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BRICS – O “Guarda-Chuva” Global 

Já passou para sempre a época em que o destino dos povos afro‑asiáticos se deixava manipular deliberadamente pelos outros… ninguém poderá continuar subjugando-nos se estivermos determinados a alcançar e salvaguardar a independência nacional” – (Zhou Elain, Bandung,1955)

Introdução 

Ao assumir a presidência rotativa do BRICS em 2026,a Índia mencionou como um orgulho presidir a plataforma no ano que ela está completando 20 anos de existência.

Para muitos soa estranho “20 anos” quando a “literatura oficial” nos diz que a ideia BRICs vem de um relatório do Goldman Sachs, apresentado pelo seu economista chefe, Jim O’Neil, em 2001, projetando a evolução da força econômica dos países Brasil, Rússia, Índia e China com crescimento conjunto previsto para ultrapassar o do G-7 por volta de 2030.

No entanto, a história oficial indica que o “BRIC” foi formalizado na primeira reunião de Ministros das Relações Exteriores em 2006, à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque.

Há alguns analistas geopolíticos, Pepe Escobar, o mais enfático deles, apontam o famoso “Triângulo de Primakov” – Rússia, Índia e China (RIC) –  como um marco inaugural. Partem do pensamento do chanceler e posteriormente primeiro-ministro russo, Evguêni Primakov, que formulou a ideia do “triângulo” como um núcleo de concerto de grandes potências eurasiáticas como alternativa ao unipolarismo de Washington. 

Era o início dos anos 1990, época que marca o começo do fim das primeiras experiências socialistas.

Como curioso e um esforçado estudioso sobre o BRICS, resolvi ousar um pouco e contar a “minha história” dessa plataforma que a cada dia vem se constituindo o “guarda-chuva” global, nas palavras do Ministro Sergey Lavrov em recente entrevista à TV BRICS

Optei por transformar essa “história” numa série de 5 artigos, cujo primeiro começa agora.

O Grito do Sul Global – Bandung 1955

O mundo dos anos 1950 ficou marcado por pelo menos dois grandes cataclismas simultâneos, sendo eles: o colapso dos impérios coloniais na Ásia e na África e a intensificação do confronto da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Centenas de milhões de pessoas nascidas nas nações asiáticas e africanas, recém-independentes ou em processo de independência, viviam espremidas entre as duas superpotências rivais.

Essas nações buscavam um modelo multilateral alternativo que lhes garantisse cooperação em seus próprios termos, em vez de subordinação aos interesses dos Estados Unidos e da União Soviética.

É nesse contexto que entre 18 e 24 de abril de 1955, em Bandung,Indonésia, representantes de 29 países – entre eles China, Egito, Etiópia, Índia, Indonésia, Irã, Tailândia, Vietnã – futuros membros e países parceiros do BRICS – realizaram a Conferência Afro-Asiática de Bandung reunindo líderes como Sukarno (Indonésia), Nehru (Índia), Zhou Enlai (China) e Nasser (Egito). 

A Conferência de Bandung se torna um divisor de águas ao apelar para autodeterminação, igualdade e cooperação pacífica. A  declaração final incorpora os princípios da Carta da ONU  e do Acordo de Panchsheel conhecido como os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica, orientadores das relações entre Estados soberanos.  

Criou-se uma atmosfera inalcançável de otimismo, solidariedade e coexistência pacífica, que ficou caracterizado como o “Espírito de Bandung”, uma abordagem no campo diplomático especificamente edificada no consenso, prioridade nas lutas compartilhadas pós-coloniais e na não interferência desconsiderando quaisquer diferenças ideológicas. 

A partir desse “primeiro grito” fica evidente que a “unidade na divergência” se torna a opção real de luta para atingir um grau civilizacional a mais na construção de um mundo multipolar.

Um passo adiante –  Belgrado 1961 e a liderança de Tito

Seis anos após Bandung, coube a Belgrado, na então Iugoslávia, dar um passo mais adiante na configuração do mundo multipolar, realizando uma nova conferência, formalizando o Movimento dos Países Não Alinhados

A Iugoslávia era um país socialista encravado na Europa Oriental presidido por Josip Broz Tito que tinha se afastado do bloco soviético em 1948. Tito desejava manter o país independente tanto da OTAN (ocidente) quanto do Pacto de Varsóvia (oriente), e via no movimento dos países não alinhados uma oportunidade para evitar o isolamento internacional.

Em 1960, na Assembleia das Nações Unidas, ele convidou formalmente todos os países que se encontravam na situação descrita acima para uma conferência oferecendo Belgrado  como sede para o encontro, que acabou ocorrendo em 1961.

A primeira Conferência de Chefe de Estado ou de Governo dos Países Não Alinhados, foi realizada entre 1º e 6 de setembro, contando com a participação plena de 25 países e mais 3 observadores da América do Sul: Bolívia, Brasil e Equador, sendo os dois primeiros parceiro e membro fundador do BRICS, respectivamente. Também esteve presente Cuba, hoje parceiro do BRICS.

