
O Partido Comunista Português (PCP) oficializou, no último dia 14 de julho, a candidatura do deputado António Filipe à Presidência da República, nas eleições previstas para 2026. Em ato público realizado na histórica Voz do Operário, em Lisboa, Filipe apresentou-se como uma alternativa de esquerda para “unir os democratas” e enfrentar a ascensão da extrema direita, o avanço do autoritarismo e a conivência das forças liberais com o grande capital.
Jurista, professor universitário e militante comunista desde a juventude, António Filipe ocupa o cargo de deputado há mais de três décadas e é uma das figuras mais respeitadas da bancada do PCP.
Em seu discurso de lançamento, defendeu uma presidência ativa e vigilante, comprometida com os valores da Revolução de Abril e com a letra da Constituição de 1976.
“Perante as candidaturas já anunciadas, muitos democratas lamentavam com razão a falta de uma candidatura que se identificasse sem reservas com os valores de Abril consagrados na Constituição, uma candidatura capaz de unir os democratas que não se conformam com o fato de a direita controlar todos os órgãos de soberania, uma candidatura capaz de unir os portugueses na luta por uma alternativa ao estado a que chegámos, uma candidatura que resgatasse a esperança e abrisse horizontes de futuro”, discursou Filipe.
“Essa candidatura faltava, mas já não falta. Aqui estamos. Aqui está essa candidatura. Aqui estamos, aqui estou, para dizer que a defesa da democracia e da Constituição não admite desânimos nem desistências”, declarou.
Segundo Filipe, o atual regime político português passa por uma “degradação crescente”, com ataques sistemáticos aos serviços públicos, aos direitos sociais e ao regime democrático por parte das forças de direita e do poder econômico.
O deputado acusou o governo da coligação PSD/CDS de utilizar o crescimento do Chega, o partido de extrema-direita que atingiu a segunda maior bancada no Legislativo, como pretexto para avançar com uma agenda reacionária que já estava em curso.
Para o PCP, a eleição presidencial de 2026 será decisiva para enfrentar esse processo. Ao lançar uma candidatura própria, o partido pretende reforçar a crítica à “normalização” da extrema direita e à acomodação dos partidos tradicionais à sua retórica e programa.
Filipe não poupou críticas ao atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, a quem acusou de ter tido um “papel ativo, até determinante”, na crise democrática que o país atravessa.
A candidatura comunista também se diferencia de outras que, segundo Filipe, se apresentam com “apelos ao consenso e à moderação”, mas que “convergem no essencial com os interesses do grande poder econômico”.
Para ele, é preciso disputar o sentido da Presidência da República, que não pode ser reduzida a uma função protocolar. O cargo, diz Filipe, deve ser exercido com coragem política e fidelidade à Constituição, em defesa dos trabalhadores e da soberania nacional.
O lançamento da candidatura marca a reafirmação do papel do PCP no cenário político português, num momento em que o campo progressista sofre retrocessos e dispersão. Ao contrário de 2016 e 2021, quando também lançou presidenciáveis, o partido agora enfrenta uma extrema direita muito mais consolidada e articulada.
Para Filipe, a resposta passa por mobilizar amplos setores populares em defesa da democracia, da justiça social e dos valores de Abril.
Crescimento da extrema direita e crise do campo progressista
Portugal vive uma das fases mais delicadas de sua democracia desde a Revolução dos Cravos, que pôs fim à ditadura salazarista em 1974 e abriu caminho para a Constituição democrática de 1976. Em apenas três anos, o país realizou três eleições legislativas, resultado da instabilidade política provocada pela erosão dos partidos tradicionais e pela crescente influência da extrema direita no debate público.
Nas eleições de maio de 2025, a coligação de centro-direita liderada por Luís Montenegro (PSD) manteve-se no poder, embora sem maioria absoluta e sob fortes questionamentos públicos — incluindo denúncias de conflito de interesses envolvendo empresas da família do primeiro-ministro.
Ao mesmo tempo, o partido de extrema direita Chega, liderado por André Ventura, saltou para a segunda posição no Parlamento, empatando em número de cadeiras com o Partido Socialista (PS), que sofreu sua pior derrota em décadas.
