
A coligação liderada pela primeira-ministra Sanae Takaichi venceu neste domingo (8) as eleições gerais no Japão e assegurou 350 das 465 cadeiras da Câmara dos Representantes, garantindo maioria qualificada de dois terços no Parlamento.
O resultado fortalece o governo de direita em um momento de tensão crescente no Leste Asiático, especialmente na relação com a China.
O bloco governista é encabeçado pelo Partido Liberal Democrata (LDP), legenda conservadora que domina a política japonesa no pós-guerra. Com a supermaioria, a coalizão obtém margem para aprovar mudanças que exigem quórum elevado, entre elas a abertura formal de um processo de revisão constitucional.
O foco de tensão recai sobre o Artigo 9º, dispositivo que limita o uso das Forças Armadas a funções estritamente defensivas. Embora qualquer alteração ainda dependa de referendo, o novo desenho parlamentar remove o principal obstáculo legislativo.
Em novembro de 2025, Takaichi abriu a maior crise diplomática recente entre Japão e China ao afirmar, no Parlamento japonês, que um eventual ataque chinês a Taiwan poderia configurar uma “ameaça existencial” ao Japão — enquadramento que permitiria ao país exercer o direito de autodefesa coletiva.
Para Pequim, a posição da primeira-ministra sinalizou a possibilidade de envolvimento militar japonês em um conflito no Estreito de Taiwan e representou ingerência em um tema que o governo chinês classifica como assunto interno,
Durante a campanha, Takaichi defendeu o aumento do orçamento de defesa, a ampliação das capacidades de dissuasão e o aprofundamento da coordenação estratégica com os Estados Unidos.
A agenda é apresentada pelo governo como resposta à instabilidade regional e ao ambiente de competição estratégica no Indo-Pacífico.
China reage e cobra retratação por declarações sobre Taiwan
A reação de Pequim foi imediata após a confirmação da vitória governista. Em coletiva nesta segunda-feira (9), o porta-voz do ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, voltou a exigir que Tóquio retire as “declarações equivocadas” feitas por Takaichi sobre Taiwan e adote “ações concretas” para preservar a base política das relações bilaterais.
Segundo Lin, a eleição é um assunto interno do Japão, mas refletiu “questões estruturais e tendências ideológicas” que merecem atenção da comunidade internacional.
O porta-voz afirmou que o governo japonês deve seguir o caminho do desenvolvimento pacífico, respeitar os quatro documentos políticos firmados entre China e Japão e não “retornar ao militarismo”.
Pequim reiterou que a posição da primeira-ministra sobre Taiwan viola compromissos assumidos por Tóquio e interfere nos “interesses centrais” chineses.
A mensagem, segundo o porta-voz, é “muito clara”: a China está determinada a defender sua soberania, a ordem internacional do pós-guerra e a reagir a qualquer provocação ou comportamento que considere imprudente.
O governo chinês também advertiu que forças da direita japonesa que “calcularem mal” o cenário poderão enfrentar resistência interna e reação da comunidade internacional. A tensão ocorre em um ano simbólico — 80 anos do início dos julgamentos de Tóquio — que, segundo Pequim, exige do Japão reflexão sobre seu passado militarista.
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