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Censura literária cresce nos EUA e atinge obras de García Márquez e Allende

Os Estados Unidos, que historicamente se apresentam como defensores da liberdade de expressão, atravessam um dos maiores surtos de censura literária das últimas décadas.

De acordo com a PEN America, entidade criada em 1922 e dedicada à defesa da literatura e da liberdade de imprensa, foram registrados mais de 23 mil casos de proibição de livros em escolas e bibliotecas públicas desde 2021, afetando aproximadamente 10 mil títulos.

As restrições ganharam força em estados governados por republicanos, como Flórida, Texas e Utah, onde novas leis permitem que grupos de pais e organizações religiosas solicitem a retirada de obras consideradas “inadequadas”.

Entre os títulos afetados estão Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, e O Olho Mais Azul, de Toni Morrison — livros que tratam de temas como sexualidade, racismo, ditadura e violência de gênero.

Para a PEN America, o fenômeno representa “um ataque coordenado à liberdade de ler e pensar”, com impacto direto sobre a educação pública e o acesso à cultura.

A nova onda de proibições não é um fato isolado. Ela reflete a disputa ideológica que tomou conta da política norte-americana e o avanço de movimentos ultraconservadores que buscam influenciar currículos escolares e padrões de comportamento social.

Nos últimos três anos, mais de 40 estados aprovaram ou discutiram projetos de lei que limitam o ensino de temas ligados a raça, gênero e direitos civis, sob o argumento de combater a “doutrinação”.

Em vários distritos escolares, professores passaram a retirar preventivamente livros de circulação para evitar processos judiciais ou demissões. O resultado é um ambiente de medo e autocensura que afeta o trabalho docente e o direito dos estudantes à informação.

Segundo o relatório mais recente da PEN America, as bibliotecas se tornaram “alvos centrais de campanhas de intimidação”, com funcionários recebendo ameaças pessoais por manter acervos com autores negros, indígenas ou LGBTQIA+.

Censura legal e pressão econômica

O atual modelo de censura nos Estados Unidos opera por dois caminhos.

O primeiro é legal, com leis estaduais que ampliam o controle sobre o conteúdo ensinado em escolas e restringem o trabalho de professores e bibliotecários.

O segundo é econômico, marcado pela pressão sobre editoras e plataformas digitais, que adotam filtros automáticos e autocensura para evitar boicotes.

Esse duplo mecanismo cria uma forma de repressão que dispensa o controle direto do Estado. A censura passa a ser difusa e institucionalizada, incorporada ao funcionamento de escolas, empresas e livrarias.

Para a pesquisadora norte-americana Deborah Caldwell-Stone, diretora da American Library Association, “o que está em curso é um esforço sistemático para limitar o acesso a ideias, especialmente aquelas que desafiam narrativas dominantes sobre raça, gênero e poder”.

Um sintoma da crise democrática

O avanço da censura literária é visto por analistas como parte de um quadro mais amplo de retração democrática nos EUA, marcado pela intolerância política e pela crescente influência de movimentos religiosos na educação.

Desde 2021, leis estaduais vêm sendo usadas para cercear professores, estudantes e instituições de ensino sob o pretexto de proteger “valores familiares”.

A repressão à literatura soma-se a outras iniciativas de controle cultural, como o bloqueio de exposições de arte contemporânea e a perseguição a cursos universitários de estudos étnicos e de gênero.

Para a PEN America, trata-se de “uma tentativa de moldar o pensamento público por meio da supressão do dissenso”.

A política de censura, portanto, não se restringe às estantes, mas revela a disputa por poder simbólico dentro da sociedade norte-americana.

O país que exporta a ideia de liberdade de expressão ao mundo agora debate se ainda é capaz de garanti-la internamente.

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