
“Agora, a Argentina é um farol na região”, avaliou o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, em entrevista à CNBC, em outubro, em meio às eleições legislativas argentinas.
Ao comentar a política externa norte-americana para a América Latina, Bessent criticou a gestão do ex-presidente Barack Obama (Partido Democrata) por, segundo ele, ter adotado uma postura excessivamente hesitante na região, o que teria aberto espaço para o avanço de governos que Washington considera adversários.
“Minha convicção é que o governo Obama perdeu uma oportunidade geracional durante seus oito anos”, reclamou o secretário do Tesouro.
“Muitos dos governos da região se moveram da extrema esquerda para o centro-direita. Nós não os apoiamos. E então eles deram uma guinada brusca de volta à esquerda. Existe agora a chance de muitos outros países seguirem esse caminho: Bolívia, Equador, eu acho que a Colômbia, depois das eleições”, afirmou.
As declarações do secretário de Bessent, dadas durante a eleição legislativa de meio de mandato na Argentina, ajudam a compreender como o governo de Donald Trump passou a intervir diretamente na dinâmica política latino-americana em nome de seus interesses comerciais e geopolíticos.
O objetivo da ofensiva é consolidar um eixo de governos alinhados a Washington, sustentado por apoio financeiro e respaldo político, no qual decisões soberanas passam a ser subordinadas a uma agenda externa executada pelas lideranças dos países dispostas a negociá-las.
As falas de Bessent funcionam como ponto de partida para compreender um conjunto mais amplo de iniciativas adotadas por Washington ao longo de 2025, que recolocam a América Latina no centro da estratégia geopolítica do segundo mandato de Donald Trump.
Este especial de fim de ano do Portal Vermelho investiga como os Estados Unidos passaram a combinar sanções, apoio financeiro condicionado, pressão diplomática e uso direto da força para reorganizar a América Latina sob sua influência — do respaldo eleitoral ao governo Milei ao cerco militar imposto à Venezuela.
Ao mesmo tempo, analisa como países como Brasil, México e Colômbia buscaram impor limites a essa ofensiva, recolocando soberania nacional e integração regional no centro da disputa política.
Um farol para Washington
“Mas, é do nosso interesse que a Argentina tenha sucesso?”, perguntou o repórter da CNBC ao secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent.
Bessent era questionado se a operação de swap cambial de US$ 20 bilhões para sustentar o peso argentino, anunciada dias antes pela Casa Branca, não contrariava a lógica de priorizar interesses domésticos, o “America first” (América Primeiro).
O swap cambial é um mecanismo pelo qual um país recebe dólares em troca de sua própria moeda, com o compromisso de recomprá-la posteriormente, acrescida de juros.
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Na prática, os Estados Unidos despejaram US$20 bilhões de dólares na economia argentina em meio a duas eleições importantes no país, em operação para aliviar pressões imediatas sobre o câmbio argentino.
“America First deveria incluir grandes ajudas a outro país? Parece que alguns americanos ricos têm interesses na Argentina — e que o presidente está ajudando essas pessoas. Isso faz sentido?”, insistiu o âncora da emissora.
A contratação do empréstimo, no entanto, cria uma dependência recorrente de dólares, já que a dívida precisa ser rolada ou quitada no futuro.
O anúncio do socorro financeiro ocorreu em um momento politicamente sensível. A Argentina atravessava um calendário eleitoral decisivo, com eleições legislativas em outubro.
No início do mês, a votação na província de Buenos Aires — distrito que concentra cerca de 40% do eleitorado nacional e funciona historicamente como termômetro do humor político-social — resultou em uma derrota expressiva da coalizão governista Liberdade Avança e de seus aliados do PRO, de Mauricio Macri, diante do peronismo.
A coincidência entre crise econômica e calendário eleitoral elevou a urgência da Casa Rosada e passou a preocupar também os credores internacionais, que já haviam comprometido bilhões de dólares com a sustentação da agenda ultraliberal do governo.
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Àquela altura, Milei já havia torrado cerca de US$ 34 bilhões em empréstimos contraídos junto ao Fundo Monetário Internacional e a organismos multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial, sem conseguir estabilizar o câmbio ou conter a fuga de capitais.
A pressão era tamanha que, na véspera da eleição, o ministro da Economia, Luis Caputo, disse que o resultado das urnas era mais decisivo para o futuro do país do que a eleição presidencial de 2027.

