Willian Bouviet (*)
Vivemos ensaiando futuros que jamais se concretizaram. Planejamos, desejamos, idealizamos. Criamos enredos mentais com finais que nos confortam, amores que nos salvam, conquistas que nos legitimam. Neste grande palco invisível, a expectativa ocupa o lugar do roteirista — e o desejo, o de protagonista.
Mas, então, a realidade entra em cena. E diferente do que esperamos, ela não atua. Ela revela. Não interpreta um papel — apenas segura um espelho. E o que esse espelho mostra, quase sempre, é o que não queríamos ver: nossas projeções, repetições inconscientes, sabotagens discretas e vontades mal resolvidas.
Sob o olhar da psicanálise, expectativa é projeção de desejo — e frustração, o sintoma daquilo que não queremos reconhecer em nós. Quando o real não corresponde ao script que escrevemos em silêncio, não sofremos apenas pela ausência de um resultado, mas pela presença desconfortável de nós mesmos, expostos em nossas vulnerabilidades, feridas e ilusões.
A realidade, nesse sentido, não decepciona — ela revela. Revela o abismo entre o que somos e o que fingimos ser. O que dói não é o mundo que não nos atende, mas o eu que não se sustenta fora da fantasia.
A pergunta que fica é: estamos dispostos a abandonar o palco e encarar o espelho?
(*) Formando em Psicanálise, Escritor e Pesquisador de história, espiritualidade e simbologias.
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