
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou nesta segunda-feira (22) como “genocídio” as ações de Israel na Faixa de Gaza, durante discurso na Conferência Internacional de Alto Nível para a Solução Pacífica da Questão da Palestina, convocada pela França e Arábia Saudita na ONU, em Nova York. O evento ocorre à margem da 80ª Assembleia Geral da ONU e foi convocado em um movimento de apoio explícito à causa palestina.
Lula criticou os ataques indiscriminados contra civis, lembrando que mais de 50 mil crianças foram atingidas, 90% dos lares palestinos destruídos e a fome usada como arma de guerra. O presidente reforçou que, embora condene o terrorismo do Hamas, o direito à defesa não justifica a matança de civis.
“O que está acontecendo em Gaza não é só o extermínio do povo palestino, mas uma tentativa de aniquilamento de seu sonho de nação”, afirmou Lula.
O presidente Lula representa o Brasil, acompanhado do chanceler Mauro Vieira e de ministros. Desde 1955, o Brasil abre os discursos do debate geral da ONU, e Lula deve subir à tribuna nesta terça-feira (23), logo após o secretário-geral António Guterres.
Conferência internacional em defesa da solução de dois Estados
O encontro reuniu líderes de diversas nações para discutir a coexistência pacífica entre um Estado palestino e o Estado de Israel. França, Portugal, Canadá, Reino Unido e Austrália formalizaram o reconhecimento do Estado palestino, enquanto Estados Unidos e Israel boicotaram a reunião. Outros países europeus, como França, Luxemburgo, Malta e Bélgica, devem seguir o mesmo caminho durante o encontro.
Atualmente, 143 dos 193 Estados-membros da ONU já reconhecem a Palestina. A adesão de países ocidentais tradicionais aliados de Washington marca um divisor de águas diplomático.
O presidente francês Emmanuel Macron destacou a urgência de cessar-fogo imediato, liberdade dos reféns e desmantelamento político do Hamas e renovação da Autoridade Palestina. Segundo ele, o reconhecimento do Estado palestino é uma forma de reafirmar que o povo palestino possui direito à autodeterminação.
“Nada mais justifica a continuação da guerra em Gaza. Pelo contrário, tudo exige que ela seja definitivamente encerrada”, disse Macron.
Segundo o Palácio do Eliseu, Paris vê no reconhecimento da Palestina a única forma de preservar a viabilidade da solução de dois Estados.
Para Portugal, que também oficializou o reconhecimento, trata-se de “um passo necessário para a paz”. O chanceler Paulo Rangel declarou em Nova York: “É tempo, mais do que tempo, de dar os passos necessários para a paz”.
A Arábia Saudita, por sua vez, busca se firmar como articuladora de consensos regionais. O país reforçou que o Hamas não deve ter papel no futuro Estado palestino.
Impasse diplomático e pressão internacional
A ausência de Estados Unidos e Israel evidencia um impasse político. Netanyahu reafirmou que não haverá Estado palestino a oeste do rio Jordão e anunciou expansão da colonização na Cisjordânia, classificando os reconhecimentos internacionais como “recompensa ao terrorismo”.
Analistas destacam que o reconhecimento formal da Palestina, embora simbólico, fortalece a legitimidade internacional da Autoridade Palestina e aumenta a pressão sobre Israel. Na Europa, movimentos políticos e civis também pedem sanções e suspensão de acordos comerciais como resposta à ofensiva israelense em Gaza.
Apesar disso, analistas veem no gesto de França, Canadá, Reino Unido e Austrália uma derrota diplomática para Israel. Para o Hamas, o movimento é considerado uma vitória simbólica.
Hugh Lovatt, do Conselho Europeu sobre Relações Internacionais, afirma que “o reconhecimento reafirma o direito do povo palestino à autodeterminação e fornece privilégios formais a diplomatas palestinos, mesmo que não tenha efeito imediato no terreno”.
Contexto humanitário e político
A ofensiva israelense em Gaza, que já deixou cerca de 65 mil mortos — a maioria civis, segundo números aceitos pela ONU, é apontada como fator decisivo para a mudança de postura de países europeus. Manifestações em capitais como Paris vêm pressionando governos por sanções econômicas contra Israel e pelo fim imediato dos bombardeios.
O governo brasileiro, junto a outros países europeus, defende que a criação de dois Estados é o único caminho para a paz duradoura, enquanto Israel mantém a narrativa de defesa nacional e nega qualquer negociação que envolva a criação de um Estado palestino.
Embora os reconhecimentos não tenham efeito imediato sobre o cotidiano em Gaza e na Cisjordânia, diplomatas avaliam que eles elevam o prestígio da Autoridade Palestina e aumentam o isolamento de Israel. A União Europeia discute ainda sanções contra ministros israelenses de extrema direita e restrições a produtos de assentamentos na Cisjordânia.
A conferência deve seguir até o fim do dia, consolidando o maior movimento coordenado de reconhecimento da Palestina por países ocidentais desde a criação da ONU.
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