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Ibaneis faz “política rasteira” ao sancionar lei anticomunista, diz João Vicente Goulart

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sancionou a Lei nº 7.754/2025, que cria o Dia da Memória das Vítimas do Comunismo no calendário oficial de eventos do DF, a ser celebrado em 4 de junho. A proposta, de autoria do deputado distrital Thiago Manzoni (PL), cita episódios da China, União Soviética e Camboja para justificar a criação de uma data de “reflexão” sobre as mortes atribuídas a regimes comunistas.

A proposta, aprovada na Câmara Legislativa no fim de setembro, gerou forte reação de partidos progressistas e setores da sociedade civil.

A medida tem sido duramente criticada por partidos, movimentos sociais e estudiosos da história política brasileira, que a veem como uma tentativa de criminalizar as ideias de esquerda e reescrever a história recente do país. Em entrevista ao Portal Vermelho, o presidente do PCdoB-DF e filho do ex-presidente João Goulart, João Vicente Goulart faz duras críticas à iniciativa, que considera “uma manobra política hipócrita” e “um desserviço à democracia e à memória nacional”.

João Vicente Goulart, presidente do PCdoB-DF

Vermelho – O governador Ibaneis Rocha sancionou a lei que cria o “Dia das Vítimas do Comunismo”. O senhor acha que ele sabe o peso político dessa decisão?

João Vicente Goulart: O governador Ibaneis, como é público e notório, nunca foi político, antes de sua campanha milionária em 2018. Ele se caracteriza na administração pública, como um predador econômico em benefício de si próprio, de seus negócios e da sua evolução patrimonial durante sua permanência á frente do governo do Distrito Federal.

Não é por acaso, que ele, ao sancionar essa lei antidemocrática, eleitoreira, antiética, politicamente falando, deve estar em uma masturbação psíquica, pensando que está fazendo uma ação de nível de estadista, jactando-se de seus opositores, como se o “agir” político, se controle com vingança.

Não, não tem ideia do peso político que cairá em sua biografia no futuro, quando a história contará a sua falta de grandeza e seu desprezo pelos que não pensam como ele.

Vermelho Como o senhor avalia o uso político da expressão ‘vítimas do comunismo’ em um país que nunca teve governo comunista – mas sim uma ditadura militar apoiada pelos EUA?

João Vicente Goulart – Chega a ser ridícula a comemoração de um “dia das vítimas do comunismo”. Essa mania de tildarem de comunista toda e qualquer ação progressista em favor da população mais desamparada do Brasil, que a extrema direita fascista, conservadora, reacionária, vem produzindo nessa retórica facciosa e mentirosa, desde o golpe de 1964, que durou vinte e um anos de torturas, mortes, desaparecimentos, sequestros, cassações, exílios e uma ditadura feroz, foi elaborada com a tese do “anticomunismo”.  Foi a direita, os conservadores como Ibaneis, que apoiaram o golpe de 1964 que gerou milhares de vítimas, brasileiros que lutavam para restaurar a democracia surrupiada, por aqueles que diziam querer impedir um governo do povo, para o povo, colocando o Brasil nos trilhos do nacional desenvolvimentismo.

Vermelho O Brasil não tem um “dia das vítimas da ditadura militar”, que realmente matou e torturou pessoas. O que isso mostra sobre o tipo de memória que o Estado quer preservar? Seria essa mais uma tentativa de políticos de direita de atacar os movimentos de esquerda no Brasil?

João Vicente Goulart Filho – Política rasteira. Isso é o que resta a essa direita esbanjadora que não pensa o Brasil. Criar factoides, manipular Fake News, impossibilitar medidas provisórias, inverter realidades sociais e criar todo tipo de absurdos como esta lei das “vítimas do comunismo”. É como se o campo progressista enviasse uma lei aqui na Câmara Legislativa do DF, criando o “Dia das vítimas da saúde pública do DF”. De que adiantaria fazer este tipo de subterfúgio? Política hipócrita, política eleitoreira, sem fundo de sustentação, a não ser criar ou enaltecer o ego de eleitoralmente, mostrar-se comprometido com golpistas e descomprometidos com a democracia. Já vimos isso, como ocorreu e 8 de janeiro de 2023, o triste comprometimento do governo Ibaneis com a segurança da Praça dos três poderes.  

 Vermelho – A lei cita um episódio chinês de 1989, sendo que a China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil. Não é uma contradição?

