
Quase metade das mulheres brasileiras que têm filhos (45%) afirma criá-los sem a participação do outro responsável pela criança, revela a terceira edição da pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, lançada nesta terça-feira (23) pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc).
A maternidade solo, longe de ser exceção, aparece como uma marca estrutural da desigualdade de gênero no Brasil. O levantamento revela não apenas o abandono paterno, mas também a ausência de mecanismos eficazes de proteção social e de políticas públicas voltadas à conciliação entre trabalho, cuidado e renda.
Abandono financeiro e falta de corresponsabilidade
Entre as mulheres que criam sozinhas seus filhos, 47% não recebem pensão alimentícia ou qualquer auxílio financeiro do outro responsável. Em muitos casos, a ausência vai além da questão material: 27% afirmaram nunca compartilhar guarda ou cuidados com a outra pessoa responsável, revelando um padrão de desresponsabilização que sobrecarrega ainda mais as mulheres.

Esse cenário contrasta com a percepção masculina: a pesquisa mostra que 88% dos homens que têm filhos que não moram com eles afirmam compartilhar os cuidados, ainda que apenas 71% digam fazer isso de forma regular.
Essa divergência aponta para um abismo entre discurso e prática, além de evidenciar como o machismo cultural naturaliza a ideia de que a responsabilidade pelo cuidado infantil recai quase exclusivamente sobre as mães.
Sobrecarga no cuidado: mulheres trabalham o triplo em casa
A desigualdade não se restringe ao cuidado com crianças. No acompanhamento de idosos, pessoas com deficiência ou doenças crônicas, as mulheres dedicam, em média, 3 horas e 38 minutos semanais, contra apenas 48 minutos dos homens.
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“Eu vejo muitas mães que não têm com quem deixar os filhos e, por isso, param de trabalhar ou estudar. Muitas têm que ser pai e mãe ao mesmo tempo”, relatou uma das entrevistadas na etapa qualitativa do estudo.
Esse desequilíbrio tem impactos diretos no mercado de trabalho: mulheres que assumem sozinhas a criação dos filhos são mais vulneráveis ao desemprego, à informalidade e à desistência de projetos educacionais e profissionais.
Renda estagnada e desigualdade racial
Mesmo com o aumento da escolaridade nas últimas décadas, a renda das mulheres também não acompanha esse avanço. Mais da metade (55%) vive em domicílios com renda inferior a dois salários mínimos — proporção que sobe para 59% entre mulheres negras.
Além disso, 28% das mulheres têm renda inferior a um salário mínimo, mais que o dobro da taxa observada entre os homens (12%). Esses números revelam que a maternidade solo se cruza com desigualdades raciais e de classe, ampliando a vulnerabilidade de milhões de brasileiras.
Políticas insuficientes
Apesar da centralidade do tema, o Estado brasileiro continua falhando em oferecer políticas de cuidado compatíveis com a realidade da vida das mulheres. A insuficiência de creches públicas em tempo integral, a fragilidade da cobrança de pensão alimentícia e a ausência de mecanismos que incentivem a participação masculina no cuidado formam todo um cenário de negligência institucional.
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A própria pesquisa evita o termo “mãe solo” em sua categorização, por reconhecer que ele não abarca toda a complexidade do fenômeno e carrega disputas simbólicas. Ainda assim, os números escancaram: o cuidado com as crianças segue sendo uma responsabilidade quase exclusiva das mulheres, e em muitos casos sem qualquer apoio material ou afetivo do outro responsável.
Mais do que dados estatísticos, a pesquisa da Fundação Perseu Abramo e do Sesc revela uma realidade que precisa ser enfrentada com urgência por meio de políticas públicas robustas e transformações culturais profundas. Sem isso, a chamada “maternidade solo” continuará sendo não apenas um destino individual, mas uma face cruel da desigualdade de gênero no Brasil.
Sobre a pesquisa
A pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado está em sua terceira edição e foi realizada entre 2021 e 2023. Foram ouvidas 2.440 mulheres e 1.221 homens, em áreas urbanas e rurais de 25 estados, com diversidade de raça, escolaridade, renda e orientação sexual. A metodologia combinou abordagens quantitativas, com questionários estruturados, e qualitativas, com entrevistas em profundidade, incluindo mulheres cis, trans e pessoas não binárias. A margem de erro é de até 2 pontos percentuais para os resultados femininos e 3 pontos para os masculinos.
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