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Inspirada em Thatcher, Takaichi assume o Japão com agenda ultraconservadora

A ex-baterista e linha-dura do Partido Liberal Democrata (PLD) Sanae Takaichi foi eleita nesta terça-feira (21) a primeira mulher a governar o Japão. A nova premiê se declara abertamente inspirada na ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro”, que mergulhou o Reino Unido no neoliberalismo.

Aos 64 anos, Takaichi, ex-ministra da Segurança Econômica, assumiu o cargo após costurar uma aliança de última hora com o Partido da Inovação do Japão (Nippon Ishin), que devolveu à direita uma maioria parlamentar perdida nas últimas semanas. 

O acordo encerra um período de instabilidade iniciado com a renúncia do ex-premiê Shigeru Ishiba e confirma a permanência quase ininterrupta do PLD no poder desde 1945. 

O feito histórico de Takaichi — primeira mulher no comando do país — não representa um avanço feminista, mas a consolidação de um novo ciclo conservador, ancorado na retórica nacionalista e na agenda militarista.

A aliança que a levou ao poder nasceu de um cálculo político preciso. Após a derrota do PLD nas câmaras alta e baixa, Tóquio mergulhou num impasse que ameaçava antecipar as eleições. 

O Nippon Ishin, legenda liberal-nacionalista baseada em Osaka, ofereceu apoio em troca de concessões: reforma da previdência, suspensão do imposto de consumo sobre alimentos, proibição de doações corporativas e o reconhecimento de Osaka como capital administrativa em situações de emergência. 

O pacto, assinado nesta segunda-feira (20), isolou o campo progressista e abriu caminho para a votação parlamentar desta terça-feira, que formalizou a escolha de Takaichi. 

A manobra, contudo, provocou a ruptura do Komeito — aliado histórico há 26 anos e sustentado pela organização budista Soka Gakkai —, que classificou as posições da nova premiê como “agressivas” e denunciou o envolvimento do PLD em escândalos de financiamento e na crise do custo de vida que desgasta o partido.

Takaichi cultiva a imagem de “mulher forte” inspirada em Thatcher, símbolo do neoliberalismo britânico e da repressão sindical dos anos 1980. 

Diz admirar na “Dama de Ferro” a combinação de “caráter firme e calor feminino”, discurso que repete desde que a conheceu pessoalmente em 2013. A nova premiê integra a ala mais rígida do PLD, herdeira do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, assassinado em 2022, e defende o mesmo tripé ideológico: nacionalismo, estímulo estatal e controle social. 

Baterista em uma banda universitária de heavy metal, construiu reputação de disciplina e temperamento explosivo. 

Em termos programáticos, opõe-se ao casamento homoafetivo, rejeita a revisão da lei do século 19 que obriga casais a compartilhar o mesmo sobrenome e propõe reescrever a Constituição pacifista de 1947 para reconhecer oficialmente as Forças de Autodefesa.

A política externa é o centro de sua plataforma. Crítica contundente da China, Takaichi anunciou que buscará “tornar a economia do Japão mais forte” e “remodelar o país para as próximas gerações”, com ênfase no fortalecimento militar e no alinhamento a Washington. 

Em abril, visitou Taiwan e afirmou ser “crucial reforçar a segurança conjunta” com Taipé, declaração que elevou a tensão com Pequim. 

É também frequentadora do Santuário Yasukuni, que homenageia 2,5 milhões de mortos e 14 criminosos de guerra, considerado pelos vizinhos asiáticos um símbolo do militarismo japonês. 

Sua primeira missão internacional será a Cúpula da Apec, na Coreia do Sul, ao lado do presidente norte-americano Donald Trump, com quem deve discutir novas diretrizes comerciais e de defesa.

A ascensão de Takaichi se apoia também em um discurso de segurança interna que ecoa o populismo identitário de novas direitas. 

A premiê prometeu “tolerância zero” com estrangeiros que “violem as leis japonesas”, justificando o endurecimento das regras migratórias com exemplos anedóticos, como o de turistas que “chutavam cervos” em sua cidade natal, Nara. 

A retórica, que liga imigração a desordem moral, mobiliza eleitores nacionalistas e disputa espaço com o partido Sanseito, legenda de extrema direita em expansão. 

Organizações de direitos humanos alertam que essa agenda ameaça retroceder nas políticas de integração e residência de trabalhadores estrangeiros — uma contradição num país com população envelhecida e carência crescente de mão de obra.

No campo econômico, Takaichi defende a retomada do “Abenomics”, política de estímulo lançada por Shinzo Abe — com aumento do gasto público, cortes de impostos e interferência direta do Estado sobre o Banco do Japão. 

Diferentemente de Thatcher, símbolo de austeridade fiscal, a japonesa propõe uma guinada expansionista de gastos.

Seu programa combina nacionalismo produtivo, proteção de conglomerados industriais e centralização das decisões financeiras, modelo que a aproxima das experiências de populismo econômico observadas em outros governos conservadores da Ásia.

Embora prometa “níveis nórdicos de equilíbrio de gênero” em seu gabinete, Takaichi chega ao poder em um país que ocupa a 118ª posição entre 148 no ranking de desigualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial. 

Especialistas apontam que sua presença no topo da hierarquia política serve mais como vitrine simbólica do que como compromisso real com a emancipação das mulheres. 

“Ela mostrou pouca disposição para desafiar normas patriarcais”, avaliou o professor emérito da Universidade de Tóquio Sadafumi Kawato à AFP.

A posse de Sanae Takaichi representa um marco histórico para o Japão, mas também um sinal de retrocesso social e político. 

Sob o discurso de força e ordem, a nova premiê projeta um governo alinhado à estratégia norte-americana na Ásia e hostil a minorias e imigrantes. 

Inspirada em Thatcher, Takaichi traz ao século 21 o ideal de disciplina moral e rearmamento nacional como resposta à crise econômica e à perda de influência global — um caminho que aprofunda as desigualdades e coloca o país diante de um dilema entre modernização e autoritarismo.

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