Carolina Mousquer Lima (*)
Deixar-se ir.
“Se estiver muito pesado para você, se deixa ir.” Com essas palavras, Gilberto Gil teria aconselhado a filha, Preta Gil, durante um período crítico do tratamento de um câncer. Muitas pessoas reagiram indignadas: como um pai poderia aconselhar a filha a desistir do tratamento? Leram nessa fala um descuido, um símbolo de desamor.
Sou irmã de uma pessoa com uma deficiência grave. E como alguém que cresceu em uma família na qual a morte era um assunto impossível de ser ignorado, me espantei com as críticas de quem parecia se sentir ofendido com a fala do artista.
Para não produzir o mesmo, julgando o julgamento alheio, precisei acionar a psicanalista que me habita. A reação indignada com as palavras de Gilberto Gil é compreensível. A morte é um assunto tabu. A morte de um filho é um tabu duplicado.
No texto “Considerações contemporâneas sobre a guerra e a morte”, de 1915, Freud disse que “no fundo, ninguém acredita em sua própria morte, ou, o que vem a ser o mesmo: no inconsciente, cada um de nós está convencido de sua imortalidade”. Mas a vida nos mostra que não querer saber sobre a morte é um prato cheio para os sintomas. Quanta vida não é adiada, por exemplo, por termos a sensação de que sempre haverá tempo e um amanhã para fazer aquilo que sentimos que precisamos fazer?
Talvez por saber de tudo isso, Freud praticava o hábito de pensar na própria morte. Essa pequena história, contada por Smiley Blanton a partir de um diário de suas sessões de análise, é resgatada pelo colega Edson Sousa no livro “Freud”. Diante de pagamentos antecipados que Smiley fazia das sessões, Freud o teria feito prometer que, no caso de sua morte inesperada, o paciente deveria retornar para receber de sua família o valor das consultas não feitas. Diante da surpresa do paciente, Freud teria dito: “Penso todos os dias na possibilidade de morte. É um bom hábito”.
Quanto ao Gilberto Gil, em resposta às reações um tanto escandalizadas diante de sua fala, ele diz acreditar, com base em filosofias orientais e africanas, que tudo que começa tem um fim, e complementa: “A gente sente medo, evita pensar nesse fluxo permanente do eterno para dentro de si”. A Psicanálise, me parece, tem muito a conversar com essas filosofias, se quiser manter vivo seu caráter subversivo. Especialmente em uma contemporaneidade que nos enreda tanto a um discurso capitalista que “se deixar ir”, essa expressão tão linda que remete à expansão e ao infinito, é lida como desistência.
Mas, seria desistir do quê, exatamente?
Para alguns, a resposta pode ser: de lutar contra o câncer. Aqui lembro minha colega Priscilla Machado de Souza que, em artigo recente na Sler, bem apontou para um uso indiscriminado da palavra luta. Não lutamos contra um câncer. Fazemos uma aposta na vida. Sempre sem garantias e com mais ou com menos chances de dar certo, conforme o caso, conforme o acesso a tratamentos, conforme as condições psíquicas e materiais de enfrentar as adversidades. Podemos lutar, aqui me parece que cabe o verbo, para que todos possam ter essa opção. Mas precisamos suportar que algumas pessoas amadas, estando lúcidas, simplesmente escolham não se tratar ou interromper o tratamento. Caberá a quem fica enfrentar a dor de perdê-las e todos os outros afetos, dúvidas e questionamentos que essa decisão pode suscitar.
A morte é um tema que, quando corajosamente enfrentado, nos faz viver mais, ter uma vida mais interessante. Nessa linha, impossível não lembrar de Luiz Antonio Simas: “O contrário da morte não é a vida, o contrário da morte é o encantamento”.
Amo um ditado que minha avó sempre repetia para justificar seus momentos de rebeldia na velhice: “Ninguém fica pra semente”. A relação de uma semente com a justificativa para essa ou aquela atitude era, para mim, um enigma a decifrar. Pois entendi anos depois, justamente com ajuda de Gil, que a chave do enigma era o ciclo da vida, um anúncio/lembrança da própria morte: “Tem que morrer pra germinar / Plantar n’algum lugar / Ressuscitar no chão”.
Diante de doenças muito difíceis, optar por não se tratar pode ser um ato de dignidade. E deixar que o outro se vá pode ser um ato imenso de amor.
(*) Carolina Mousquer Lima é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA)
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