As ruas da América Latina são transformadas em telas vivas de alegria popular nestes dias, com o início oficial dos dias centrais dos mais emblemáticos carnavais do continente, reunindo ancestralidade indígena, herança africana e expressões contemporâneas de resistência cultural.
Da Venezuela ao Brasil, passando pelo Uruguai, Chile, Bolívia e Argentina, milhões de pessoas participam de celebrações que transcendem o festivo para se tornarem atos de afirmação e identidade coletiva.
Em Los Teques, Estado de Miranda, na Venezuela, eles transbordaram cor e emoção com o desfile dos Carnais de Ecoturismo 2026. Ao ritmo da samba, 28 grupos e carros alegóricos percorreram a Avenida Bermúdez diante de milhares de participantes de todas as idades, que desfrutaram da tradicional festa do Rei Momo em um ambiente de fraternidade e união.
Os grupos apresentaram figurinos e coreografaram danças aludindo à conservação da fauna e flora da Venezuela, enquanto membros da Polícia de Miranda, Proteção Civil e Polícia de Guaicapuro garantiam a segurança dos presentes.
Apoio a Cuba no Uruguai
No Uruguai, o Desfile dos Chamados – espaço cultural que simboliza resistência e orgulho afrodescendente no “carnaval mais longo do mundo” – recebeu gritos de solidariedade com o povo cubano diante da crescente pressão dos EUA. A murga “Los Diablos Verdes”, caracterizada por seu humor, crítica e harmonia vocal, transformou sua apresentação em uma plataforma de apoio a Cuba diante de uma plateia de mais de 5.000 pessoas.
“Em nome da murga, queremos nos solidarizar com o povo cubano, diante da intensificação implacável e aberrante do bloqueio pelo governo Donald Trump. Não permitir a entrada de remédios, suprimentos e alimentos é condenar um povo. Dizemos não ao imperialismo”, disseram seus membros, recebendo uma ovação de pé da plateia. O show contou com a participação de 44 grupos, mobilizou mais de 6.000 membros e tocou aproximadamente 3.000 tambores durante a turnê.

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Chile e Bolívia
Na cidade chilena de Arica, na véspera de 14 de fevereiro, foi inaugurada a edição do Carnaval “A Força do Sol”, três dias de celebrações onde tradições indígenas, afrodescendentes e comunitárias locais se misturam. Mais de quinze mil dançarinos caminhavam pelas ruas com trajes coloridos, apresentando danças tradicionais.
O Delegado de Arica, Nicolás González, ressaltou que a região possui mais de 10 mil anos de história com habitação contínua, refletida hoje em um carnaval que sintetiza culturas do Chile, Bolívia e Peru. Este festival é consolidado como o maior do Chile e um dos mais importantes da América do Sul por sua representação do sincretismo regional.
Na Bolívia, o Carnaval de Oruro mostrou ao mundo sua majestade neste sábado ao exibir danças bolivianas em uma das expressões culturais e religiosas mais espetaculares do planeta. Mais de 50 mil dançarinos prestaram homenagem à Virgem do Socavón no Sábado de Peregrinação, enquanto mais de 50 grupos folclóricos e 12.000 músicos percorreram as principais ruas da capital do folclore boliviano até chegarem ao Santuário.
A Grande Diablada Tradicional Autêntica Oruro abriu a cortina sobre esta obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, exibindo expressões como o morenada, os caporales, o diablada, o tinku e o tobas diante de milhares de turistas nacionais e internacionais. “Oruro não apenas celebra, Oruro reafirma sua história, sua cultura e sua profunda devoção”, disse o Gabinete do Governador do departamento.
Argentina e Brasil
Na Argentina, o Carnaval mantém raízes nas celebrações ancestrais dos povos nativos andinos que honravam a chegada das chuvas, posteriormente fundidas com tradições católicas após a chegada dos espanhóis. Em Uquía, uma vila Jujuy com aproximadamente 2.000 habitantes, o território tornou-se por um dia o epicentro do Carnaval da Quebrada de Humahuaca.
Desde cedo da manhã, milhares de pessoas chegaram para “fazer sua chacha” — pedidos e agradecimentos à Pachamama — oferecendo vinhos, refrigerantes, papel picado, manjericão e folhas de coca para a Mãe Terra, além de desfrutar da tradicional Bajada de los Diablos do Cerro Blanco.
No Brasil, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas das grandes cidades desde as primeiras horas de sábado, 14 de fevereiro, para celebrar o Carnaval, a maior festa do país. No Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Salvador, a vida cotidiana para até a quarta-feira seguinte.
A partir das cinco da manhã, milhares se reuniram no bloco “Então, Brilha” em Belo Horizonte, enquanto no Rio o tradicional “Cordão da Bola Preta” reunia multidões desde cedo da manhã. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou das festividades em Recife, onde acompanhou de uma cabine o desfile do popular “Galo da Madrugada”, caracterizado por enormes bonecos alegóricos, a mistura de ritmos regionais – especialmente o frevo – e a participação massiva de companhias e orquestras.
‘Liberdade e respeito’
Lula da Silva incentivou a celebrar o Carnaval com “liberdade” e “respeito”, valores que ele definiu como essenciais mesmo nos momentos de celebração: “O Carnaval é um tempo de alegria, de ocupar as ruas com música, de fantasias, liberdade e também de pregar respeito. Esse tema é essencial o tempo todo, mesmo durante relaxamentos e festas.”
O presidente acompanhou sua mensagem com fotografias de desfiles que incluíam slogans contra o assédio sexual como “Ir disfarçado não é um convite”, “Sorrir não é uma autorização” e “Beber não elimina responsabilidade”, além de relembrar o recente pacto estatal contra feminicídios assinado pelos líderes das três potências.
Da mesma forma, em São Paulo, a procissão negra Bakulu Zumbiido trouxe a força das celebrações ancestrais às ruas com dança e tambores, reafirmando a memória e a identidade da diáspora africana na capital São Paulo, lar de mais de 60.000 afrodescendentes.
Este dia continental reafirma o carnaval latino-americano não como um mero espetáculo, mas como um espaço para a reivindicação da identidade, onde povos nativos, comunidades afrodescendentes e expressões populares urbanas convergem em uma celebração que transcende fronteiras e resiste à passagem do tempo.
Das companhias de ecoturismo Los Teques à Diablada de Oruro, passando pelos tambores do Desfile dos Chamados e os blocos brasileiros, os carnavals de 2026 mostram como a cultura popular se torna um veículo de memória histórica, consciência social e unidade continental.
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