
Após mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia caminha para sua conclusão. Com apoio da Alemanha, Espanha e, decisivamente, da Itália — que obteve concessões como acesso antecipado a um fundo de €45 bilhões até 2028 —, o pacto já superou a barreira da maioria qualificada no Conselho Europeu. Embora ainda precise da ratificação do Parlamento Europeu e enfrente resistência de setores agrícolas e parlamentares críticos (como na França, onde a oposição tenta derrubar Macron por causa do tratado), o entendimento entre diplomatas é claro: o acordo está prestes a ser assinado.
Trata-se de um bloco econômico sem precedentes: 722 milhões de consumidores, cadeias produtivas integradas e acesso mútuo a mercados estratégicos. Para muitos países europeus, é uma vitória geopolítica e econômica. Mas para o Reino Unido, que deixou a UE em 2020, é também um lembrete doloroso do que perdeu ao escolher o isolamento.
Oportunidades perdidas
Os acordos comerciais foram um elemento crucial do debate sobre o Brexit mesmo antes do referendo de 2016. O governo Cameron observou que 44% das exportações britânicas eram destinadas à UE, enquanto os acordos comerciais do bloco cobriam outros 12%.
Uma análise do Financial Times (em 2017) constatou que havia mais de 750 tratados da UE que tinham relevância para a Grã-Bretanha e que, após o Brexit, seriam “perdidos” – 295 dos quais eram acordos comerciais. Além disso, o Reino Unido tem feito mais concessões em acordos com países importantes como EUA, Austrália e Índia do que gostaria.
O Reino Unido tem demonstrado forte interesse em negociar um acordo de livre comércio bilateral direto com o Mercosul. Fontes oficiais indicam que o país se prepara para iniciar conversas formais ainda em 2026, buscando termos até mais amplos que o acordo da UE. Enquanto isso, exportadores britânicos continuam enfrentando tarifas (como 28% sobre queijos) que concorrentes europeus verão reduzidas gradualmente no comércio para a América do Sul.
A urgência britânica por um acordo com o Mercosul aumentou em resposta às mudanças no cenário global, como a política de tarifas dos EUA sob a administração Trump, o que leva o Reino Unido a buscar diversificação de parceiros comerciais.
Brexit: promessa irrealizável, realidade amarga
O Brexit foi vendido aos britânicos com a promessa de soberania total e acordos comerciais globais “mais vantajosos” do que os permitidos pela UE. Na prática, quase seis anos depois (completos em 31 de janeiro), o balanço é desolador. O Reino Unido tem o pior desempenho econômico entre as sete maiores economias do mundo (G7). Seus acordos comerciais pós-Brexit são limitados: com os EUA, há apenas uma modesta redução tarifária; com a China, um pacto simbólico. Enquanto isso, cerca de 45% de suas exportações ainda dependem da União Europeia — seu principal parceiro, agora sob regras mais rígidas e burocráticas.
Venderam um Brexit impossível e entregaram um que ninguém quer. Nem os defensores mais fervorosos da saída reconhecem no atual regime o “Global Britain” prometido. E os que votaram contra o Brexit veem confirmadas suas piores previsões: menor crescimento, escassez de mão de obra, custos logísticos elevados e perda de influência internacional.
A economia do Reino Unido foi atingida com aumento de 25% nos preços dos alimentos – uma consequência das barreiras comerciais extras de deixar o Mercado Único. Além disso, pesquisadores do Centro de Reforma Europeia estimam que o investimento empresarial foi 23% menor do que teria sido devido ao Brexit.
Arrependimento generalizado nas ruas e nas pesquisas
Pesquisas recentes revelam um sentimento crescente de arrependimento entre os britânicos. Segundo levantamentos do YouGov e do British Social Attitudes Survey, mais de 60% da população hoje considera o Brexit um erro — um aumento significativo em relação aos anos imediatamente posteriores ao referendo de 2016. Esse sentimento é especialmente forte entre jovens, trabalhadores urbanos e regiões economicamente afetadas pela nova barreira comercial com a Europa.
Embora não haja movimento formal para retornar à UE, a pressão por reaproximação é palpável. O atual primeiro-ministro, Keir Starmer — nome representativo da virada pragmática da política britânica — busca negociar “corredores facilitados” para produtos britânicos entrarem no mercado único, especialmente em setores como alimentos, energia e tecnologia. Contudo, Bruxelas impõe limites claros: sem adesão às regras comuns, não há acesso pleno.
Por outro lado, uma série de decisões cooperativas dentro da comunidade europeia, desde a pandemia até a guerra da Ucrânia, não teriam sido possíveis com a influência do Reino Unido no bloco. Além disso, o padrão de expansão do bloco rumo aos Balcãs Ocidentais, Ucrânia, Moldávia e além, não permitiria a reentrada dos britânicos nos termos em que participavam anteriormente, podendo manter sua moeda soberana entre outras demandas de autonomia.
Soberania ou relevância? A encruzilhada britânica
O caso britânico ilustra um dilema contemporâneo: em um mundo de blocos regionais cada vez mais integrados, a soberania unilateral pode significar irrelevância estratégica. Enquanto a UE avança em acordos ambiciosos — com Mercosul, mas também com Índia, México e Asean —, o Reino Unido luta para manter sua posição em cadeias globais de valor.
A ironia é cruel: ao buscar liberdade para fechar acordos, o país ficou preso em negociações bilaterais de baixo impacto, enquanto seus ex-parceiros europeus constroem um dos maiores mercados integrados do planeta. Diante disso, o arrependimento não é apenas emocional — é econômico, político e histórico.
Se o Brexit foi o maior ato de autodeterminação nacional do século XXI, também pode se tornar seu maior equívoco geopolítico. E, como diz o ditado britânico: “You don’t know what you’ve got till it’s gone.” O equivalente em português a: “A gente só dá valor quando perde” ou “Se arrependimento matasse…”.
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