
Em um palco destinado ao diálogo entre nações, Donald Trump encenou, mais uma vez, o seu espetáculo de humilhação institucional. Seu discurso na Assembleia Geral da ONU não foi um chamado à cooperação, mas um ataque calculado ao próprio organismo que o hospedava. Através de uma retórica populista que misturava autoelogio desmedido com críticas superficiais e anedotas cômicas, Trump procurou minar a credibilidade do fórum multilateral para se apresentar como o único líder capaz de resolver crises com “ação” – termo que, em seu vocabulário, é sinônimo de ação unilateral.
Da escada rolante ao teleprompter: o ataque pelo anexo
Trump iniciou seu discurso não com uma visão geopolítica, mas com uma queixa burocrática e ocasional. O mau funcionamento do teleprompter serviu como a primeira metáfora forçada de incompetência. Ele transformou o incidente técnico em uma virtude própria – “desse jeito você fala mais com o coração” – e em um defeito da instituição. O ápice dessa estratégia de desmoralização veio com a anedota sobre a “escada rolante que, na subida, parou no meio”.
Ao reduzir as Nações Unidas a uma administradora incompetente de sua própria infraestrutura física, Trump buscou um objetivo claro: desviar a atenção de discussões substantivas sobre paz e cooperação para uma narrativa de ineficiência e irrelevância. A estratégia de reduzir uma instituição multilateral complexa a falhas operacionais insignificantes pintando a ONU como incompetente em tarefas básicas e, por extensão, indigna de confiança para assuntos globais sérios.
“Essas foram as duas coisas que recebi da ONU: uma escada rolante ruim e um teleprompter ruim”, declarou, num tom que igualava a complexidade da governança global à incapacidade de manter equipamentos em funcionamento. Essa abordagem é um clássico do populismo: atacar as instituições pela via do cotidiano e do anedótico, sugerindo que são incapazes e, portanto, indignas de confiança para missões maiores.
“Eu encerrei, a ONU não”: a narrativa de substituição
O cerne do ataque foi a alegação de ter resolvido sozinho problemas que a ONU supostamente ignorou. Ao afirmar ter encerrado “sete guerras ‘inacabáveis’” em sete meses, Trump construiu uma dicotomia poderosa: de um lado, a ação decisiva e bem-sucedida dos EUA sob seu comando; do outro, a suposta paralisia da organização multilateral.
“É uma pena que eu tenha tido que realizar essas coisas em vez das Nações Unidas. E, infelizmente, em todos os casos, as Nações Unidas nem sequer tentaram ajudar em nenhum deles”, afirmou. Ele reforçou essa ideia com a acusação de que a ONU se resume a “escrever uma carta muito forte e depois nunca dar seguimento”, caracterizando-a como produtora de “palavras vazias”.
Essa narrativa ignora deliberadamente os mecanismos de diplomacia, mediação e manutenção da paz da ONU, que são por natureza mediados e colaborativos, para contrastá-los com a imagem de um líder forte que age de forma rápida e unilateral. Ignora também o fato de que o Conselho de Segurança da ONU é sub-representado, sendo que os EUA têm poder de veto sobre decisões unânimes entre os demais membros, mecanismo que Joe Biden e Trump usaram e abusaram para facilitar a continuidade de conflitos armados úteis à indústria bélica norte-americana.
O estilo “Trump na ONU”: populismo como estratégia global
O discurso foi uma masterclass no estilo Trump de comunicação, adaptado para o palco global:
- Improviso e quebra de protocolo: Ao brincar sobre o teleprompter e narrar histórias pessoais sobre a reforma do edifício da ONU, ele quebrou a formalidade do evento. Esse tom conversacional cria uma falsa sensação de autenticidade e aproximação, típica do populismo, enquanto desloca o foco da agenda coletiva para suas experiências pessoais.
- Ufanismo e contraste maniqueísta: A repetição exaustiva de feitos econômicos e militares – “a América é abençoada com a economia mais forte, as fronteiras mais fortes, o exército mais forte” – serve para estabelecer uma hierarquia clara: os EUA são o ator indispensável, e a ONU, um parasita inútil. A menção constante da “era dourada da América” sob seu governo contrasta com a imagem de um mundo em crise sob a égide do multilateralismo.
- Criação de inimigos comuns: A ONU foi pintada não como uma parceira, mas como parte do problema. Ao acusá-la de “financiar um ataque contra os países ocidentais e suas fronteiras” ao apoiar migrantes, Trump a transforma em um inimigo interno, um “globalismo” que trai os interesses nacionais. Isso unifica sua base doméstica e projeta essa lógica de conflito para o cenário internacional. Mais do que um fórum potencialmente inútil, este argumento torna a ONU um inimigo ativo. Ao acusá-la de financiar a imigração ilegal, ele enquadra a organização como parte de uma agenda globalista hostil à soberania nacional, justificando assim sua rejeição e desfinanciamento.
- “Cada nação soberana deve ter o direito de controlar suas próprias fronteiras… pagos pelo povo dessa nação, que construiu essa nação.” Sua concepção de soberania é, por definição, contrária à cooperação multilateral profunda. A soberania, em sua visão, é sobre autonomia total e independência de organismos internacionais, que são vistos como uma ameaça ao controle nacional.
- “É exatamente isso que a agenda globalista de migração fez.” Ao usar a palavra “globalista” como um termo pejorativo, ele não ataca apenas políticas, mas uma suposta agenda difusa da qual a ONU é parte integrante. Isso alimenta a teoria da conspiração de que forças internacionais conspiram contra os estados-nação, sendo a ONU uma peça-chave nesse esquema.
O ataque ao multilateralismo como projeto
A performance de Trump na ONU não foi um simples desabafo ou um momento de egocentrismo. Foi uma investida estratégica contra a própria ideia de governança global cooperativa. Ao deslegitimar a ONU com críticas que vão do técnico ao substantivo, ele busca desmontar um pilar da ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial.
O objetivo final é claro: substituir o sistema multilateral por uma ordem baseada em relações bilaterais de poder, onde a força unilateral e a lealdade a Washington sejam as moedas de troca.
Em conjunto, essas frases não mostram simplesmente uma crítica à ineficiência da ONU. Elas revelam uma filosofia política profundamente hostil ao próprio conceito de governança multilateral. Trump enxerga a ONU não como um parceiro imperfeito, mas como um concorrente a ser derrotado – um símbolo de um sistema global que dilui a soberania nacional e impede o exercício unilateral do poder americano. Seu discurso é um esforço para desmantelar a autoridade moral e política da instituição, substituindo-a por um modelo onde os EUA, sob seu comando, atuam como o juiz e o executor globais.
O estilo “Trump na ONU” – com suas piadas, improvisos e ataques – é a embalagem perfeita para esse projeto. É o populismo servido como política externa, onde a humilhação de uma instituição é o primeiro passo para sua irrelevância, abrindo caminho para um mundo mais dividido e onde a lei do mais forte prevaleça. O verdadeiro alvo não era um teleprompter defeituoso, mas a ideia de que as nações devem resolver seus problemas dialogando, e não apenas obedecendo.
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