João Vicente Goulart Filho – Em 1961, o vice-presidente do Brasil, João Goulart, foi o primeiro líder ocidental a ser convidado para visitar a China. Aquela viajem histórica trouxe ao país a possibilidade de, pela primeira vez, o Brasil, numa visão multipolar, tão falada hoje 65 anos depois, construísse um intercâmbio comercial com um país há época de 800.000 milhões de habitantes.

Pois bem, ainda naquela viajem, o vice-presidente foi pego de surpresa com a renúncia do presidente Jânio Quadros, tendo-se criado no Brasil uma ampla crise institucional com aquela renúncia.

Os três ministros militares de Jânio Quadros, Grumm Moss, Silvio Heck e Odilio Denys, após a renúncia ser aceita pelo Congresso Nacional, manifestam-se publicamente que o vice-presidente está na China, e por este só este motivo, se está na China é comunista, e se é comunista não entra no Brasil.

Esta arbitrariedade, mesmo João Goulart tido sido eleito democraticamente, a representação das três forças armadas sem nenhuma modéstia, queriam colocar as páginas de nossa Constituição, como um simples papel higiênico, no banheiro de seus quarteis.

Aliás, quartéis é o que não faltou na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, quando a polícia de Ibaneis, tirava fotos com os baderneiros golpistas.

Para não esquecer, Nixon pediu para ir a China, dez anos depois de Jango, pois não podia ignorar um mercado tão volumoso para as exportações americanas. É de se perguntar à direita brasileira: Nixon era comunista?

 Vermelho – Você acha que leis como essa servem para desviar a atenção dos problemas reais, como desemprego, moradia e desigualdade?

João Vicente Goulart Filho – Sim, é uma maneira de desviar o foco da administração do governador. É como levar o debate para a área política e esquecer de interpelá-lo sobre a saúde, sobre o transporte, sobre privatizações do setor público, sobre obras e negócios sem transparência, que vem acontecendo nas barbas da população.

Temos visto como é o caráter dos mentirosos, eles atiram a pedra e escondem a mão, típico dos covardes.

O governo do DF privatizou a CEB [Companhia Energética de Brasilia] quando existe até assinatura do governador prometendo não privatizar o que é público e nem outras empresas. Existe agora a privatização da rodoviária e estacionamentos, depois de quase cinco anos de desleixo e sucateamento. O metrô segue o mesmo caminho, cada vez mais sucateado, lotado e com frequência cada vez mais espaçada, para infernizar os usuários.

Outras empresas a caminho, CAESB, BRB em direção a dar prejuízo, com a compra de um banco falido, ou com o impedimento da compra do MASTER, comprar suas ações, de um empresário amigo.

O debate político, tira o foco de falcatruas. Essa é a realidade.

 Vermelho – Como herdeiro do legado de João Goulart, o que você diria a quem ouve falar que “o comunismo matou milhões”, mas nunca estudou o que de fato foi comunismo ou socialismo?

A história dos povos tem muitas nuances, guerras, levantes, guerrilhas, golpes de Estado, mas temos que ter visão analítica, ao determos para cada posição que externamos, pois de outra maneira, corremos o risco de sermos sectários, como é a argumentação dessa tal lei das “vítimas do comunismo”.

A segunda guerra mundial, foi uma epopeia massacrante para os aliados que impediram a vitória do nazifascismo e, sem dúvida nenhuma, historicamente, o ocidente deve ao Exército Vermelho, a vitória final contra Hitler, na libertação de Berlim.

Os comunistas perderam 27 milhões de soldados para libertar o ocidente, e mesmo assim este reconhecimento histórico, não passa na boca dos reacionários burgueses, que controlam o capitalismo e são adeptos de manter seus privilégios rentistas, no governo ou fora dele.

Após a vitória de Berlim, Truman achava que não precisava mais dos soviéticos comunistas, pois tinha, no deserto de Nevada, construído a bomba atômica que despejou sem piedade alguma, sobre centenas de milhares de civis em Nagasaki e Iroshima.

Este é foco da arrogância capitalista, que se estende até hoje no imaginário de governantes de direita. Democracia é só pregação, realidade são bombas e intervenção.

A herança do Presidente João Goulart não me pertence, pertence ao povo brasileiro, pertence a todos que lutam contra as injustiças sociais, pertence ao combate contra o cinismo, a fraude, a todos aqueles que repudiam propinas das grandes obras, caras e desnecessárias.

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