Com um discurso agressivo e xenófobo, o Chega capitalizou o descontentamento social, propagando ataques contra imigrantes, ciganos, sindicalistas e beneficiários de políticas públicas. Sua ascensão tem empurrado o espectro político para a direita, contaminando também a postura do PSD, que adotou um tom mais autoritário e liberalizante sob pressão do novo aliado.
A recente aprovação de um pacote anti-imigração é emblemática dessa guinada, com medidas que restringem direitos e criam uma nova força policial voltada exclusivamente para estrangeiros.
Essa conjuntura tem reconfigurado o papel das instituições. Em Portugal, o sistema político é semipresidencialista: o primeiro-ministro governa, mas o presidente da República exerce funções relevantes, como nomear o chefe de governo, dissolver o Parlamento, vetar leis, declarar estados de exceção e fiscalizar o cumprimento da Constituição. Embora a função presidencial seja frequentemente tratada como moderadora, António Filipe insiste em que ela pode e deve ser exercida de forma ativa, sobretudo diante de riscos ao regime democrático.
Enquanto a extrema direita se fortalece, o campo progressista dá sinais de esvaziamento. O PS perdeu força política e prestígio, e partidos como Bloco de Esquerda, Livre e PAN seguem representados no Parlamento, mas sem capacidade de mobilização nacional.
O PCP, por sua vez, mantém uma estrutura militante sólida e representação institucional por meio da Coligação Democrática Unitária (CDU), que inclui também o Partido Ecologista “Os Verdes”. Ao lançar candidatura própria, os comunistas reafirmam sua independência política e ideológica, recusando alianças que consideram submissas ao grande capital.
Neste cenário, a candidatura de António Filipe busca oferecer um contraponto claro ao autoritarismo emergente e à apatia institucional. Para o PCP, trata-se de disputar o conteúdo da própria democracia portuguesa — não apenas nas instituições, mas nas ruas, nas fábricas, nas escolas e nos bairros populares.
Filipe denuncia conivência institucional e papel do capital
Ao justificar sua candidatura, António Filipe aponta o que considera ser um processo deliberado de degradação da democracia portuguesa, conduzido por interesses do grande capital e sustentado pela conivência de instituições fundamentais do regime.
Em seu discurso, o deputado comunista afirma que os centros de decisão econômica “começaram cedo a preparar as próximas eleições presidenciais”, promovendo candidatos com perfil autoritário, sob o pretexto da estabilidade.
Para ele, a ascensão da extrema direita serve de álibi para que a coligação PSD/CDS implemente uma agenda reacionária que já remonta ao período da troika — quando Portugal esteve sob intervenção da União Europeia e do FMI, entre 2011 e 2014.
Filipe também criticou duramente o atual presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a quem acusa de ter desempenhado um papel “ativo, até determinante” na normalização desse processo de retrocesso institucional.
Embora formalmente desvinculado de partidos, Rebelo de Sousa é historicamente ligado ao PSD e tem adotado, segundo o PCP, posturas ambíguas diante da extrema direita e do próprio governo Montenegro.
Para os comunistas, a Presidência não pode ser neutra diante do avanço do autoritarismo e da exclusão social.
Nesse contexto, a candidatura de António Filipe defende uma presidência ativa, enraizada nos valores da Revolução de Abril e comprometida com a letra e o espírito da Constituição de 1976.
Ele reivindica que o presidente da República deve usar todos os seus instrumentos legais para impedir abusos de poder, vetar medidas que violem direitos sociais e defender a soberania nacional contra interesses externos ou privatistas. “O exercício da Presidência da República não pode ser neutro, nem resignado, nem cúmplice”, afirmou Filipe, ao se comprometer com o combate a todas as formas de retrocesso democrático.
Embora reafirme sua filiação ao campo comunista, António Filipe apresenta-se como uma candidatura de “amplitude democrática”, voltada à união dos setores que se opõem ao neofascismo e à dominação do capital financeiro.
Seu discurso denuncia as tentativas de reduzir a política a consensos moderados e formalismos institucionais, e propõe uma atuação militante em defesa dos trabalhadores, dos serviços públicos e da soberania popular. Para o PCP, mais do que uma disputa eleitoral, a campanha de António Filipe é um chamado à resistência.
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