
Apesar da oposição do Exército, da exaustão das tropas e da insatisfação crescente da opinião pública, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tenta avançar com a ocupação total da Faixa de Gaza, aprofundando o massacre contra a população palestina.
A medida, considerada uma das mais arriscadas desde o início da guerra, prevê a entrada das forças israelenses em áreas ainda não controladas — incluindo zonas densamente povoadas e locais onde estão mantidos reféns pelo Hamas.
A operação agravará ainda mais o colapso humanitário em Gaza, onde mais de 60 mil palestinos já foram mortos, 2 milhões vivem deslocados e a fome atinge proporções catastróficas.
O plano foi confirmado nesta segunda-feira (4) por fontes oficiais à imprensa israelense, mesmo diante dos alertas do comando militar de que a operação pode durar meses, exige reforço de tropas e coloca em risco direto a vida dos prisioneiros.
“Devemos continuar unidos e lutando juntos para alcançar todos os nossos objetivos de guerra: a derrota do inimigo, a libertação dos nossos reféns e a garantia de que Gaza nunca mais representará uma ameaça a Israel”, declarou Netanyahu na abertura da reunião do gabinete, nesta segunda-feira.
O anúncio da escalada ocorreu simultaneamente à publicação do Hamas de vídeos que mostram reféns israelenses em estado extremo de desnutrição.
Ainda assim, Netanyahu dobrou sua aposta. Segundo uma autoridade de seu gabinete citada pelo Ynet, “os dados estão lançados — vamos para uma ocupação total da Faixa de Gaza”. A mesma fonte teria afirmado que, se o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), Eyal Zamir, não concordar com a medida, “ele deve renunciar”.
A ameaça direta ao comando militar simboliza o grau de tensão institucional em Israel. Desde o início do conflito, Zamir vinha defendendo a libertação dos reféns como prioridade e alertando para os riscos de aprofundar a ofensiva em áreas densamente povoadas.
A nova decisão, no entanto, indica que o governo está disposto a ignorar esses alertas — mesmo diante da possibilidade de execução dos reféns, conforme relataram prisioneiros já libertados em entrevistas à imprensa israelense.
Divisão interna: governo pressiona Exército e amplia tensão institucional
A decisão de Netanyahu expôs uma divisão entre o governo e o comando militar. Israel Katz, ministro da Defesa, reforçou o tom de confronto ao declarar que sua função é garantir que “o Exército execute integralmente a política definida pelo governo”, acrescentando durante uma visita à Faixa de Gaza: “Se isso não for aceitável para o chefe do Estado-Maior – que ele renuncie.”
O recado foi interpretado como um desafio direto ao general Eyal Zamir, que vem alertando para os riscos humanitários e operacionais da ofensiva total.
O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, ecoou a pressão e afirmou que o chefe do Estado-Maior deve declarar publicamente sua total obediência às ordens do gabinete, “mesmo que a decisão seja por ocupação e vitória”.
Já o ministro das Relações Exteriores, Gideon Sa’ar, tentou suavizar o embate, mas reforçou a hierarquia civil ao dizer que “a subordinação do Exército às decisões do governo é óbvia para quem serviu ao país por décadas”.
Veja a divisão dentro do gabinete de segurança israelense:
Favoráveis à ocupação total:
Ron Dermer — Ministro de Assuntos Estratégicos
Bezalel Smotrich — Ministro das Finanças
Itamar Ben Gvir — Ministro da Segurança Nacional
General Roman Gofman — Secretário Militar
Yossi Fuchs — Secretário de Gabinete
Favoráveis à negociação e ao cessar-fogo:
Eyal Zamir — Chefe do Estado-Maior das IDF
Gideon Sa’ar — Ministro das Relações Exteriores
Aryeh Deri — Líder do partido Shas
Tzachi Hanegbi — Conselheiro de Segurança Nacional
David Barnea — Chefe do Mossad
“Mem” — Negociador do Shin Bet
General Nitzan Alon (reserva) — Responsável pelo dossiê dos reféns nas IDF
A oposição, por sua vez, acusou o governo de colocar em risco a coesão das forças armadas. “Os soldados não devem acreditar que são liderados por uma liderança dividida e conflituosa, que não respeita seu comandante”, criticou o líder da oposição, Yair Lapid.
Benny Gantz, líder do Azul e Branco, afirmou que “o ataque desenfreado dos ministros contra o chefe do Estado-Maior, apenas por ele cumprir seu dever e expressar sua posição profissional, é uma irresponsabilidade de segurança em primeiro grau”.
Ex-chefes militares, como Gadi Eisenkot, também criticaram a escalada e alertaram que a guerra já se afastou de seus objetivos iniciais.
A pressão da ala mais radical do governo, aliada à retórica de Yair Netanyahu — que acusou Zamir de “motim e tentativa de golpe militar” —, consolidou a percepção de uma crise institucional no país.
O discurso agressivo do premiê e de seus aliados sinaliza uma tentativa de subordinar completamente o alto comando militar às decisões políticas, mesmo diante de alertas técnicos de que a operação poderá agravar a situação dos reféns e da população civil.
