
Israel devolveu 135 corpos de palestinos à Faixa de Gaza, todos com sinais de tortura, mutilação e execuções sumárias em instalações militares no deserto do Negev.
Documentos encontrados nos sacos mortuários, escritos em hebraico, confirmam que os corpos foram mantidos em Sde Teiman, um centro de detenção militar já denunciado por tortura, estupros e mortes ilegais sob custódia.
Segundo o ministério da Saúde de Gaza, as vítimas apresentavam ferimentos à queima-roupa, marcas de enforcamento, queimaduras e membros esmagados por tanques.
“Os corpos foram devolvidos vendados, amarrados como animais e com sinais de tortura severa e queimaduras. Eles não morreram naturalmente, foram executados enquanto estavam imobilizados”, declarou o diretor-geral da pasta, Dr. Munir al-Bursh.
Os corpos foram entregues como parte do cessar-fogo mediado por Donald Trump, que envolveu a troca de reféns e prisioneiros mortos.
Fotografias e relatórios médicos analisados por veículos internacionais mostram corpos com cordas no pescoço, algemas nos pulsos e hematomas profundos. A maior parte foi devolvida sem nomes, apenas com códigos, o que tem dificultado o reconhecimento pelas famílias.
No hospital Nasser, em Khan Younis, equipes forenses relataram sinais de tiros à curta distância e ferimentos compatíveis com atropelamentos por tanques.
Ex-detentos libertos durante a trégua relataram choques elétricos, espancamentos e estupros cometidos por guardas israelenses. O jornalista palestino Shadi Abu Seido, libertado após 20 meses, afirmou ter sido mantido nu por dez horas e algemado por cem dias, além de ter testemunhado mortes e insanidade entre os prisioneiros.
“Trouxeram cães que urinaram em nós. Quando perguntei por que fui preso, responderam: ‘Matamos todos os jornalistas. Eles morreram uma vez. Mas trouxemos você aqui para morrer centenas de vezes’”, relatou.
Os abusos relatados confirmam o padrão de tortura e punição coletiva adotado nas prisões israelenses. Uma investigação do Guardian revelou o estupro coletivo de um detento palestino por guardas em Sde Teiman, episódio registrado em vídeo e confirmado pela imprensa israelense.
Segundo Naji Abbas, diretor da ONG Médicos pelos Direitos Humanos de Israel, “os sinais de tortura nos corpos são horríveis, mas, infelizmente, não surpreendentes”.
Ele afirmou que centenas de casos semelhantes já haviam sido documentados, envolvendo mortes por espancamento e negligência médica deliberada. Um relatório da ONG B’Tselem classificou o sistema prisional israelense como “uma rede de campos de tortura”, com agressões sexuais, fome deliberada, privação de sono, proibição de práticas religiosas e negação de atendimento médico.
A advogada palestina Sahar Francis, diretora de uma organização de defesa de presos, declarou que “centenas de detentos foram despidos, algemados e transportados de forma humilhante”.
Para ela, “Israel usa essas políticas de forma sistemática porque sabe que não haverá consequências”.
Os testemunhos recolhidos entre os libertos reforçam o quadro de brutalidade. Mahmoud Abu Foul afirmou ter ficado cego após um espancamento que o deixou inconsciente por horas. Kamal Abu Shanab contou que seu peso caiu de 127 para 68 quilos e que sua sobrinha chorou ao vê-lo “irreconhecível”.
Salem Eid relatou que não consegue deitar por causa das lesões nas costas e dorme sentado.
Desde outubro de 2023, segundo o Instituto de Estudos Palestinos, oitenta detentos morreram sob custódia israelense, enquanto 75 corpos permanecem retidos. A mesma fonte calcula que mais de um milhão de palestinos foram presos desde 1967 e que cinco mil estão hoje doentes ou feridos.
Um dos casos mais recentes é o de Jamel al-Ajrami, de 69 anos, que morreu após um ano detido no presídio de Negev em condições degradantes.
Entre os nove mil palestinos ainda presos, destaca-se o líder político Marwan Barghouti, condenado à prisão perpétua em 2004 e comparado a Nelson Mandela por sua defesa da resistência não violenta e da solução de dois Estados.
Segundo seu filho, Arab Barghouti, o pai foi espancado até desmaiar em setembro, tendo três costelas quebradas, conforme relatou o ex-detento Mohammad al-Ardah.
O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, responsável pelas prisões, chegou a ser filmado mostrando a Barghouti uma cadeira elétrica e dizendo que aquele seria seu destino. Ele se orgulhou publicamente das condições precárias impostas aos prisioneiros e afirmou que “os campos de verão e a paciência com terroristas acabaram”.
Israel nega as acusações de tortura e execução, mas não apresentou provas que sustentem sua defesa.
O Exército israelense declarou tratar os prisioneiros “de forma apropriada e cuidadosa”, e o Serviço Prisional não respondeu aos pedidos de comentário. A Cruz Vermelha Internacional, responsável pelas trocas de reféns, limitou-se a dizer que sua prioridade é a “transferência digna dos restos mortais”.
Já o relator especial da ONU para perícia forense, Dr. Morris Tidball-Binz, pediu assistência internacional independente para examinar os corpos devolvidos. Advogados palestinos e organizações de direitos humanos insistem que as práticas israelenses violam a Convenção da ONU Contra a Tortura e as Convenções de Genebra, configurando crimes de guerra e punição coletiva.
Para Sahar Francis, “isto é punição coletiva para toda a sociedade palestina”.
As denúncias expõem, mais uma vez, o padrão de impunidade que caracteriza a política carcerária israelense. Sde Teiman, Negev e outras prisões transformaram-se em símbolos da violência institucionalizada contra palestinos, onde a tortura, a execução e a retenção de corpos são usadas como instrumentos de dominação política.
As investigações agora solicitadas ao Tribunal Penal Internacional buscam estabelecer responsabilidades formais, enquanto as famílias das vítimas enfrentam o luto e o horror de reconhecer seus entes queridos “vendados, amarrados e queimados” — como descreveu o Dr. al-Bursh — sob um sistema que, há décadas, ignora o direito internacional e a própria dignidade humana.
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