Há 81 anos, em 27 de outubro de 1945, nascia Luiz Inácio Lula da Silva. O menino que deixou o Nordeste ainda criança, trabalhou como torneiro mecânico e se tornou uma das principais lideranças do movimento sindical brasileiro chega ao aniversário em 2026 com um feito histórico. Reeleito presidente dois dias antes, Lula se prepara para iniciar seu quarto mandato à frente do Palácio do Planalto, tornando-se o primeiro octogenário a exercer a Presidência da República no Brasil.
A vitória de Lula nas urnas está revestida de uma simbologia profunda. Entre os fatores que contribuíram para a virada de Lula no segundo turno, destaca-se o apoio entusiasmado de uma parcela do eleitorado que o acompanhou durante praticamente toda sua vida e que no segundo turno se mobilizou fortemente para elegê-lo: os idosos.
Aos 81 anos, Lula compartilha com milhões de brasileiros mais velhos experiências que atravessam diferentes períodos da história nacional. Para muitos desses eleitores, a escolha política está relacionada não apenas à avaliação do presente, mas também à memória de um país que experimentou mudanças significativas durante os primeiros governos petistas.
O peso crescente do eleitorado idoso
A crescente importância política da população está relacionada às transformações demográficas brasileiras. O país envelhece, e os eleitores com mais de 60 anos passaram a representar uma fração cada vez mais expressiva do eleitorado.
Em 2026, eles correspondiam a aproximadamente 23,6% das pessoas aptas a votar, proporção superior à registrada na eleição presidencial de 2022. Entre aqueles com mais de 70 anos, cujo voto é facultativo, havia mais de 17 milhões de eleitores registrados. Trata-se, portanto, de um contingente numeroso, capaz de influenciar decisivamente uma disputa presidencial acirrada.
A campanha eleitoral de 2026 evidenciou essa realidade. Levantamentos divulgados nas semanas anteriores ao segundo turno indicavam que Lula encontrava entre os eleitores mais velhos uma base de apoio relevante e bastante fidelizada. Uma pesquisa do Instituto Datafolha publicada em setembro mostrou que o presidente tinha a preferência de 44% dos eleitores de 60 a 69 anos, contra apenas 31% de Flávio Bolsonaro.
Entre aqueles com mais de 70 anos, a vantagem aumentava: Lula aparecia com 46% das intenções de voto, diante de 35% do adversário. Os números revelavam uma diferença importante entre gerações e ajudavam a explicar por que a participação dos idosos se tornou uma preocupação central das campanhas.
Essa preferência não significava que o eleitorado idoso constituísse um bloco homogêneo ou que a vitória estivesse garantida. A direita também conservava apoio expressivo entre pessoas mais velhas, sobretudo em setores de classe média. O resultado dependia, portanto, da capacidade de transformar intenções de voto em comparecimento efetivo às urnas, sobretudo entre aqueles que não são obrigados a votar.
Nesse contexto, a mobilização dos idosos favoráveis a Lula adquiriu importância particular. Às vésperas do segundo turno, as redes sociais foram tomadas por vídeos de eleitores mais velhos empenhados em convencer amigos e familiares a votar. Para parte desse grupo, comparecer às urnas representava uma maneira de defender conquistas sociais e evitar retrocessos políticos. A participação eleitoral ultrapassava a dimensão individual e assumia o caráter de uma ação coletiva em defesa da manutenção dos direitos da população e de um projeto político que reconhecesse a importância das políticas públicas e dos programas sociais.
A memória das conquistas
As memória das transformações sociais e da conquistas populares vividas pelo Brasil durante os primeiros governos Lula foi fundamental para impulsionar a onda de apoio dos idosos à reeleição do petista.
Os brasileiros que hoje têm 60, 70 ou 80 anos atravessaram a ditadura militar, a redemocratização, as crises econômicas das décadas de 1980 e 1990 e a instabilidade provocada pela inflação. Muitos acompanharam a ascensão de Lula como dirigente sindical, sua participação na fundação do Partido dos Trabalhadores e suas primeiras campanhas presidenciais. Longe de ser um manifestação de nostalgia, a lembrança dos governos petistas constitui uma forma de avaliação política baseada na experiência.
Eleitores mais velhos possuem, portanto, uma percepção mais consolidada das mudanças que ocorreram na renda familiar, no acesso a serviços públicos e nas oportunidades que foram criadas e oferecidas às gerações seguintes.
A partir de 2003, o Brasil assistiu à expansão de políticas de transferência de renda, à recuperação do salário mínimo e à ampliação do acesso ao ensino superior. O fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), a expansão do crédito e a ampliação das oportunidades de consumo também integraram um período de mudanças que alcançaram milhões de famílias trabalhadoras.
