
O governo de Israel anunciou na última sexta-feira (15) a construção de 3.400 casas para colonos na Cisjordânia ocupada, projeto celebrado pelo ministro das Finanças Bezalel Smotrich como o “enterro da ideia de um Estado palestino”.
O Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU reagiu, classificando a medida como ilegal sob o direito internacional e alertando que “é um crime de guerra uma potência ocupante transferir sua própria população civil para o território que ocupa”.
Smotrich afirmou que pretende aprovar licitações “apesar de décadas de congelamento sob pressão internacional”. Ao discursar na última sexta-feira, ele declarou que “essa realidade enterra a ideia de um Estado palestino, porque não há nada a ser reconhecido” e insistiu que “eles falarão de um sonho palestino, nós construiremos uma realidade judaica”.
O projeto prevê 3.412 unidades habitacionais, o que significaria um aumento de cerca de 33% no estoque de moradias em Ma’ale Adumim, assentamento onde vivem aproximadamente 38 mil colonos israelenses. O plano vinha sendo discutido desde os anos 1990, mas esteve congelado devido às pressões externas, especialmente de Washington.
Embora Netanyahu não tenha feito declarações públicas sobre o caso, Smotrich afirmou que o primeiro-ministro “o apoiou em tudo o que diz respeito à Judeia e Samaria” (forma como o sionismo se refere à Cisjordânia) e defendeu que a soberania israelense seja formalmente aplicada à Cisjordânia.
Segundo organizações de direitos humanos, a implementação do assentamento teria efeitos devastadores para os palestinos. O projeto dividiria a Cisjordânia em duas regiões desconectadas (norte e sul), inviabilizando a contiguidade territorial necessária a um Estado palestino viável.
Relatórios da Peace Now, Ir Amim e da Associação para Justiça Ambiental apontam que a construção das casas consumiria as últimas reservas de terra entre Ramallah, Jerusalém Oriental e Belém, cidades que abrigam cerca de 1 milhão de palestinos. O resultado seria a transformação dessas áreas em enclaves cercados e isolados, comparados aos “Bantustões” do apartheid sul-africano.
O editorial do jornal israelense Haaretz deste sábado (16) advertiu que a medida sufocaria as três cidades palestinas e reconheceu que Smotrich “nunca esteve tão certo: se o assentamento for construído, isso encerrará as chances de estabelecer um Estado palestino”.
O ministério das Relações Exteriores da Palestina denunciou o projeto como parte de “crimes de genocídio, deslocamento e anexação”, além de eco das declarações de Netanyahu sobre o chamado “Grande Israel”.
A Autoridade Palestina, por meio de seu porta-voz Nabil Abu Rudeineh, afirmou que o avanço do assentamento aprofundará tensões e acusou tanto Israel quanto os Estados Unidos de sustentarem uma realidade contrária à legitimidade internacional.
O Hamas classificou o plano como “passo criminoso e perigoso”, destinado a isolar Jerusalém das cidades palestinas de Ramallah e Belém. Já ativistas como Jamal Juma, da campanha Stop the Wall, alertaram que a iniciativa consolida um “sistema de apartheid” em andamento desde a construção do muro e pode levar a uma “temporada sangrenta” de violência contra agricultores palestinos.
Reações internacionais e estrutura da anexação
A ONU denunciou que a construção de assentamentos em território ocupado é ilegal e lembrou que a transferência de população da potência ocupante configura crime de guerra.
A Alemanha rejeitou o plano e o classificou como afronta ao direito internacional. O Egito acusou Israel de buscar alterar a geografia da região e advertiu que a medida ameaça a estabilidade do Oriente Médio.
Os Estados Unidos emitiram apenas uma declaração vaga, sem críticas diretas, embora todas as administrações anteriores, desde 1999, tenham bloqueado tentativas de implementação deste assentamento.
Ao mesmo tempo, países como França, Reino Unido, Austrália, Canadá, Finlândia, Nova Zelândia, Portugal, Andorra e San Marino anunciaram que pretendem reconhecer o Estado palestino em setembro, na Assembleia Geral da ONU. A declaração também foi assinada por países que já reconhecem a Palestina, como Islândia, Irlanda e Espanha.
O avanço da ocupação integra um processo mais amplo de anexação de fato da Cisjordânia. Em março, o gabinete de segurança israelense aprovou a construção da estrada chamada “Tecido da Vida”, exclusiva para palestinos, desviando seu tráfego da Rodovia 1 e abrindo espaço para a expansão de Ma’ale Adumim.
Relatórios de ONGs israelenses apontam que o projeto se soma a uma rede de enclaves, postos de controle e assentamentos agrícolas criados desde o início da guerra em Gaza, consolidando um regime de segregação e violência cotidiana contra comunidades palestinas.
Para Smotrich, trata-se de um objetivo estratégico: “É assim que você mata o Estado palestino de fato. É assim que você traz um milhão de novos colonos”, declarou. O Haaretz advertiu que, ao legitimar pogroms de colonos, postos de controle e enclaves isolados, Israel “pavimenta o terreno para uma transferência populacional em larga escala da Cisjordânia”.
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