
Em plena era Trump, a cidade mais rica dos Estados Unidos pode escolher um socialista para governá-la. A eleição desta terça-feira (4) em Nova York coloca frente a frente Zohran Mamdani, 34, apoiado por Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, e o ex-governador Andrew Cuomo, candidato independente que recebeu endosso do presidente Donald Trump.
A disputa virou símbolo do embate entre o poder financeiro e a nova esquerda urbana.
A votação ocorre até as 21h (horário local), com votos antecipados e por correio já registrados desde a semana passada. Segundo a Junta Eleitoral da cidade, 735 mil votos foram depositados antecipadamente — mais de quatro vezes o total de 2021.
Além da disputa nova-iorquina, eleitores norte-americanos escolhem governadores em Nova Jersey e Virgínia e votam uma proposta de redistritamento na Califórnia.
O conjunto das eleições é tratado pela imprensa do país como o primeiro grande teste político do segundo mandato de Donald Trump, iniciado há nove meses e marcado por conflitos institucionais e desaceleração econômica.
Em Nova York, a campanha expôs as divisões ideológicas dos Estados Unidos. Mamdani enfrenta o ex-governador Andrew Cuomo, que tenta voltar à política como independente, depois de ter perdido as primárias do partido Democrata, e o republicano Curtis Sliwa, fundador do grupo de patrulha civil Guardian Angels.
A disputa foi intensificada por ameaças diretas de Trump, que endossou Cuomo e declarou que cortará repasses federais se a cidade “cair nas mãos da extrema esquerda”.
Quem é Zohran Mamdani e o que ele propõe
Filho de imigrantes indianos, nascido em Uganda e criado no Queens, Zohran Mamdani tornou-se uma das vozes mais expressivas da nova esquerda norte-americana.
Aos 34 anos, o deputado estadual representa a ala socialista do Partido Democrata e defende reformas estruturais inspiradas na agenda de Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez — ambos entre seus principais apoiadores nesta eleição.
Eleito para a Assembleia de Nova York em 2020, Mamdani ganhou projeção por denunciar o impacto do capital financeiro na vida urbana. Seu programa para a prefeitura tem como eixo a redistribuição do espaço e da riqueza na cidade, propondo medidas que enfrentam diretamente o mercado imobiliário.
Entre elas, congelamento dos aluguéis por cinco anos, taxação progressiva sobre imóveis ociosos e grandes fortunas, transporte público gratuito e ampliação das moradias públicas sob controle estatal do solo urbano.
O lema da campanha — “New York is Not For Sale” (“Nova York não está à venda”) — expressa a crítica ao domínio de incorporadoras e fundos de investimento sobre a política local. Em seus discursos, Mamdani afirma que a disputa eleitoral é “entre o direito de viver na cidade e o poder do dinheiro”.
Ele associa a crise habitacional à “herança do capitalismo financeiro”, que, segundo ele, transformou Nova York em “vitrine da especulação global”.
Com linguagem direta e forte apelo popular, o candidato mobilizou jovens, trabalhadores e imigrantes, especialmente nos bairros periféricos de Astoria, Jackson Heights e Corona, onde mantém redes de apoio comunitário e militância de base.
As pesquisas mais recentes indicam Mamdani com 46,1% das intenções de voto, uma vantagem de 14 pontos sobre Andrew Cuomo e de quase 30 pontos sobre Curtis Sliwa.
Como Nova York adota o sistema de maioria simples, vence o candidato mais votado, mesmo sem ultrapassar 50% dos votos válidos. Ainda assim, uma vitória com maioria absoluta seria vista como mandato político claro para a agenda socialista, consolidando Mamdani como nova liderança nacional do campo progressista.
A força da campanha de Mamdami surpreendeu até observadores tradicionais do partido Democrata. Analistas apontam que o socialista conseguiu ampliar o eleitorado progressista ao incorporar temas de segurança e qualidade de vida a uma plataforma econômica de redistribuição.
Seu discurso combina crítica social e pragmatismo administrativo, apresentando a cidade como um espaço que deve “produzir bem-estar, e não lucros para poucos”.
