
Um espectro ronda o Chile. É o espectro de Jeannette Jara, ex-ministra do governo Gabriel Boric e candidata do Partido Comunista (PCCh) à Presidência da República. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada no último sábado (1º) aponta Jeannette na preferência do eleitorado chileno.
Com 33,2% das intenções de voto, ela lidera a disputa e, ao que tudo indica, já tem vaga garantida no segundo turno. Apoiada por Boric, Jeannette está à frente de uma coalizão de esquerda e centro-esquerda que quer aprofundar as reformas propostas pelo atual governo. É a primeira vez que o centenário Partido Comunista, fundado em 1922, tem chances reais de chegar ao Palácio de La Moneda.
Os chilenos vão às urnas no próximo dia 16 de novembro, domingo, data do primeiro turno da eleição. Já o segundo turno está previsto para 14 de dezembro. A disputa pela segunda vaga no turno final é acirrada, com um inédito empate quádruplo.
Os ultradireitistas José Antonio Kast, do Partido Republicano, e Johannes Kaiser, do Partido Nacional Libertário, têm, ambos, 16,8%. O racha na extrema direita em um país que já foi governado pelo ditador Augusto Pinochet dá margem para a ascensão de candidaturas conservadoras, mas menos radicais.
Franco Parisi, que se declara “antissistema”, mas é abertamente neoliberal, pontua com 14,2%, sendo seguido pela direitista Evelyn Matthei, que tem13,9%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, Kast, Kaiser, Parisi e Evelyn estão tecnicamente empatados.
A 15 dias para a eleição, nomes de direita e extrema direita tentam encontrar um discurso mais eleitoreiro para liderar a oposição. A taxa de indecisos é pequena (2,0%), e apenas 0,2% dos eleitores pretender votar em branco ou nulo. Com Jeannette e a esquerda consolidadas, a luta para ir ao segundo turno deve envolver troca de ataques entre os demais concorrentes.
O aparente favorito para desafiar Jeannette é Kaiser, que está em alta nas pesquisas, tendo passado de 9% em setembro para os atuais 16,8%. Kast, em sentido inverso, perde força a cada pesquisa. Ele chegou a marcar 26,5% em julho, mas começou a desidratar a partir dos levantamentos de agosto. Já são 9,7 pontos percentuais perdidos em quatro meses.
Curiosamente, os dois extremistas estavam juntos nas eleições de 2021, quando o Partido Republicano, fundado dois anos antes, lançou Kast e surpreendeu. O presidenciável terminou ligeiramente à frente de Boric no primeiro turno (27,91% a 25,83%), mas tomou a virada e foi vencido no turno final (44,13% a 55,87%). Desde então, Kaiser chegou a anunciar por duas vezes sua desfiliação do Republicado – até que, em 2024, fundou o Partido Nacional Libertário.
Outra curiosidade está no fato de que as duas mulheres na corrida presidencial foram ministras do Trabalho: Jeannette Jara ocupou o posto no governo Boric, e Evelyn Matthei, na gestão Sebastian Piñera. Em entrevista recente ao Opera Mundi, o sociólogo Alexis Cortés analisou que a candidata do Partido Comunista precisa “romper a bolha” para não ficar restrita ao voto tradicional da esquerda.
“Jara está estável na primeira posição – mas precisa dar um salto, romper a bolha do setor progressista. Para isso, ela dependerá de uma campanha que saiba falar e convencer esse eleitorado que nunca votou e que agora será obrigado a ir às urnas”, declarou Cortés.
A preocupação é relevante porque, com a tendência de união de todos os adversários contra Jeannette no segundo turno, o voto de eleitores independentes, não necessariamente vinculados a partidos ou ideologias, será decisivo. Defender os feitos da administração Boric é importante para garantir a continuidade do governo e evitar o risco de retrocesso. Mas demarcar melhor com a direita e a extrema direita se tornou inevitável.
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