Reféns ameaçados e sociedade israelense exausta
A decisão de ampliar a ofensiva em Gaza ocorre no momento em que a situação dos reféns atinge um ponto crítico. Nos últimos dias, vídeos divulgados pelo Hamas e pela Jihad Islâmica Palestina mostraram reféns israelenses visivelmente desnutridos, como Evyatar David e Rom Braslavski, provocando uma onda de indignação entre familiares e parte da população.
“Você vê seu filho morrendo diante dos seus olhos e não pode fazer nada”, declarou Ofir Braslavski, pai de Rom, à Associated Press.
O caso de Evyatar gerou ainda mais comoção. No vídeo, o jovem aparece cavando sua própria sepultura em um túnel e implorando por sua vida. Apesar disso, nem o gabinete nem o conselho de segurança foram convocados para discutir emergencialmente um novo acordo.
“Já se passaram 667 dias em que os reféns estão vivendo um Holocausto nos túneis, e, em vez de chegar a um acordo viável para encerrar a guerra, Netanyahu prepara uma operação que vai transformar os reféns vivos em corpos e fazer os mortos desaparecerem”, escreveu Einav Zangauker, mãe de Matan, ainda em cativeiro.
A hesitação do governo em priorizar os reféns fortaleceu a crítica pública e expôs o desgaste da estratégia militar.
A maior parte da sociedade israelense demonstra fadiga diante do prolongamento da guerra, mas a apatia começa a ceder espaço a protestos pontuais. O jornal Haaretz observou que, mesmo com a divulgação dos vídeos chocantes, nenhum ministro considerou urgente convocar uma reunião sobre os prisioneiros — ao contrário, o gabinete se reuniu para discutir a segurança da família Netanyahu.
“Foi esse o único tema que gerou preocupação genuína entre o premiê e seus aliados”, ironizou o analista Amos Harel.
A guerra, que começou com a justificativa de destruir o Hamas, parece agora cada vez mais desconectada de seus objetivos declarados. Reféns continuam em risco, Gaza está devastada, e a retórica oficial insiste em promessas de vitória que já não encontram respaldo nem entre os próprios comandantes das IDF.
Isolamento diplomático e uso político da guerra pela extrema direita
A decisão de ampliar a ofensiva militar também marca o colapso da estratégia anterior, baseada em acordos parciais para troca de reféns e cessar-fogos temporários. Segundo o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, a proposta de trégua limitada para libertar cerca de metade dos reféns vivos “não funcionou, e já tentamos de tudo”.
O governo Trump agora pressiona por um acordo “tudo ou nada”, que inclua a libertação total dos reféns, o desarmamento do Hamas e a desmilitarização de Gaza. Ambas as partes rejeitaram pontos da proposta, e diplomatas norte-americanos, egípcios e cataris admitem que não há sinal de novo acordo viável.
A paralisia diplomática é agravada pela atuação unilateral de Israel. O cessar-fogo mediado pelos EUA, em janeiro, foi rompido por Israel no início de fevereiro, ao se recusar a negociar a fase seguinte.
Em março, o governo ordenou a retomada da ofensiva, frustrando o que restava do acordo. A nova escalada ocorre, portanto, num cenário de isolamento crescente — enquanto aumentam as denúncias de fome, deslocamento forçado e ataques contra civis palestinos.
Ao mesmo tempo, a coalizão liderada por Netanyahu utiliza a guerra como instrumento para consolidar seu projeto político.
O governo avança com propostas para destituir a procuradora-geral, blindar a isenção de ultraortodoxos do serviço militar e pressionar o comando das IDF a se submeter completamente às diretrizes do Executivo.
Como alertou o Haaretz, o objetivo não declarado da ofensiva é prolongar o conflito para evitar concessões que possam desestabilizar a frágil coalizão de extrema direita.
“Netanyahu acredita que o tempo está a seu favor”, escreveu o analista Amos Harel. “Arrastar a guerra por mais alguns meses o protege de acordos que exigiriam recuos e colocariam em risco seu governo.”
Enquanto isso, a situação humanitária se deteriora. A ONU estima que apenas 12% da Faixa de Gaza esteja fora da zona militarizada ou de ordens de evacuação. A maioria dos 2,2 milhões de palestinos vive em tendas, sem acesso regular a comida, água ou abrigo.
Israel restringe o envio de ajuda por organizações internacionais e sustenta a atuação da Fundação Humanitária de Gaza, que tem gerado novas tragédias: centenas de civis foram mortos ao tentar atravessar zonas de combate para receber alimentos, muitas vezes atingidos por tiros das próprias forças israelenses.
Mesmo diante de tamanha devastação, os aliados de Netanyahu não demonstram disposição para mudar o rumo. Ao contrário: enquanto vídeos dos reféns desnutridos chocavam o país, a única reunião urgente convocada pelo gabinete foi para discutir a segurança da família do primeiro-ministro — num sinal de que o governo prioriza sua própria estabilidade acima da vida de seus soldados e cidadãos.
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