O cruzamento das listas de participantes tanto em uma como na outra conferência aponta para Afeganistão, Birmânia (atual Mianmar), Camboja, Ceilão (atual Sri Lanka), Egito (BRICS), Etiópia (BRICS), Índia (BRICS), Indonésia (BRICS), Iraque, Libano, Nepal, Arábia Saudita e Iêmen. A China que teve forte influência no “Espírito de Bandung” manteve-se afastada atuando mais como referência externa e hoje participa como observadora.

A formalização do movimento é o triunfo das ideias e a unidade forjadas em Bandung,cujos principais objetivos foram expressos no i. desarmamento, ii. na descolonização e iii. na oposição ao racismo.

Após Belgrado houve uma defesa consistente do desarmamento nuclear e de um cessar-fogo na corrida armamentista. Também se insistiu na exigência do fim imediato de toda e qualquer dominação colonial, forte oposição ao apartheid na África do Sul.

No terreno econômico a Declaração de Belgrado apelou para uma assistência técnica entre seus membros, assim como para o comércio e indo até para reformas das instituições econômicas internacionais que não representavam o mundo em desenvolvimento. 

Ao defenderem a reforma das Nações Unidas, esses países exigem ampliar a representação e o peso político de Estados asiáticos, africanos e latino-americanos na organização, em especial em seus órgãos decisórios centrais. Trata-se de uma demanda que retoma, de forma explícita, a crítica já formulada em Bandung à composição excludente do Conselho de Segurança da ONU e à sub‑representação estrutural do Sul Global naquele foro.

As lições dos Não Alinhados – As ideias ganham força material 

Nas ideias‑chave dos líderes de Bandung e Belgrado já se pode ver, em germe, o que hoje reconhecemos como DNA político do BRICS. 

Sukarno da Indonésia cunha a noção de “forças emergentes” (NEFOS), afirmando que os povos recém‑descolonizados deveriam atuar como sujeito coletivo e não como apêndice da disputa Leste–Oeste, antecipando a ideia de que grandes países do Sul podem, juntos, reordenar a hierarquia do sistema internacional. 

Jawaharlal Nehru, pela Índia, transforma a tática da não cooperação anticolonial em doutrina de não alinhamento: soberania de decisão, recusa ao enquadramento em blocos militares e defesa da coexistência pacífica, princípios hoje “reatualizados” na retórica de multipolaridade responsável e “autonomia estratégica” que estrutura o BRICS. 

O egípcio Gamal Adbel Nasser, por sua vez, radicaliza o elo entre não alinhamento e nacionalismo de recursos, insistindo que não há independência real sem controle sobre canais, petróleo e matérias‑primas – exatamente o tipo de disputa por comando de cadeias energéticas, logísticas e tecnológicas que atravessa a agenda contemporânea do bloco.

Em Belgrado esse repertório é elevado a um novo patamar ao incorporar a experiência singular do presidente iugoslavo Josip Broz Tito, que faz do não alinhamento um projeto de autonomia também para um país socialista às margens do Pacto de Varsóvia. Sua defesa de uma “terceira via” entre OTAN e Pacto de Varsóvia ecoa hoje na tentativa do BRICS de se apresentar como alternativa ao eixo G7/OTAN sem se reduzir a um mero instrumento de outro polo hegemônico. 

Ao mesmo tempo, a presença da China de Zhou Enlai em Bandung – já baseada nos Cinco Princípios de Coexistência Pacífica e na ênfase em soberania, igualdade entre Estados e não intervenção – fornece o fio direto que liga aquelas conferências à atual diplomacia chinesa dentro do BRICS, centrada em multipolaridade, ganhos mútuos e rejeição aberta a sanções unilaterais. 

Em suma, as grandes potências do Sul que hoje compõem o núcleo do BRICS foram “socializadas”, desde os anos 1950–60, nesse idioma político de autodeterminação, cooperação Sul–Sul e reforma da ordem mundial.

O ganês Kwame Nkrumah, primeiro presidente da primeira colônia da África subsaariana a conquistar a independência (1957), oferece um passo adiante ao indicar que a luta anticolonial deve se transformar em um projeto continental o “pan-africanismo” com forte denúncia do neocolonialismo, defesa de uma união política e econômica africana como única garantia de soberania real. Seus ensinamentos fornecem ao que o BRICS compreende muito bem nos dias atuais: sem unidade política do Sul e controle coletivo sobre recursos e desenvolvimento, a independência nacional corre sempre o risco de ser apenas uma forma renovada de subordinação.

É por isso que, quando falamos de BRICS, não estamos diante de um meteoro repentino da história, mas da concretização mesmo que tardia de intuições formuladas por Sukarno, Nehru, