
A mais recente edição do CWTS Leiden Ranking, elaborada pelo Centro de Estudos de Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, marca uma inflexão histórica no sistema global de ciência. Pela primeira vez, universidades chinesas ocupam as duas primeiras posições do ranking, superando a tradicional hegemonia das instituições dos Estados Unidos. A Universidade de Zhejiang lidera a lista, seguida pela Shanghai Jiao Tong, enquanto a Universidade de Harvard aparece apenas na terceira colocação.
A transformação é fruto de decisões políticas diametralmente opostas. Enquanto Pequim fez da ciência um pilar central de seu projeto nacional, Washington submeteu sua academia a cortes orçamentários, instabilidade política e desinvestimento estratégico.
Domínio chinês no top 10
A liderança chinesa não se limita às primeiras posições. Das dez universidades mais bem colocadas, sete são da China: além de Zhejiang e Shanghai Jiao Tong, aparecem Pequim, Fudan, Tsinghua, Universidade de Ciência e Tecnologia da China (Hefei) e Nanjing, ocupando do quarto ao oitavo lugar. Os Estados Unidos figuram apenas nas posições finais do top 10, com o MIT e a Universidade da Califórnia em Berkeley. Das 25 escolas mais bem posicionadas, 19 são chinesas e apenas três são norte-americanas.
A China não apenas aumentou seus investimentos em pesquisa — que cresceram mais de 10% ao ano na última década —, mas articulou universidades, indústria e Estado em torno de prioridades nacionais. Criou programas de atração de talentos internacionais, ofereceu financiamento maciço a áreas estratégicas (como inteligência artificial, computação quântica e biotecnologia) e simplificou burocracias para acelerar publicações científicas de alto impacto.
O resultado? Um salto exponencial na produção e no impacto de seus artigos indexados na Web of Science — a única métrica usada pelo Leiden Ranking. “A quantidade e a qualidade dos artigos científicos da China são excepcionais e superam as dos EUA”, reconheceu Rafael Reif, ex-presidente do MIT. Para Pequim, ciência não é só conhecimento: é poder, segurança e projeção global.
Da hegemonia americana à ascensão chinesa
Quando o primeiro Leiden Ranking foi publicado, cobrindo o período de 2006 a 2009, o cenário era outro. Universidades dos Estados Unidos dominavam amplamente o topo, com Harvard em primeiro lugar, seguida por Toronto e Michigan. Hoje, seis universidades americanas que figuravam entre as dez melhores naquele período já não estão sequer entre as quinze primeiras. Harvard, que liderou o ranking por mais de uma década, começou a ser superada por Zhejiang entre 2019 e 2022 e voltou a cair para o terceiro lugar nos ciclos seguintes.
Os EUA fizeram o caminho inverso da China. Apesar de ainda produzir pesquisas de alto nível, o sistema universitário enfrenta um declínio relativo provocado por escolhas políticas claras. Desde os anos 2000, sucessivos governos reduziram o financiamento federal à pesquisa básica, especialmente após a crise de 2008 e com intensificação durante a administração Trump. Cortes afetaram agências como a NSF (National Science Foundation) e os NIH (National Institutes of Health), forçando universidades a depender cada vez mais de financiamento privado, doações voláteis e parcerias corporativas — o que distorce agendas científicas em favor de resultados imediatos e lucrativos.
Como observou o The New York Times, “embora as políticas de Trump não tenham desencadeado diretamente o declínio, elas o aceleraram”.
O que o Leiden Ranking mede — e o que deixa de fora
Diferentemente de rankings que combinam reputação, percepção de empregadores ou internacionalização formal, o Leiden Ranking baseia-se exclusivamente na produção científica: artigos e reviews indexados na Web of Science, impacto de citações e colaboração internacional.
Não avalia prestígio simbólico, prêmios individuais ou qualidade do ensino. Não leva em conta reputação, prêmios Nobel ou percepção de empregadores — critérios que ainda mantêm Harvard e Oxford no topo de outros rankings. Por isso, é considerado relativamente imune a variáveis mercadológicas e mais sensível à eficiência sistêmica da pesquisa científica.
O ranking Linden funciona como um termômetro da capacidade produtiva real de um sistema científico. E nesse campo, os EUA perderam terreno não por falta de brilho individual, mas por ausência de estratégia coletiva. Enquanto a China opera com coordenação de longo prazo, os EUA oscilam conforme o ciclo eleitoral, alternando entre retóricas de inovação e ataques à “ciência esquerdista” — especialmente em áreas como clima, saúde pública e justiça social.
A leitura política dos dados é inevitável, segundo reportagem do próprio New York Times. O modelo chinês articula universidades, política industrial e financiamento público de longo prazo, transformando ciência em instrumento estratégico de soberania nacional. A produção científica cresce em volume e impacto em ritmo muito superior ao das universidades norte-americanas, como reconhecem analistas internacionais e dirigentes acadêmicos, a exemplo do ex-presidente do MIT, Rafael Reif. Eficiência, nesse contexto, resulta de coordenação, escala e persistência.
Brasil: excelência isolada em um sistema fragmentado
No cenário global, o Brasil aparece de forma ambígua. A Universidade de São Paulo (USP) ocupa a 17ª posição mundial, figurando entre as poucas instituições não chinesas no top 20. Em seguida, Unesp e Unicamp surgem muito mais abaixo, e as universidades federais (UFRS, UFRJ e UFMG) aparecem apenas a partir da 255ª colocação. O destaque da USP não reflete um sistema nacional integrado, mas uma exceção sustentada por décadas de investimento e massa crítica concentrada.
A comparação internacional é contundente. Enquanto a União Europeia construiu um ecossistema científico integrado em escala continental, regiões como o Mercosul permanecem presas à lógica da exceção heroica e da vulnerabilidade a ciclos políticos curtos. O resultado não é apenas uma posição modesta em rankings, mas uma dependência estrutural: quem não produz ciência em escala importa tecnologia, narrativas e futuro.
Conhecimento como condição do desenvolvimento
A virada chinesa simboliza uma mudança de paradigma. O conhecimento deixou de ser consequência do desenvolvimento para se tornar sua condição prévia. Quem organiza ciência em escala organiza o futuro. Os dados do Leiden Ranking não são neutros: revelam uma assimetria silenciosa em consolidação.
A lição do Leiden Ranking 2025 é inequívoca: em um mundo onde o futuro se decide nos laboratórios, quem trata a ciência como gasto — e não como investimento estratégico — aceita, por antecipação, um papel subordinado na nova ordem mundial. Ignorar essa assimetria é aceitar, por antecipação, um lugar subordinado na ordem científica e tecnológica que já está em formação.
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