponto de mobilizar uma tentativa de ruptura da ordem democrática. Ainda assim, uma parcela expressiva da população continua disposta a apoiar politicamente seus representantes.
Por isso, talvez seja insuficiente acreditar que basta apresentar os resultados do governo Lula ou demonstrar o que representa Flávio Bolsonaro. Estamos diante de pessoas cujas percepções políticas foram formadas ao longo de anos. E essas percepções não desaparecem simplesmente diante de números, argumentos ou evidências. É hora da conversa olho no olho, coração e convicção.
Isso não significa que a eleição esteja perdida, muito menos que devamos desistir de disputar cada voto. Significa reconhecer o tamanho do problema. A disputa de 2026 carrega o peso de uma longa história de conflitos políticos, de destruição de reputações, de ataques à democracia e de transformações na maneira como milhões de brasileiros enxergam a política.
É urgente sair da indignação e participar. Conversar com as pessoas, enfrentar as mentiras que circulam, recuperar a memória do que aconteceu no Brasil e lembrar o que significou chegar ao ponto de uma tentativa de golpe de Estado. Não podemos tratar como normal a ameaça de uma nova ruptura democrática. Há direitos, conquistas sociais e condições de vida de milhões de brasileiros em jogo. Há também a esperança, tão castigada nos últimos anos, de construir um país menos desigual. A eleição exige presença, coragem para enfrentar discussões difíceis e disposição para defender publicamente aquilo em que acreditamos. Não é hora de silêncio, resignação ou indiferença.
Domingo é Lula 13.
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