Para o dirigente sindical Hugo Godoy, secretário-geral da CTA (Central de Trabalhadores da Argentina) Autónoma, em entrevista ao Portal Vermelho, o peso eleitoral daquele momento também estava ligado ao esgotamento do modo de governar adotado por Milei desde a posse.
“Nos dois primeiros anos, Milei governou por decretos. E quando o Congresso aprovou leis com as quais não concordava, ele simplesmente as vetava”, afirmou.
Segundo ele, essa dinâmica reduziu a legitimidade democrática do Executivo e passou a ser questionada pelos próprios credores.
“Esse caráter dos dois primeiros anos de governo, que retirou ou reduziu a legitimidade democrática, foi um dos condicionantes e exigências feitas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo próprio governo dos Estados Unidos”, disse.
Articulação política explícita
À medida em que as eleições legislativas se aproximavam, o socorro financeiro anunciado por Washington passou a ser interpretado, na Argentina, como uma tentativa de atravessar o ciclo eleitoral com o câmbio artificialmente sustentado e a crise contida no curto prazo.
Depois da derrota eleitoral na província de Buenos Aires, a articulação deixou o terreno técnico e assumiu contornos políticos explícitos.
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Em 14 de outubro, a poucos dias das eleições nacionais para o Legislativo, Javier Milei viajou a Washington para se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em busca de respaldo político e da continuidade do apoio financeiro anunciado semanas antes.
Durante o encontro, Trump vinculou publicamente a manutenção da ajuda norte-americana ao desempenho eleitoral do aliado argentino.
“Se ele perder, não seremos generosos com a Argentina. Se ele não ganhar, vamos embora”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, em declaração registrada pela imprensa.
A fala transformou uma operação apresentada como mecanismo financeiro em instrumento direto de pressão política, ao condicionar o apoio econômico ao resultado das urnas.
Na Argentina, a declaração foi interpretada como ingerência externa no processo eleitoral e reacendeu o debate histórico sobre soberania em meio a crises econômicas e disputas decisivas.
Godoy acrescenta que Washington chegou a enviar operadores políticos para atuar diretamente sobre governadores e setores do Congresso, com o objetivo de ampliar o arco de apoio institucional ao ajuste.
Em 23 de outubro de 2025, a três dias das eleições legislativas, o presidente Javier Milei nomeou como chanceler Pablo Quirno, então secretário de Finanças e ex-executivo do banco norte-americano JP Morgan, em substituição a Gerardo Werthein.
Quirno trabalhou por 17 anos no JP Morgan e participou diretamente das negociações do governo Milei com credores internacionais, incluindo o Fundo Monetário Internacional (FMI) e autoridades dos Estados Unidos.
A escolha de Quirno consolidou uma orientação na qual a política externa passou a responder diretamente à estratégia econômica e financeira do governo.
Para o dirigente sindical argentino, o governo de Javier Milei passou a operar sob controle direto dos Estados Unidos e de seus interesses. “O JP Morgan incorporou ex-executivos não apenas no Banco Central e no ministério da Economia, mas também passou a influenciar o ministério das Relações Exteriores”, denunciou
“Há uma perda quase absoluta da soberania nacional para o manejo da economia, das relações exteriores e do próprio vínculo social”, destacou. Segundo Godoy, “o que se iniciou foi um processo acelerado de dependência colonial do nosso país”, completou.
A estratégia surtiu efeito e, em 26 de outubro de 2025, após semanas de chantagens econômicas e ingerência pública por parte de Washington, a coalizão liderada por Javier Milei venceu as eleições legislativas nacionais.
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A aliança entre A Liberdade Avança e o PRO saiu fortalecida das urnas, ampliou sua representação na Câmara dos Deputados e no Senado e assegurou ao governo as condições institucionais necessárias para aprofundar o programa econômico alinhado aos interesses dos Estados Unidos.
Para Hugo Godoy, o eleitorado argentino foi submetido a um processo de intimidação política às vésperas do pleito. Segundo ele, a ameaça explícita de retirada do apoio financeiro dos Estados Unidos funcionou como um fator de pressão sobre o voto.
“Houve uma ameaça pública de acelerar o caos caso Milei não triunfasse”, afirmou. “Isso levou setores da sociedade a se moverem pelo medo de uma crise ainda maior”, concluiu.
