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Filme gravado no Morro da Cruz é indicado à categoria nacional de curtas no Festival de Gramado

Escrito, dirigido e interpretado por uma equipe de estreantes, o curta‑metragem Aconteceu à Luz da Lua está entre os concorrentes ao Kikito, na categoria nacional do Festival de Gramado. A trama que acompanha dois jovens do Morro da Cruz, em Porto Alegre, será exibida no dia 19 de agosto, durante o festival.

O filme conta a história de dois jovens do Morro da Cruz que sonham com uma vida diferente. Wellington, de 18 anos, está empenhado em concluir o ensino médio e ingressar na universidade. Já Willian, de 23 anos, é apaixonado por audiovisual e tem a ideia de criar um canal no Youtube para viver de arte, sem ter que enfrentar suas inseguranças e esbarrar com o mundo acadêmico. Ao longo da narrativa, os dois protagonizam uma jornada em busca de um futuro promissor, recheada de dilemas pessoais e sociais.

Willian é interpretado pelo próprio diretor do curta, Crystom Afronário, que confessa ter usado da sua experiência para dar base ao roteiro: “Eu dividi a minha história em dois personagens. Eu me vi nesse papel entre 2019 e 2021, foi a minha virada de chave onde me convenci de que tinha que ocupar outros espaços, onde estou hoje”, relata.

Filho de mãe solteira, Crystom foi o pioneiro da família a ingressar na faculdade, tornando-se o primeiro bolsista negro do curso de Cinema e Audiovisual da Unisinos. Ainda antes de cursar a disciplina de Direção de Arte, Cena e Fotografia, dirigiu Aconteceu à Luz da Lua com uma equipe de estudantes e artistas periféricos vindos das vilas Cacai, Bom Jesus, Campo da Tuka e do mirante mais bonito da cidade, o Morro da Cruz.

“Como foi a minha primeira vez escrevendo e dirigindo um curta-metragem, quis colocar pessoas que também estivessem na primeira vez em seus cargos, tirando o Maurício, que é o meu professor na Unisinos e me incentivou a fazer o projeto”, explica o cineasta.

Foto: About

Crystom — que passou no edital da Lei Paulo Gustavo para a produção de do filme — divide sua dramaturgia entre duas referências fundamentais: o clássico brasileiro Cidade de Deus e a obra estadunidense Boyz n the Hood, de John Singleton, conhecida não só pelo sucesso de bilheteria, mas também por levar pela primeira vez um diretor negro à indicação ao Oscar.

O cineasta destaca que Singleton, por ser criado em Compton, contou a história de sua própria comunidade, o que o inspirou a fazer o mesmo no Morro da Cruz. Crystom enfatiza a autenticidade do projeto: “Pode ser uma história que se passa no Morro da Cruz, mas ela acontece em todas as vilas de Porto Alegre. Preparamos o elenco pensando que eles iriam vivenciar personagens que já conheciam, como um vendedor de pano de prato ou um barbeiro”, comenta.

O impulso para retratar o Morro da Cruz, primeiramente nas telinhas das redes sociais e depois no cinema, nasceu após uma viagem ao Rio de Janeiro, quando Crystom conheceu um jovem da Rocinha que se mostrou surpreso ao saber que havia periferia em Porto Alegre. A reação do carioca — quase cética — ao descobrir que existiam bairros periféricos no Sul o marcou profundamente. Ele conta que, impressionado com o desconhecimento sobre comunidades como Vila Cruzeiro, Rubem Berta e Restinga, voltou a Porto Alegre motivado a fotografar o dia a dia do morro. De lá para cá, o estudante de cinema ficou conhecido na comunidade por registrar as festas comunitárias. Nostálgico, ele relembra de quando começou: “As pessoas me param e falam ‘eu não sabia que a comunidade era tudo isso’ e me pediam para tirar fotos delas e postar. Afinal, as pessoas querem ser vistas”.

O filme promete ser uma forma de preservar a memória de vidas que passaram por territórios marginalizados e foram interrompidas. Um exemplo disso é a mãe do personagem principal, que carrega o nome de dona Norma, uma mulher negra que foi assassinada em frente a uma escola, na zona leste da Capital. A atriz que a interpreta é sua filha mais nova. Outros nomes, como Marlon, Marcelinho, Marcos Vinicius e João Alberto, também foram um modo de recordar as vítimas, que em sua maioria são jovens negros. A partir disso, o curta faz o espectador imergir em uma Porto Alegre periférica, cultural e negra. “A ideia é que quem assista perceba a comunidade para além da violência, que vejam a mãe que se preocupa e o filho que sonha”, afirma o diretor.

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