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Mono González: muralismo, memória e generosidade em Santiago

Era um sábado quente quando pegamos o transporte rumo ao bairro Franklin, em Santiago. Estávamos ansiosos. Iríamos visitar Alejandro “Mono” González, recém-consagrado com o Prêmio Nacional de Artes Visuais do Chile, um dos mais importantes reconhecimentos culturais do país. A visita integrava a cobertura especial do Portal Vermelho no Chile, realizada no âmbito do projeto audiovisual Caminhos da Revolução, que percorre territórios, espaços de memória e experiências culturais ligadas às lutas populares na América Latina e na Europa.

O bairro Franklin carrega uma história profundamente ligada ao mundo do trabalho e da cultura popular chilena. Formado a partir do antigo Matadouro Público, no início do século XX, o território se transformou ao longo do tempo em um dos maiores polos de comércio popular de Santiago. É ali que se consolidou o Persa Bío-Bío, uma imensa feira que pulsa principalmente aos fins de semana, reunindo roupas, livros, discos, comidas, antiguidades, arte e encontros improváveis. Um espaço onde a cidade se reconhece fora dos circuitos formais e onde a vida acontece sem filtros.

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O carro não conseguiu nos deixar na porta. Descemos dois quarteirões antes e seguimos a pé. As ruas ao redor estavam completamente tomadas por barracas de roupas, comidas, hortifruti e antiguidades. O fluxo de pessoas era intenso, misturando moradores, trabalhadores, turistas e curiosos. Entre cores, cheiros e vozes, a feira se apresentava como um organismo vivo. Era impossível não perceber que aquele cenário dialogava profundamente com a obra e a trajetória de Mono González.

Diferente das galerias sofisticadas e ateliês fechados de muitos artistas consagrados, chegamos a um galpão simples. De um lado e de outro do corredor, caixas e expositores ainda estavam vazios, portas metálicas fechadas, como se o dia estivesse apenas começando. Foi então que vimos um senhor de cabelos e bigode brancos, camiseta surrada e sandálias, trancando uma porta e, logo em seguida, começando sozinho a pendurar obras, quadros e livros. Sem alarde, sem cerimônia. Era Alejandro “Mono” González. Um dos poucos a quem podemos nos referir, sem exagero, como um gênio.

Alejandro “Mono” González

Nos apresentamos, e ele, com simpatia imediata, bom humor e uma simplicidade desarmante, nos recebeu e pediu que aguardássemos cerca de meia hora. Precisava arrumar o espaço, organizar as obras, preparar a galeria. Afinal, era dali que vivia, da venda daquelas maravilhas que, entre quadros, gravuras e livros, carregavam décadas de história, luta e criação coletiva. Dissemos que não havia problema e perguntamos se poderíamos conversar enquanto ele iniciava os trabalhos.

Abre gavetas, sobe escadas, pendura pôsteres. A conversa transcorre tranquila durante todo o tempo de arrumação. Nesse intervalo, chega um assistente para ajudá-lo e, pouco depois, seu filho, também artista plástico. O espaço ganha ainda mais vida, funcionando ao mesmo tempo como ateliê, galeria, oficina e lugar de encontro.

Os primeiros clientes começam a chegar. Mono recebe cada um com atenção, conversa, cumprimenta, explica as obras, ri, provoca, atende a todos com o maior bom humor do mundo. Assim, entre chegadas e despedidas, conversamos por quase duas horas, sem perceber o tempo passar. Não havia ali nenhuma separação entre arte e vida. Tudo acontecia junto, misturado, como sempre foi no muralismo popular.

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Tivemos ainda a sorte de, naquele sábado, Mono estar inaugurando um grande mural em tecido, realizado em parceria com os artistas da Malfatti Têxtil, coletivo que desenvolve um trabalho belíssimo com lã tingida. A obra, marcada por força simbólica e estética popular, tem como destino a Biblioteca Nacional do Chile, reafirmando o compromisso do artista em levar a arte e a memória para espaços públicos e acessíveis. A ocasião também nos permitiu conhecer os artistas envolvidos, ampliando ainda mais o sentido coletivo daquele encontro.

Ao longo da conversa, Mono revisita sua trajetória sem qualquer artificialismo. Fala da campanha de Salvador Allende, da criação da Brigada Ramona Parra, da urgência de ocupar o espaço público com imagens diretas, acessíveis, capazes de dialogar com quem passa. Para ele, o muralismo sempre foi mais do que estética: foi comunicação popular, pedagogia política e disputa de narrativa.

Tiago Alves e Mono Gonzalez

A ditadura aparece inevitavelmente como ruptura, mas também como período de resistência silenciosa e reinvenção. Mono fala da clandestinidade, do trabalho como cenógrafo, da arte como abrigo e ferramenta de sobrevivência. A memória, em sua fala e em sua prática, não é passado congelado, mas matéria viva, que precisa ser permanentemente ativada para que a história não seja apagada, distorcida ou banalizada.

Quando o assunto é o presente, ele conecta o muralismo às linguagens contemporâneas, como o graffiti e as artes urbanas, entendendo tudo como parte de uma mesma genealogia: a ocupação do espaço público como gesto político. Para Mono, a arte que não dialoga com o seu tempo corre o risco de se tornar apenas ornamento.

Se pudéssemos definir o encontro em uma única palavra, seria generosidade. Impressiona perceber como um artista tão completo escolhe levar a vida dessa forma, distante das grandes galerias chiques e sem qualquer traço de pose ou vaidade. Mono González é a síntese rara de enorme capacidade artística, profundo engajamento político e uma simplicidade que não se encena, apenas se vive.

Ao sair do Persa Bío-Bío, entre o barulho da feira e o vai e vem das pessoas, ficou claro que aquele encontro dizia muito mais do que uma entrevista. No contexto da cobertura especial do Portal Vermelho e do projeto Caminhos da Revolução, a visita ao ateliê de Mono González reafirma que a arte, quando enraizada no povo e na memória, segue sendo uma poderosa ferramenta de resistência, identidade e transformação social.

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