
A guerra comercial entre Estados Unidos e China ganhou um capítulo sem precedentes: Donald Trump autorizou a exportação de chips de inteligência artificial da Nvidia para o mercado chinês em troca de um pagamento direto de 15% da receita obtida nessas vendas ao governo norte-americano.
A exigência, também aceita pela AMD, abre caminho para que as companhias retomem negócios bilionários com o mercado chinês, suspensos desde abril por bloqueios impostos pela própria Casa Branca.
A operação, que também envolve a AMD, não é classificada como imposto ou tarifa — proibidos pela Constituição dos EUA sobre exportações —, mas como “acordo voluntário”. Na prática, porém, o arranjo funciona como uma comissão paga à Casa Branca para destravar licenças de exportação previamente bloqueadas.
O mercado, perplexo, vê no gesto a consolidação de um modelo perigoso: o da política comercial transformada em balcão de negócios.
Da segurança nacional ao caixa da Casa Branca
O que começou como uma política de controle rigoroso para evitar que a China tivesse acesso a tecnologia avançada agora se converte em fonte de receita para Washington.
Ao abrir mão das restrições mediante pagamento, Trump envia um recado claro: a “ameaça à segurança nacional” pode ser neutralizada… desde que haja compensação financeira.
Analistas ouvidos pela CNN Internacional e pelo Financial Times apontam que não há precedentes históricos para esse tipo de transação, nem clareza sobre sua legalidade
Do bloqueio à “taxa de liberação”
O impasse começou quando o governo Trump vetou o envio dos chips H20 (Nvidia) e MI308 (AMD) sob alegação de risco à segurança nacional.
Após reunião do CEO Jensen Huang com o presidente, em 6 de agosto, o veto foi revertido — mas com a condição inédita: um repasse voluntário de 15% ao Tesouro norte-americano. Trump admitiu ter começado pedindo 20% e “negociado” o desconto.
A medida foi estruturada para evitar caracterização como imposto sobre exportações, proibido pela Constituição dos EUA. Ainda assim, especialistas questionam sua legalidade.
“Propina oficial” ou política industrial?
Não há registro histórico de um governo exigir percentual de vendas externas sem assumir participação acionária.
O consultor Scott Kennedy, do CSIS, vai além: “Se o risco de segurança nacional é real, a taxa não resolve nada. Se não há risco, o governo deveria simplesmente liberar as exportações.
Interesses estratégicos e contradições
O acordo expõe uma contradição na política dos EUA: por um lado, o discurso de conter o avanço chinês em IA; por outro, a liberação da tecnologia em troca de receita para a Casa Branca.
Segundo um funcionário do governo, a medida reflete a vitória dos “pragmáticos econômicos” sobre os “falcões da China” dentro da administração Trump. A lógica: melhor vender oficialmente do que perder o mercado para rotas clandestinas.
Impactos para a Nvidia, a China e o comércio global
A China, por sua vez, reagiu com suspeitas de “backdoors” nos chips, enquanto sinaliza às suas empresas que continuem investindo em semicondutores próprios.
O caso também abre um precedente perigoso para a ordem comercial global: se uma superpotência condiciona exportações estratégicas a pagamentos diretos ao seu governo, outras poderão adotar medidas similares, corroendo pilares da OMC.
No mercado, a percepção é de que Trump transformou um embargo de segurança nacional em um instrumento de barganha financeira, aproximando a política externa de práticas de cobrança extralegal.
Próximo alvo: Blackwell
Trump já acena com a possibilidade de liberar — mediante condições ainda mais duras — a exportação do chip Blackwell, o mais avançado da Nvidia. O presidente sugere vender uma versão “reduzida” e cogita exigir até 50% de “taxa” sobre as vendas.
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