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Zohran Mamdani vence em Nova York com discurso contra desigualdade e elites

Em um dia de derrotas para Donald Trump e o autoritarismo do movimento MAGA, Zohran Mamdani, 34, foi eleito nesta terça-feira (4) prefeito de Nova York, tornando-se o primeiro muçulmano e o mais jovem em mais de um século a governar a maior cidade dos Estados Unidos.

O deputado estadual, filho de imigrantes indianos nascido em Uganda, superou o ex-governador Andrew Cuomo, símbolo do establishment político nova-iorquino, e venceu com 50,4% dos votos, o equivalente a 1,03 milhão de eleitores, feito inédito desde a década de 1960.

Cuomo obteve 41,6%, cerca de 850 mil votos, enquanto o republicano Curtis Sliwa, apoiado por Trump, ficou distante, com 7%.

A eleição teve comparecimento recorde: mais de dois milhões de eleitores foram às urnas — o maior número em mais de 50 anos.

A vitória de Mamdani estremeceu tanto o autoritarismo trumpista quanto o liberalismo de Wall Street. Financiado por pequenas doações e apoiado por mais de cem mil voluntários, ele derrotou uma máquina eleitoral sustentada por US$ 40 milhões em contribuições de bilionários como Michael Bloomberg e Bill Ackman — quatro vezes mais do que sua própria arrecadação.

O resultado, comemorado em uma Nova York em festa, simboliza a ascensão de uma nova geração de esquerda nos Estados Unidos e a erosão do poder tradicional que há décadas define o destino político e econômico da cidade.

“Por gerações, os trabalhadores de Nova York ouviram dos ricos e poderosos que o poder não lhes pertence”, afirmou Mamdani durante o discurso da vitória, em um comitê lotado no Brooklyn.

“Esta noite, contra todas as probabilidades, nós o conquistamos. O futuro está em nossas mãos”, disse para um público extasiado.

O tom de Mamdani foi de ruptura. “Derrubamos uma dinastia política. Desejo a Andrew Cuomo apenas o melhor em sua vida privada. Mas que esta noite seja a última vez que pronuncio seu nome, enquanto viramos a página de uma política que abandona as maiorias e responde apenas a poucos.” 

Cuomo, que havia renunciado ao governo em 2021 após denúncias de assédio e corrupção, contou com o apoio de setores empresariais e culturais — entre eles Elon Musk e o cineasta Woody Allen, que declarou: “Ele será melhor para Nova York.” O presidente norte-americano, Donald Trump, também deu apoio a Cuomo.

O republicano Sliwa, ex-radialista e fundador do grupo Guardian Angels, foi pressionado até o último momento a abandonar a corrida e apoiar Cuomo, mas manteve sua candidatura.

A campanha do ex-governador foi marcada por ataques ao caráter e às convicções de Mamdani, descrito por ele como “radical” e “ingênuo”. O New York Post e veículos conservadores reforçaram acusações de antissemitismo, ecoando a retórica republicana de Trump, que pediu voto útil em Cuomo

O discurso do novo prefeito, no entanto, virou o jogo narrativo e consolidou seu protagonismo político. 

“Esta noite vocês deram um mandato pela mudança, um mandato por um novo tipo de política, um mandato por uma cidade que possamos pagar, e um mandato por um governo que entregue exatamente isso”, disse Mamdani. 

Ele dedicou a vitória à base que o sustentou desde as primárias — jovens, imigrantes, negros e latinos — e se dirigiu a eles em três línguas: inglês, árabe e espanhol.

“Falo dos donos de mercearias iemenitas e das avós mexicanas, dos taxistas senegaleses e das enfermeiras uzbeques… de Wesley, um organizador sindical que conheci em frente ao Hospital Elmhurst, que viaja duas horas por dia de ida e volta da Pensilvânia porque o aluguel é caro demais nesta cidade”, declarou.

Com uma plataforma voltada a reduzir o custo de vida, Mamdani prometeu enfrentar a crise habitacional com congelamento dos aluguéis, ampliação das creches públicas, transporte gratuito e taxação dos mais ricos. No discurso da vitória, ele afirmou:

“Central a essa visão estará a agenda mais ambiciosa para enfrentar a crise do custo de vida que esta cidade já viu — uma agenda que congelará os aluguéis de mais de 2 milhões de inquilinos com aluguel estabilizado”, disse.

