
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quinta-feira (23) o rompimento de todas as negociações comerciais com o Canadá, um de seus principais parceiros e aliado histórico, após a veiculação de um vídeo produzido pelo governo da província canadense de Ontário em que o ex-presidente Ronald Reagan aparece criticando tarifas.
O republicano classificou o material como “falso” e “ultrajante”, afirmando que se tratava de uma tentativa de interferir na decisão da Suprema Corte americana sobre a legalidade de suas tarifas.
“Com base em seu comportamento ultrajante, todas as negociações comerciais com o Canadá estão encerradas”, escreveu o presidente na rede Truth Social. A decisão marca mais um episódio de instabilidade na política externa de Trump, que tem alternado gestos de cordialidade e rupturas abruptas com aliados históricos.
Duas semanas antes, o presidente havia recebido o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, na Casa Branca e falado em “amor mútuo” entre os países.
O rompimento repentino reforça a percepção de que a estratégia comercial dos Estados Unidos se guia por impulsos e interesses eleitorais, mais do que por critérios diplomáticos ou econômicos consistentes.
Desde o início do ano, Trump impôs tarifas de 35% sobre produtos canadenses, além de sobretaxas de 50% sobre metais e 25% sobre automóveis, medidas que atingiram em cheio a economia de Ontário, província industrial responsável por grande parte da produção de aço e veículos do país.
O governo canadense retaliou com tarifas próprias, depois parcialmente suspensas, na tentativa de negociar um acordo para os setores de aço e alumínio. A escalada tarifária levou as relações bilaterais ao pior momento em décadas e ocorre em meio à revisão do acordo de livre comércio norte-americano (USMCA), prevista para 2026.
O vídeo que motivou o rompimento tem cerca de um minuto e foi produzido pelo governo de Ontário, liderado por Doug Ford.
Exibido em canais de televisão dos Estados Unidos durante transmissões da liga de beisebol, o comercial reúne trechos de um discurso feito por Reagan em 1987, no qual o ex-presidente adverte que tarifas e políticas protecionistas provocam perda de empregos e guerras comerciais.
A gravação é autêntica e consta nos arquivos da biblioteca presidencial Reagan, mas Trump acusa o vídeo de reordenar a sequência das frases.
“Quando alguém diz: ‘Vamos impor tarifas sobre importações estrangeiras’, parece que está fazendo algo patriótico ao proteger produtos e empregos americanos. E às vezes, por um curto período, funciona — mas apenas por pouco tempo”, afirma Reagan no trecho. “A longo prazo, tais barreiras comerciais prejudicam todos os trabalhadores e consumidores americanos.”
Pressionada pelo movimento MAGA, a Fundação Ronald Reagan, responsável por preservar o acervo do ex-presidente, divulgou nota afirmando que o anúncio usou “trechos seletivos de áudio e vídeo” e que o governo de Ontário “não buscou nem recebeu autorização para editar as declarações”.
O órgão informou ainda que estuda medidas legais. Trump, por sua vez, reagiu dizendo que Reagan “amava as tarifas pelo nosso país e por sua segurança nacional”, em contraste com o discurso liberal de livre-comércio que marcou o Partido Republicano nos anos 1980.
Doug Ford confirmou ter encomendado o anúncio e ironizou a reação de Trump. “Ouvi dizer que o presidente viu nosso anúncio. Tenho certeza de que ele não ficou muito feliz”, disse.
Embora conservador, Ford tem sido crítico das políticas comerciais de Washington, que classificou como “uma faca cravada em nós”. Em declarações anteriores, chegou a ameaçar cortar o fornecimento de energia aos Estados Unidos em retaliação.
“Nunca deixaremos de defender o fim das tarifas americanas contra o Canadá”, escreveu nas redes.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, também reagiu à decisão de Trump. Ele afirmou que o Canadá “não permitirá acesso injusto dos EUA aos seus mercados caso fracassem as negociações sobre diferentes acordos comerciais” e que “a velha relação com os Estados Unidos acabou”.
Carney, eleito no início do ano, tenta diversificar as exportações canadenses e reduzir a dependência do mercado norte-americano.
A nova crise com o Canadá amplia a percepção de isolamento do governo Trump e aprofunda as incertezas sobre a estabilidade comercial no continente. Analistas veem a decisão como mais um gesto impulsivo da política externa norte-americana, baseada em retaliações e uso político das tarifas.
Para o Brasil, que negocia com Washington a redução das tarifas impostas em julho, o episódio serve de alerta: nem parceiros históricos escapam da volatilidade da Casa Branca.
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