A escalada da violência política e o avanço de manifestações extremistas durante o processo eleitoral e seu período subsequente têm mobilizado inquéritos contínuos das polícias civis e da Polícia Federal. Ao todo, além dos casos específicos acompanhados pelas polícias locais, a PF informou ter registrado 86 ocorrências de possíveis crimes eleitorais em 20 estados e no Distrito Federal, com 13 inquéritos instaurados. Longe de representar episódios isolados, a sucessão de atentados, agressões físicas, ameaças de morte e pichações de inspiração neonazista desenha um quadro de preocupação institucional e demanda respostas do Poder Judiciário.
Em Bonito, no Mato Grosso do Sul, na noite de sábado, 24 de outubro, uma carreata bolsonarista terminou no assassinato de Ewerton Rodrigues Nunes Marques, conhecido como Silva. O crime ocorreu quando o motorista de uma caminhonete, perto da manifestação, foi abordado e agredido por um homem de 47 anos que participava do ato.
Amigos do motorista, entre eles Silva, reagiram em sua defesa. Em meio à confusão, o filho do agressor, um adolescente de 16 anos, correu até um veículo, pegou um revólver e efetuou vários disparos. Silva foi atingido por três tiros no abdômen, no tórax e na coxa direita, chegou a ser socorrido e transferido para o Hospital Darcy João Bigaton, mas não resistiu aos ferimentos. O motorista da caminhonete sobreviveu, apesar de ter sido atingido por dois disparos nas costas e no tórax, enquanto o pai e o filho fugiram após o ataque.
Sobre o episódio em Bonito, a coordenação da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva denunciou o crime, e o advogado Marco Aurélio Carvalho sinteticamente destacou: “Nós sabemos, enfim, quem é o alvo preferencial desse ódio e dessa intolerância. Infelizmente, é isso que o bolsonarismo trouxe para o país, Dividiu a nossa sociedade e continua matando os nossos companheiros”.
Na mesma noite de sábado, em Porto Esperidião, Mato Grosso, a violência armada também fez vítimas fatais. Um confronto a tiros motivado por divergência política resultou na morte de Anderson Pires Bolandin, de 35 anos, que caiu alvejado junto a uma bomba de combustível e faleceu na ambulância, e de Sebastião Dusso Braga Neto, de 34 anos, atingido no abdômen, que não resistiu aos ferimentos após atendimento médico. Outros dois homens ficaram feridos, entre eles o primo de Bolandin e uma quarta vítima, que relatou à Polícia Militar que o tiroteio teve início em uma discussão ideológica.
Violência e ameaças contra parlamentares
Em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, a vereadora Iara Pimentel (PT) foi vítima de um grave ataque na noite do último dia 24 de outubro, durante uma carreata política. Na ocasião, um grupo usando roupas amarelas e símbolos associados à campanha de Flávio Bolsonaro (PL) arremessou objetos como garrafas de vidro, tijolos e pedras contra o veículo de som em que a parlamentar se encontrava. Atingida no rosto por um tijolo, Iara sofreu ferimentos graves na cabeça e perdeu a consciência, sendo socorrida às pressas pelo SAMU e encaminhada à Santa Casa de Montes Claros.
Em nota de repúdio publicada nas redes sociais, a vereadora lamentou a agressão sofrida por sua equipe e reforçou o compromisso com os valores democráticos: “É inadmissível que pessoas sejam agredidas por expressarem suas posições políticas. Nenhuma divergência política justifica a violência. A democracia pressupõe liberdade de manifestação, respeito às diferenças e o direito de participar da vida política sem medo de ameaças ou agressões.”
A violência contra parlamentares de esquerda no Estado também atingiu a deputada federal eleita Ana Elisa (PT), que precisou ser incluída no Programa Estadual de Proteção após sofrer uma enxurrada contínua de ameaças de morte e de estupro com teor racista. Diante da gravidade dos fatos, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, confirmou a abertura de um inquérito formal para investigar os episódios.
Em Santos, no litoral paulista, o engenheiro ambiental, Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, teve a morte cerebral confirmada pela família após ser abordado e agredido por ao menos sete homens na madrugada de sábado, 24 de outubro. Rocha participava de uma apresentação em apoio à reeleição do presidente Lula quando se afastou do grupo para ir ao banheiro e foi surpreendido.
Durante o ataque, o grupo fez uma transmissão ao vivo nas redes sociais, dividindo a tela com outros participantes e exibindo o roubo dos pertences e as agressões verbais e físicas. Encontrado por amigos, Marcelo foi socorrido pelo SAMU e internado na Santa Casa de Santos, sendo posteriormente transferido para o Hospital São Paulo, da Unifesp, onde o exame conclusivo confirmou a irreversibilidade do quadro.
Apologia ao nazismo no Maranhão e no Rio de Janeiro entra na mira da PF
Paralelamente aos crimes contra a integridade física e a vida, órgãos de segurança têm intensificado ações contra manifestações de apologia ao nazismo. No Maranhão, a Polícia Civil tomou depoimentos e conduziu inquérito sobre três jovens flagrados no dia 24 de outubro em Grajaú usando camisetas estampadas com o rosto de Adolf Hitler e frases de exaltação ao fascismo durante ato político, investigação posteriormente assumida pela Polícia Federal devido ao histórico prévio de infrações do mesmo teor por parte dos suspeitos.
Também no Rio de Janeiro, a policia de Botafogo abriu apuração e intimou para prestar depoimento a professora de Inglês Erica Marques Pinho, de 46 anos, filmada por um eleitor judeu fazendo uma saudação nazista no Colégio Santo Inácio durante a votação. O caso foi registrado como injúria por preconceito e repudiado pela Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro.
A atuação das autoridades tem reforçado o enquadramento legal rigoroso para esses episódios. Sobre a ocorrência em Grajaú, o governador do Maranhão, Carlos Brandão, manifestou-se afirmando que as imagens são revoltantes e ressaltou a incompatibilidade de manifestações totalitárias no espaço público. A apologia do nazismo encontra sanção no artigo 20 da Lei 7.716/1989, que estabelece pena de dois a cinco anos de reclusão e multa para quem veicular, comercializar ou fabricar símbolos que utilizem a cruz suástica para fins de divulgação. Conforme reiterado em manifestações do Ministério Público Federal, condutas que incitam a discriminação e expõem cidadãos a riscos por motivação ideológica atentam contra os princípios fundamentais da Constituição Federal.