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Colonização israelense seca nascentes e expulsa palestinos da Cisjordânia

Na Cisjordânia ocupada, a água — fonte histórica de vida e sustento — tornou-se instrumento de dominação. Em al-Auja, uma das mais antigas bacias hidrográficas da Palestina, famílias palestinas relatam que assentamentos israelenses cercaram nascentes, instalaram bombas e secaram os canais que abasteciam a comunidade há gerações, aprofundando uma crise estrutural descrita por especialistas como “apartheid hídrico”.

A desigualdade no acesso é mensurável. Jad Isaac, diretor do Instituto de Pesquisa Aplicada de Jerusalém (ARIJ), afirma que um colono israelense consome cerca de sete vezes mais água do que um palestino. Enquanto a cota palestina não ultrapassa 80 litros por pessoa/dia, em comunidades marginalizadas ela cai para menos de 15 litros — muito abaixo da recomendação mínima global de 100 litros.

Nascente cercada, canos secos

A nascente de al-Auja jorra há séculos no Vale do Jordão. Hoje, um assentamento israelense se interpõe entre os moradores e a água. Segundo relatos locais, colonos cercaram a área e passaram a extrair diretamente do aquífero, inclusive a centenas de metros abaixo da nascente.

Do alto, a assimetria é visível: imagens aéreas mostram estufas palestinas murchas ao lado de assentamentos agrícolas verdes e irrigados, abastecidos por água confiscada.

A “armadilha de Oslo”

Com fontes bloqueadas ou tomadas, os palestinos foram empurrados para uma dependência estrutural. Isaac descreve os Acordos de Oslo como uma “armadilha”: Israel recusou negociar direitos hídricos e impôs que necessidades palestinas sejam submetidas à aprovação israelense — que, então, vende a água de volta.

A Autoridade Palestina compra mais de 100 milhões de metros cúbicos por ano de empresas israelenses, efetivamente recomprando seus próprios recursos. Ordens militares consolidaram o controle total das fontes e novas barreiras — como o chamado “muro carmesim” no norte do Vale do Jordão — ampliam a separação entre comunidades e terras agrícolas.

Organizações de direitos humanos alertam que a escassez induzida funciona como pressão para expulsão silenciosa. Dados do ARIJ indicam que mais de 56 nascentes na Cisjordânia sofreram ataques ou ocupações por colonos.
“A apreensão das nascentes indica a passagem do controle de recursos para a coerção direta sobre a população”, diz Isaac. O resultado é migração forçada e desmantelamento de comunidades rurais — um “deslocamento lento”.

Endosso governamental e desmonte da infraestrutura

A apropriação hídrica conta com respaldo político. Em vídeo que circula nas redes, o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, elogia colonos por retomarem “o controle” de poços e áreas. Enquanto isso, obras palestinas são barradas: barragens de captação de chuva são proibidas, cisternas demolidas e, com o muro de separação, ao menos 31 poços artesianos ficaram isolados.

Estudos apontam que o controle hídrico é central à colonização. A Lei da Água de 1959 declarou todos os recursos como propriedade pública do Estado israelense, consolidando uma gestão centralizada que prioriza assentamentos, especialmente em regiões áridas, e exclui palestinos — incluindo comunidades beduínas. A retórica de “fazer o deserto florescer” sustentou megaprojetos de desvio, não para sustentabilidade, mas para fixação de colonos e reforço de fronteiras.

Escassez fabricada, crise alimentar e de saúde

A restrição à água compromete a soberania alimentar e a saúde. Sem irrigação e pastagem, famílias dependem de alimentos ultraprocessados; entre beduínos urbanizados, a incidência de diabetes disparou, fenômeno raro até meados do século XX. A escassez, frequentemente apresentada como natural, é produzida pela apropriação desigual.

Pesquisadores concluem que a crise não decorre de “hábitos”, mas da desapropriação de terra e água. A justiça hídrica é inseparável da descolonização: sem acesso equitativo aos recursos naturais, não há saúde pública, segurança alimentar nem direitos humanos. A experiência da Cisjordânia serve de alerta global: quando a água vira commodity e instrumento de poder, populações locais pagam o preço mais alto.

Com informações da Aljazira

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