Adversários e interferência direta de Trump
A tentativa de retorno de Andrew Cuomo transformou-se em um dos pontos mais controversos da eleição. Ex-governador entre 2011 e 2021, ele renunciou após denúncias de assédio sexual e agora tenta se reposicionar como gestor pragmático e “alternativa ao radicalismo”.
Sua campanha, contudo, ganhou outro contorno quando Donald Trump anunciou apoio público.
O presidente pediu votos a Cuomo, chamou Mamdani de “ameaça à segurança nacional” e ameaçou retirar recursos federais da cidade se o socialista vencer. A declaração foi criticada por prefeitos e parlamentares democratas, que a classificaram como interferência autoritária em um processo eleitoral local.
O republicano Curtis Sliwa, 71, também está na corrida, embora apareça distante nas pesquisas. Figura conhecida da direita nova-iorquina, ele promete “restaurar a ordem” e evoca o clima de insegurança dos anos 1980, quando fundou os Guardian Angels.
Na reta final, Mamdani reagiu às ameaças de Trump afirmando que “a democracia não pode ser negociada com chantagens federais” e que Nova York “não se curva a presidentes que governam pelo medo”.
Racha democrata e volta das figuras nacionais
A disputa nova-iorquina expôs a fragmentação do partido Democrata, dividido entre a ala progressista e o establishment tradicional. Cuomo, embora concorra como independente, ainda atrai parte da base sindical e empresarial do partido, enquanto Mamdani representa o campo de renovação política.
Para evitar um colapso interno, lideranças nacionais voltaram à campanha. O ex-presidente Barack Obama percorreu Nova Jersey e Virgínia pedindo votos para democratas e criticando “a ilegalidade do trumpismo”.
Já Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez participaram de comícios no Queens, reafirmando Mamdani como símbolo da resistência progressista.
“O partido Democrata está fragmentado. Precisa de vitórias locais para provar que ainda tem rumo”, disse Larry Sabato, da Universidade da Virgínia ao New York Times.
No campo republicano, o discurso de Trump domina a agenda nacional. O presidente tenta se manter como referência política mesmo fora das urnas, atuando como cabo eleitoral e comandante informal do partido.
O resultado das eleições servirá como medida da força real de seu movimento político.
Outras votações e o clima político nacional
Enquanto os holofotes estão concentrados na disputa eleitoral em Nova York, outras votações reforçam o caráter nacional do pleito desta terça-feira.
No estado da Virgínia, a democrata Abigail Spanberger lidera sobre a republicana Winsome Earle-Sears, em eleição marcada pelos efeitos do shutdown federal e dos cortes orçamentários promovidos por Trump.
Em Nova Jersey, a democrata Mikie Sherrill e o republicano Jack Ciattarelli estão tecnicamente empatados, num estado onde o tema dominante é o custo de vida.
Na Califórnia, a chamada Proposição 50 deve ser aprovada pelos eleitores e autorizar o redesenho do mapa eleitoral do estado, alterando as fronteiras de cinco distritos que hoje elegem deputados republicanos para a Câmara dos Representantes.
A medida, proposta pelo governador Gavin Newsom e pelos democratas locais, busca corrigir o desequilíbrio político criado após o redesenho feito no Texas, ordenado por Donald Trump no início de seu segundo mandato.
Em 2025, o governo republicano texano modificou o mapa de votação de modo a transferir cinco cadeiras da oposição democrata para o Partido Republicano, reforçando o domínio conservador no Congresso.
A Proposição 50, portanto, é a resposta da Califórnia, o estado mais populoso e mais Democrata do país, para reverter o impacto do redesenho texano e abrir uma nova frente na disputa nacional por maioria legislativa.
Atualmente, a Câmara dos Representantes está dividida entre 219 republicanos e 213 democratas, o que torna cada assento decisivo para o controle político de Washington.
Caso a medida seja aprovada, a Califórnia poderá entregar cinco novas cadeiras aos democratas nas eleições legislativas de 2026, equilibrando temporariamente a correlação de forças no Congresso.
Analistas descrevem o conjunto das eleições como um ensaio para as legislativas de 2026, quando se renovará a Câmara dos Representantes.
Com 57% de desaprovação, Trump mantém o país dividido e enfrenta oposição crescente nas grandes cidades, mas o Partido Democrata ainda não consolidou uma alternativa nacional.
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