O programa inclui também a criação de um Departamento de Segurança Comunitária, com o objetivo de redirecionar o atendimento de crises de saúde mental e situações de rua para equipes civis.

“Segurança e justiça andarão lado a lado enquanto trabalhamos com os policiais para reduzir o crime e criar um Departamento de Segurança Comunitária que enfrente as crises de saúde mental e de pessoas em situação de rua”, bradou.

No mesmo discurso, Mamdani reafirmou o pluralismo religioso e cultural que o levou à vitória.

“Vamos construir uma Prefeitura que permaneça firme ao lado dos nova-iorquinos judeus e que não vacile na luta contra o antissemitismo”, disse em sinalização as acusações que sofre de antissemetismo. “Nunca mais Nova York será um lugar onde se possa lucrar com a islamofobia e vencer uma eleição”, disse

Ele também atacou o discurso da elite financeira. “Como tantas vezes ocorreu, a classe bilionária procurou convencer aqueles que ganham 30 dólares por hora de que seus inimigos são os que ganham 20 dólares por hora. Querem que o povo lute entre si para que permaneçamos distraídos do trabalho de reconstruir um sistema antigo e quebrado”, criticou o novo prefeito.

A cena final foi de celebração coletiva. Sob uma música indiana, Mamdani agradeceu em coro com o público, que completava suas frases.

“Que as palavras que dissemos juntos, os sonhos que sonhamos juntos, se tornem a agenda que entregaremos. Juntos, Nova York, este poder é de vocês. Esta cidade pertence a vocês.”

A vitória dividiu o Partido Democrata. A ala progressista, liderada por Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, celebrou o resultado como “um novo ciclo para a esquerda americana”. 

O Partido Comunista dos EUA também saudou Mamdani, descrevendo-o como “um sintoma político de renovação e impaciência de base diante da velha política”. 

Já o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, e a senadora Kirsten Gillibrand evitaram declarações públicas de apoio, refletindo o desconforto do establishment com o avanço da ala socialista.

Cuomo admitiu a derrota poucas horas após a confirmação do resultado. Vaiado por parte de seus apoiadores ao mencionar o nome do novo prefeito, tentou interromper as manifestações. 

Donald Trump, por sua vez, reagiu com ataques. Em sua rede Truth Social, escreveu: “Qualquer judeu que vote em Zohran Mamdani, um comprovado e autoproclamado inimigo dos judeus, é uma pessoa estúpida!!!”. 

No ponto auge do discurso, o novo prefeito respondeu diretamente do palco: 

“Afinal, se há alguém que pode mostrar a uma nação traída por Donald Trump como derrotá-lo, é a cidade que lhe deu origem. […] Então, Donald Trump, já que sei que você está assistindo, tenho quatro palavras para você: aumente o volume [turn the volume up, em inglês]”, disse, liderando a plateia para um momento de explosão de gritos.

“Nova York continuará sendo uma cidade de imigrantes. Uma cidade construída por imigrantes, movida por imigrantes e, a partir desta noite, liderada por um imigrante”, completou, encerrando o discurso sob aplausos e bandeiras agitadas.

A vitória de Mamdani marca o início de uma nova etapa para a política nova-iorquina — e, possivelmente, um ponto de inflexão para a esquerda norte-americana.

Em seu discurso, o novo prefeito afirmou que “a era das desculpas acabou” e que a cidade “não será mais governada pelo medo, mas pela coragem de quem trabalha e vive aqui”.

Ao reivindicar o poder em nome dos imigrantes, trabalhadores e jovens que o elegeram, Mamdani não apenas rompeu com uma dinastia política, mas também com a lógica que por décadas associou Nova York ao domínio do capital financeiro.

No palco, enquanto bandeiras tremulavam e o público entoava seu nome, o novo prefeito resumiu o significado do momento:

“Se há uma cidade capaz de mostrar ao mundo que outro futuro é possível, essa cidade é Nova York.”

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