
Em um discurso marcado por ufanismo, ataques a adversários (e aliados) e anedotas pessoais, Donald Trump se apresentou à Assembleia Geral da ONU como o arquiteto de uma nova “era dourada” norte-americana e o pacificador de conflitos internacionais. No entanto, uma análise crítica de suas alegações revela um profundo abismo entre a retórica triunfalista e a complexidade – e muitas vezes o agravamento – das crises globais que ele afirma ter resolvido.
A falácia das “sete guerras inacabáveis”
A alegação mais bombástica de Trump foi ter encerrado “sete guerras inacabáveis” em sete meses. Ele citou conflitos como Paquistão e Índia, Israel e Irã, e Armênia e Azerbaijão, entre outros. No entanto, especialistas em relações internacionais questionam a veracidade e a profundidade desses sucessos.
Muitos dos conflitos mencionados não estavam em estado de “guerra” aberta e massiva como sugerido. Outros, como o entre Israel e Irã, viram uma escalada dramática durante sua gestão anterior e culminaram na Operação “Martelo da Meia-Noite”, que Trump mesmo descreveu com orgulho: “Sete bombardeiros americanos B-2 lançaram bombas de 30 mil libras cada sobre as principais instalações nucleares do Irã, obliterando totalmente tudo”.
Na realidade, a ação, longe de “encerrar” um conflito de forma diplomática, foi um ato de guerra de destruição massiva, uma agressão unilateral, que aumentou exponencialmente a tensão na região, criando um precedente perigoso e deixando um legado de instabilidade. A alegação de pacificação soa, portanto, como um eufemismo para uma política de coerção máxima.
A partir de então, o Irã que nunca teve comprovado o enriquecimento de urânio para fins militares, deve repensar o tema e acelerar a busca por armas nucleares, visto que se sentiu vulnerável a ataques.
Oriente Médio: do apoio incondicional ao obstáculo à paz
A contradição no papel de “pacificador” fica ainda mais evidente ao se analisar sua postura no Oriente Médio. Trump dedicou parte do discurso ao conflito em Gaza, mas sua narrativa é unilateral. Ao afirmar que “o Hamas rejeitou repetidamente propostas razoáveis de paz” e condenar qualquer reconhecimento do Estado palestino como uma “recompensa ao terrorismo”, ele isenta completamente Israel de qualquer responsabilidade pela crise humanitária e genocídio.
“Alguns aqui neste organismo estão tentando reconhecer unilateralmente um Estado palestino. Isso seria uma recompensa grande demais para os terroristas do Hamas por suas atrocidades.” A frase demonstra como ele enxerga concessões diplomáticas como uma “recompensa ao terror”, solidificando seu alinhamento incondicional a Israel e atuando como um bloqueador, e não um facilitador, de uma solução negociada.
Essa posição ignora o contexto de décadas de ocupação e a política de assentamentos, além de minimizar o papel dos EUA como maior financiador militar de Israel, apoio que muitos organismos internacionais e defensores de direitos humanos apontam como crucial para a perpetuação do conflito e das condições descritas como genocídio por especialistas da ONU. A retórica de Trump não é de mediação, mas de endosso incondicional a uma das partes, tornando-o um obstáculo, e não um facilitador, da paz.
América Latina na mira: militarização e a ameaça à Venezuela
Outro pilar da nova ordem trumpista é a abertura de uma frente de tensão na América Latina. Trump citou nominalmente o cartel venezuelano Tren de Aragua e o governo de Nicolás Maduro, prometendo um combate militar direto. Sua ameaça foi clara e contundente: “A todos os terroristas que contrabandeiam drogas venenosas para os Estados Unidos da América, fiquem avisados: nós vamos apagá-los da existência”.
Essa linguagem sinaliza uma potencial intervenção militar direta ou operações de alto impacto na região, sob a justificativa do combate ao narcotráfico. Para analistas, tal abordagem simplifica um problema complexo (o narcotráfico é uma questão de demanda interna nos EUA e de corrupção transnacional) e arrisca escalar tensões geopolíticas, ameaçando a soberania de nações latino-americanas e potencialmente gerando mais instabilidade e fluxos migratórios – o oposto do que Trump diz buscar.