Para os idosos, muitas dessas políticas tiveram efeitos particularmente relevantes. A política de valorização do salário mínimo levada a cabo pelos governos petistas ampliou os rendimentos de aposentadorias e pensões vinculadas ao piso previdenciário, além de beneficiar trabalhadores que continuavam economicamente ativos e os idosos que dependem do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Para milhões de idosos que, antes do PT, recebiam reajustes minguados, essas mudanças tiveram efeitos concretos no orçamento doméstico e na melhoria das condições de vida.
A criação do Estatuto da Pessoa Idosa em 2003 pavimentou o caminho para o fortalecimento de novas políticas de apoio à população mais velha. O estatuto assegurou o fornecimento de tratamentos gratuitos pelo SUS, garantiu o direito a atendimento preferencial em bancos, órgãos e serviços públicos e negócios privados e acelerou a tramitação de processos judiciais para pessoas com mais de 80 anos.
A ampliação da assistência social e das políticas de acesso a medicamentos também contribuiu para tornar a proteção pública uma questão concreta na vida cotidiana de muitas famílias. Criado em 2004, durante o primeiro governo Lula, o Farmácia Popular ampliou o acesso a medicamentos para doenças crônicas que afetam especialmente a população idosa, como hipertensão, diabetes, osteoporose e doença de Parkinson. Retomado e ampliado a partir de 2023, o programa passou a oferecer gratuitamente todos os seus 41 produtos, incluindo medicamentos e fraldas geriátricas. Em 2025, o Farmácia Popular atendeu 27,3 milhões de pessoas em todo o país, entre as quais milhões de brasileiros com mais de 60 anos.
Para quem recebe uma aposentadoria modesta, os gastos permanentes com medicamentos podem consumir parcela considerável da renda mensal. A gratuidade permite direcionar recursos para alimentação, moradia e outras necessidades básicas, além de favorecer a continuidade de tratamentos. Em vez de transformar o acesso à saúde em uma mercadoria condicionada à capacidade de pagamento, o programa criado por Lula reafirmou o papel do Estado na garantia de direitos fundamentais.
Mobilizando os idosos
A reforma previdenciária realizada pelo governo de Jair Bolsonaro em 2019, endurecendo as regras de acesso à aposentadoria, alimentou a desconfiança em relação à agenda econômica da direita. Esse temor ganhou combustível na campanha eleitoral de 2026. Informações ventiladas pela própria equipe de Flávio Bolsonaro sugeriam cortar programas sociais, desvincular o reajuste das aposentadorias do salário mínimo e retirar o ganho real que voltou a ser pago no governo Lula. Flávio negou que adotaria essas mudanças, mas não passou credibilidade.
Os ataques de Flávio Bolsonaro a Lula provavelmente também ajudaram a mobilizar idosos em favor do petista. Durante o debate da Globo, buscando ecoar o estilo provocativo associado ao pai, Flávio ionizou os “nove dedos” de Lula e a dificuldade de entendê-lo por causa da rouquidão de sua voz. Essas provocações foram vistas como arrogantes e desrespeitosas em grupos qualitativos indecisos e geraram mal estar, sobretudo, entre os eleitores mais velhos.
Lula soube explorar com sucesso as dúvidas relacionadas às propostas de Flávio e incentivar a participação dos idosos no pleito. A campanha petista criou a rede oficial “Geração Lula”, voltada a eleitores com mais de 70 anos, familiares e apoiadores, oferecendo ferramentas de mobilização, guia de mensagens, cartilhas com temas como Farmácia Popular, pandemia, salário mínimo e Previdência, panfletos, cards para WhatsApp, propostas específicas (remédios grátis, centros de convivência, ganho real no mínimo) e até cartas personalizadas para motivar parentes.
O material orientava voluntários a ajudar com transporte e logística e a usar histórias pessoais em vez de sermões. Lives com artistas da mesma faixa etária (como Marieta Severo) convocavam os idosos a sair de casa “pelo neto, pelo filho, pelo Brasil”. O canal “Exército do Lula” no WhatsApp e o apelo direto de Lula (“não é porque você tem 70 anos que você não vai votar”) reforçaram a mobilização, unindo juventude e idosos.
Os vídeos de filhos, netos e familiares jovens levando seus parentes mais velhos às urnas causaram comoção e viralizaram nas redes sociais. A participação alta desse público facultativo ajudou a reverter a desvantagem do primeiro turno.
Chamada à participação política, a “Geração Lula” foi às urnas para expressar seu desejo de manter a rede proteção social e a previdência pública, preservando os direitos conquistados ao longo de décadas e garantindo melhores condições de vida para seus filhos, netos e futuras gerações. Que Lula e seus ministros tenham a sabedoria de honrar o sacrifício feito pelos idosos do Brasil.
O post Geração Lula: como os idosos ajudaram a garantir o quarto mandato do presidente apareceu primeiro em Opera Mundi.