Notícias

Índia e UE anunciam acordo histórico em reação à guerra tarifária de Trump

Índia e União Europeia anunciaram nesta terça-feira (27) a conclusão de um acordo histórico de livre-comércio que conectará quase dois bilhões de consumidores, reduzirá tarifas sobre mais de 90% dos bens europeus e ampliará o acesso de empresas da UE ao mercado indiano.

O entendimento é interpretado por autoridades e analistas como uma resposta direta ao avanço do protecionismo dos Estados Unidos sob o governo Donald Trump, em meio à reorganização das alianças comerciais globais.

“Europa e Índia estão fazendo história hoje. Este é apenas o começo”, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao anunciar o acordo.

Para o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, o acordo “trará grandes oportunidades para os 1,4 bilhão de habitantes da Índia e para os milhões de pessoas na Europa”.

Pelo acordo, a União Europeia eliminará ou reduzirá tarifas sobre cerca de 99,5% dos produtos importados da Índia ao longo de um período de até sete anos, enquanto Nova Délhi se comprometeu a cortar tarifas sobre mais de 90% dos bens europeus, segundo dados divulgados pelas duas partes. 

A UE estima que a medida resulte em uma economia anual de cerca de 4 bilhões de euros em tarifas para empresas do bloco.

Um dos principais pontos do entendimento é a abertura gradual do mercado indiano a produtos industriais europeus. 

As tarifas sobre automóveis fabricados na UE, hoje de até 110%, serão reduzidas progressivamente até 10%, com aplicação a uma cota anual de até 250 mil veículos. A medida deve beneficiar montadoras como Volkswagen, Renault, Mercedes-Benz e BMW.

O acordo também prevê a redução ou eliminação de tarifas sobre máquinas, equipamentos elétricos, produtos químicos, farmacêuticos, ferro e aço exportados pela União Europeia. No caso de bebidas alcoólicas, a Índia reduzirá imediatamente as tarifas sobre vinhos de 150% para 75%, com cortes adicionais previstos ao longo dos próximos anos.

Do lado indiano, a União Europeia se comprometeu a zerar tarifas sobre produtos como pescados, têxteis, couro, borracha, metais básicos, produtos químicos e joias, ampliando o acesso de setores intensivos em mão de obra ao mercado europeu. 

Produtos agrícolas sensíveis, como arroz, açúcar, soja, carne bovina e laticínios, ficaram fora do acordo.

A assinatura formal do tratado ocorrerá após um processo de revisão jurídica que deve durar entre cinco e seis meses. Segundo autoridades dos dois lados, a expectativa é que o acordo entre em vigor dentro de um ano, embora o texto ainda possa enfrentar resistência política no Parlamento Europeu, como ocorreu recentemente com o acordo entre a UE e o Mercosul.

O acordo entre Índia e União Europeia faz parte de um movimento de ambos os lados para ampliar acordos comerciais e reduzir a exposição à instabilidade provocada pela política tarifária do presidente Donald Trump.

Desde o retorno do republicano à Casa Branca, os Estados Unidos voltaram a impor ou ameaçar tarifas elevadas contra parceiros estratégicos, atingindo tanto economias emergentes quanto aliados históricos da Europa.

No caso europeu, a ofensiva tarifária de Washington — que inclui ameaças contra países que resistiram à tentativa de Trump de anexar a Groenlândia e pressões sobre aliados comerciais — levou Bruxelas a acelerar negociações e concluir acordos considerados prioritários. 

Além do pacto com a Índia, a União Europeia firmou recentemente um acordo com o Mercosul e avançou em tratados com países do Sudeste Asiático, em um esforço para se afirmar como polo comercial estável em um cenário de fragmentação das regras globais.

A Índia, por sua vez, foi diretamente atingida pela escalada protecionista dos EUA, que impuseram tarifas de até 50% sobre produtos indianos e sanções comerciais relacionadas à compra de petróleo e gás da Rússia. 

O acordo com a UE surge, nesse contexto, como parte de uma política deliberada de diversificação de mercados e de redução da dependência do comércio com os Estados Unidos.

Analistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que o entendimento entre Bruxelas e Nova Délhi tem peso simbólico em um momento de enfraquecimento do sistema multilateral de comércio e de paralisia da Organização Mundial do Comércio (OMC). 

Ao aprofundar laços entre duas grandes economias fora do eixo Washington-Pequim, o acordo sinaliza uma resposta coordenada de potências médias à guerra tarifária e à imprevisibilidade da política comercial norte-americana.

O post Índia e UE anunciam acordo histórico em reação à guerra tarifária de Trump apareceu primeiro em Vermelho.