Notícias

Opinião: Venezuela sob ataque

A Cobiça Imperialista e a Soberania da América Do Sul
Por Francisco Chagas*

O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela não é um fato isolado, nem pode ser explicado por discursos hipócritas sobre democracia ou direitos humanos. Trata-se de mais um capítulo da longa história de intervenções do imperialismo norte-americano na América Latina, movido por uma cobiça antiga e persistente: o controle das nossas riquezas naturais e a submissão política dos nossos povos.

A Venezuela é alvo porque detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo e porque insiste em preservar sua soberania frente aos interesses externos. Mas seria um grave erro imaginar que a ofensiva se limita ao território venezuelano. O que está em jogo é um projeto mais amplo de dominação da América do Sul, que inclui o controle de recursos estratégicos fundamentais para a economia e a tecnologia do século XXI.

Não é apenas a Amazônia que desperta o apetite imperialista, embora ela seja central. As chamadas terras raras — minerais essenciais para a indústria de alta tecnologia, transição energética, produção de semicondutores, equipamentos militares e inteligência artificial — tornaram-se peças-chave da disputa global entre as grandes potências. O Brasil e outros países sul-americanos concentram reservas estratégicas desses recursos, o que nos coloca no centro do tabuleiro geopolítico mundial.

Nesse contexto, a política externa dos Estados Unidos, especialmente sob a liderança de Donald Trump e das forças que ele representa, aposta abertamente em mudanças de regime na América do Sul. Governos que não se submetem, que não aceitam o papel de satélites ou “fantoches”, passam a ser tratados como inimigos. Sanções, bloqueios econômicos, desestabilização política e, em última instância, agressões diretas tornam-se instrumentos recorrentes dessa estratégia.

A Venezuela sofre hoje aquilo que outros países da região já conheceram no passado — do Chile de Allende à Nicarágua, de Cuba ao Brasil de 1964. O objetivo é sempre o mesmo: impedir projetos nacionais soberanos, destruir experiências de integração regional e garantir acesso privilegiado às riquezas naturais e aos mercados locais.

É nesse cenário que o Brasil assume um papel central. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa um obstáculo concreto à política imperialista dos Estados Unidos na região. Sua defesa do multilateralismo, da integração latino-americana, do fortalecimento dos BRICS e de relações soberanas com a China e outros países do Sul Global contraria frontalmente os interesses de Washington. Não poracaso, o Brasil volta a ser observado com desconfiança pelos setores mais agressivos da política externa norte-americana.

O ataque à Venezuela é, portanto, um recado para toda a América do Sul. É uma tentativa de impor pelo medo aquilo que já não conseguem impor pelo consenso. Aceitar esse ataque em silêncio é abrir caminho para novas intervenções, novas tutelas e novas perdas de soberania. Defender a Venezuela não é defender um governo específico, mas afirmar um princípio fundamental: o direito dos povos à autodeterminação, ao controle de suas riquezas e à escolha soberana de seus caminhos políticos e econômicos. Esse princípio está inscrito na Constituição brasileira e na Carta das Nações Unidas, e não pode ser relativizado conforme a conveniência das grandes potências.

A história ensina que, quando a América Latina se cala diante da agressão a um de seus países, todos acabam pagando o preço. A soberania não se negocia. Ou se defende coletivamente, ou será arrancada pedaço por pedaço.

*Francisco Chagas é cientista social – vice-presidente do PT paulista – foi vereador e deputado federal

Siga o autor no Instagram