Dólares em ano eleitoral
Os empréstimos bilionários em dólares contraídos pelo governo de Javier Milei junto ao Fundo Monetário Internacional, ao Banco Interamericano de Desenvolvimento e ao governo dos Estados Unidos não se deram em condições de livre decisão soberana.
O acesso aos recursos foi condicionado à adoção de uma agenda de reformas econômicas que passou a orientar, de forma direta, as decisões centrais do Estado argentino.
“Já no acordo com o Fundo Monetário Internacional haviam sido estabelecidas quatro condições fundamentais: a desvalorização do peso e a liberalização cambial; a reforma trabalhista; a reforma previdenciária; e a continuidade do plano de déficit zero”, afirmou.
De acordo com o dirigente sindical, essas exigências não se limitaram a metas macroeconômicas, mas passaram a reorganizar o funcionamento do Estado argentino, subordinando orçamento, legislação e políticas públicas às demandas dos credores internacionais.
“O condicionamento absoluto a essas políticas fez com que o governo dos Estados Unidos assumisse o controle direto da Argentina”, disse.
Logo após a vitória eleitoral de outubro, o governo Javier Milei levou ao Congresso a proposta de reforma trabalhista, apresentada como parte central do pacote exigido pelos credores internacionais para a manutenção do apoio financeiro articulado por Washington.
Na avaliação de Hugo Godoy, trata-se de uma reforma desenhada para reordenar o mercado de trabalho a partir da facilitação das demissões e do esvaziamento de direitos historicamente consolidados.
“O objetivo fundamental dessa lei é acelerar e facilitar as demissões, reduzir, retirar, fazer desaparecer as indenizações patronais por demissão”, afirmou.
Mesmo sem a nova legislação em vigor, a Argentina já havia registrado, em 2025, cerca de 240 mil demissões de empregos formais — um indicador do impacto social da política econômica adotada desde o início do mandato.
Além de facilitar as demissões, a proposta avança sobre o próprio sistema de negociação coletiva construído ao longo das últimas décadas.
O texto incentiva a terceirização, amplia formas de contratação precária e autoriza o pagamento de salários fora dos acordos coletivos nacionais.
“Na prática, isso implica um ataque direto às convenções coletivas de trabalho, que deixam de ser um piso nacional para se converterem em um teto”, afirmou Godoy, ao apontar a abertura para negociações rebaixadas por empresa, setor ou região.
Outro eixo central da reforma é a restrição à organização sindical e ao exercício do direito de greve.
A proposta impõe autorização prévia das empresas para a realização de assembleias, dentro ou fora do local de trabalho, e amplia, a níveis de 50% e 75%, a obrigatoriedade de manutenção de serviços durante paralisações, sob a classificação de atividades “essenciais” ou “críticas”.
“Com isso, a liberdade e o direito de greve são reduzidos à sua mínima expressão e capacidade de incidência”, afirmou o dirigente sindical.
A reforma trabalhista ocupa um lugar central no arranjo de subordinação econômica e institucional imposto ao Estado argentino.
As exigências impostas pelos credores internacionais passaram a orientar não apenas a política fiscal e cambial, mas também o funcionamento do Congresso, a formulação do orçamento e a própria arquitetura das relações de trabalho no país.
Ao deslocar o eixo de proteção social, fragilizar as convenções coletivas e restringir a capacidade de organização sindical, o governo Milei avança na reorganização do mercado de trabalho em sintonia com os interesses do capital financeiro internacional.
Trata-se de um processo que combina ajuste fiscal permanente, redução do papel do Estado e compressão de direitos, criando as condições institucionais para a continuidade de um modelo baseado em endividamento externo e dependência estrutural.
Nesse quadro, a disputa em torno da reforma trabalhista ultrapassa o campo legislativo e assume caráter estratégico.
Ela expressa o ponto de contato entre o salvamento financeiro articulado por Washington, a agenda ultraliberal exigida pelos organismos internacionais e o esvaziamento progressivo da soberania argentina sobre suas decisões econômicas e sociais.
É também nesse terreno que se concentra a reação sindical e popular, diante da percepção de que o custo do ajuste recai, de forma sistemática, sobre os trabalhadores e os setores mais vulneráveis da sociedade.
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