
O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, em Busan, na Coreia do Sul, nesta quinta-feira (30), produziu imagens de conciliação e gestos de aparente reciprocidade. Mas, por trás das fotos, o saldo foi assimétrico.
A China conquistou redução de tarifas, suspensão de sanções e adiamento de controles tecnológicos, enquanto os Estados Unidos levaram o discurso de vitória para consumo interno.
O desfecho da reunião — seguido, no dia seguinte, pela projeção isolada de Xi na cúpula da Apec em Gyeongju — consolidou a reorganização do tabuleiro econômico e diplomático: Pequim voltou a definir o ritmo da disputa e Washington passou a reagir.
O acordo prevê redução das tarifas de 57% para 47%, suspensão de taxas portuárias sobre navios chineses e adiamento de restrições de exportação que impediriam empresas de Pequim de acessar semicondutores e tecnologias críticas.
Em contrapartida, a China retomará compras de soja e suspenderá, por um ano, as restrições às exportações de terras-raras, minerais que domina em 90% da oferta mundial e que são indispensáveis para setores de defesa, energia e tecnologia.
Na prática, a trégua restaura o cenário anterior à escalada tarifária — mas com Pequim em posição mais sólida.
“Os chineses ficaram cada vez mais ousados em exercer influência e estão satisfeitos em embolsar todas as concessões dos EUA”, avaliou ao New York Times Julian Gewirtz, ex-assessor de política para a China na Casa Branca.
Enquanto isso, Trump celebrou a trégua com a sua base eleitoral. “Nossos agricultores ficarão muito felizes! Gostaria de agradecer ao presidente Xi por isso!”, escreveu o republicano no Truth Social, referindo-se à retomada das exportações de soja e às promessas chinesas de conter o fluxo de precursores do fentanil.
A imprensa americana classificou a estratégia de Xi como “a arte de deixar Trump parecer vitorioso, saindo mais forte”. Para o economista Jonathan Czin, do Brookings Institution, o acordo “pode ser descrito como tática sem estratégia” — um gesto de Trump para mostrar iniciativa, sem objetivos de longo prazo.
“Em vez de lidar com as questões estruturais, a China orquestrou um jogo de bate-bola que obriga Washington a reagir, de um tema ao outro”, disse.
O uso calculado das terras-raras foi a peça central desse movimento. Em outubro, a China havia imposto amplas restrições à exportação do minério, sinalizando que poderia paralisar cadeias produtivas inteiras caso os EUA endurecessem as sanções. O gesto levou Washington a recuar.
Após a reunião na Coréia do Sul, o ministério do Comércio chinês anunciou suspensão das restrições por um ano, projetando racionalidade e controle, enquanto mantinha a ameaça como instrumento de dissuasão.
“Depois que Trump iniciou sua guerra comercial, a China foi o único país que respondeu na mesma moeda”, observou Zhu Feng, professor de relações internacionais da Universidade de Nanjing ao NYT.
“A maior vitória de Pequim pode ser fazer Washington pensar duas vezes antes de impor novas medidas”, disse o professor.
O cálculo da dissuasão e a virada de poder
A trégua anual, que poderá ser revista em 2026, dá tempo para que a China avance no fortalecimento de suas cadeias de produção autônomas.
O novo plano quinquenal do Partido Comunista Chinês prioriza a autossuficiência em semicondutores e energia limpa, com investimento em tecnologia nacional e parcerias regionais que reduzam a dependência de insumos norte-americanos.
Para Scott Kennedy, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, “as ameaças chinesas levaram os EUA a recuarem. Xi criou um espaço mais seguro para o sistema econômico da China e para seus esforços de alcançar maior liderança global”.
O acordo também suspendeu a ampliação das listas de empresas chinesas proibidas de operar com tecnologia dos EUA, que poderia atingir até 20 mil companhias. A manobra é interpretada por analistas como segundo recuo americano em menos de dois anos, reforçando o poder de barganha chinês.
“Talvez essa carta não funcione sempre, mas, por agora, atingimos o ponto fraco da América”, disse Tu Xinquan, ex-assessor do ministério do Comércio da China.
No dia seguinte ao anúncio do acordo, em Gyeongju, Trump já havia deixado o país e Xi assumiu o papel de único chefe de superpotência na cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec).
Em discurso de abertura, defendeu a integração regional e lançou uma advertência indireta a Washington e seus aliados. “Devemos nos opor ao protecionismo, resistir ao bullying unilateral e impedir que o mundo retorne à lei da selva”, afirmou.
Xi também pediu que as economias asiáticas “estendam as cadeias em vez de rompê-las”, criticando a tentativa ocidental de transferir fábricas para fora da China. Em encontros bilaterais, ofereceu à Coreia do Sul e ao Japão cooperação em energia e infraestrutura.
Com o Canadá e a Austrália, discutiu mecanismos de investimento em comércio verde.
O líder chinês aproveitou o fórum para promover a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative) — plano global de infraestrutura e comércio liderado por Pequim —, além de destacar o RCEP (Parceria Econômica Regional Abrangente) e o CPTPP (Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica).
Esses dois últimos blocos reúnem países da Ásia e do Pacífico e simbolizam o projeto chinês de integração econômica regional, que busca reduzir a dependência de redes comerciais dominadas pelos Estados Unidos.
O silêncio como método
O desfecho da viagem de Xi Jinping à Coreia do Sul e à cúpula da Apec deixou uma mensagem clara: a China não precisa mais vencer disputas com anúncios ou rupturas. Sua força, hoje, está em administrar o tempo, controlar o discurso e transformar cada impasse em vantagem tática.
Ao permitir que Trump declarasse vitória, Pequim consolidou um espaço de poder mais estável e previsível, enquanto os Estados Unidos continuam oscilando entre medidas de impacto e revisões improvisadas.
A diplomacia chinesa opera com o cálculo de quem enxerga a política global como uma maratona, não como um comício.
Xi deixou a Ásia sem gestos espetaculares, mas com uma trégua moldada ao interesse chinês e uma rede de alianças econômicas que se expande em silêncio. Trump voltou para casa com manchetes; Xi voltou com resultados.
E, no balanço entre forma e substância, é o país que fala menos que parece decidir mais.
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