As insinuações de intervenção militar no Brasil, vinda de membros de governo, não podem ser ignoradas. Mesmo que inconsequente, não deixa de criar um clima tenso com um aliado fundamental no continente. As justificativas para sanções e tarifaço contra brasileiros e suas instituições democráticas vão das punições a Jair Bolsonaro à aliança preferencial de Lula com o BRICs.
A ONU como bode expiatório e a narrativa da “forte liderança”
Ao longo do discurso, Trump usou a ONU como um espelho para projetar sua própria imagem de eficiência. Ele criticou a organização por sua suposta inação, citando ironicamente uma escada rolante quebrada e o teleprompter que falhou como exemplos de sua incompetência. Essa estratégia serve a um duplo propósito: deslegitimar o multilateralismo – que por definição requer diálogo e concessão – e valorizar sua própria figura como um líder de ação unilateral e decisiva.
“É uma pena que eu tenha tido que realizar essas coisas em vez das Nações Unidas. E, infelizmente, em todos os casos, as Nações Unidas nem sequer tentaram ajudar em nenhum deles.” Ainda completou o raciocínio com a crítica anedótica e desdenhosa ao prédio da ONU: “Tudo o que recebi das Nações Unidas foi uma escada rolante que, na subida, parou no meio.”
Essa postura, no entanto, é vista como cínica. Ao desprezar o fórum multilateral por excelência, Trump nega a complexidade da governança global. Suas soluções, baseadas em ameaças, tarifas e poderio militar, são apresentadas como antídotos simples para problemas profundos, uma abordagem que muitos temem ser incendiária e contraproducente a longo prazo.
A crença de que a pressão econômica coercitiva (e não a diplomacia) é a ferramenta primária para resolver conflitos internacionais reflete uma visão transacional e de poder bruto sobre as relações entre nações. “Caso a Rússia não esteja pronta para fazer um acordo para encerrar a guerra, então os Estados Unidos estão totalmente preparados para impor uma rodada muito forte de tarifas poderosas que, acredito, acabariam com o derramamento de sangue muito rapidamente.”
O custo do cinismo
O discurso de Trump na ONU não foi um roteiro para a cooperação internacional, mas um manifesto de “America First” [Os EUA primeiro] revigorado e agressivo. A autoimagem de “pacificador” é construída sobre a areia movediça de alegações exageradas, ações militares unilaterais e o apoio incondicional a aliados em conflitos assimétricos.
Ainda sobre o caso da Rússia, Trump explica que “para que essas tarifas sejam eficazes, as nações europeias — todos vocês reunidos aqui agora — teriam que se unir a nós… E a Europa precisa assumir sua responsabilidade. Eles não podem continuar fazendo o que estão fazendo.” Com essa frase, ele reafirma o estilo de liderança que cobra alinhamento incondicional, mesmo de aliados, sob ameaça implícita. A frase mostra a falta de colaboração horizontal, substituída por uma demanda por obediência dentro de uma ordem internacional comandada pelos EUA.
Estas frases não são apenas retórica; elas são a essência operacional da visão de mundo apresentada por Trump – uma visão cínica, belicosa e profundamente desconectada dos mecanismos de cooperação internacional.
Enquanto ele celebra o suposto fim de guerras distantes, suas políticas acendem novos rastilhos no Oriente Médio e na América Latina. A distância entre a retórica e a realidade expõe não a força de um pacificador, mas o cinismo de uma estratégia que, sob o verniz da eficácia, promete aprofundar as divisões e ampliar as crises que alega resolver. O verdadeiro legado — é preciso fazer o alerta — pode ser um mundo mais polarizado e perigoso, onde a diplomacia é substituída pela ameaça e a força bruta é vendida como a única solução.
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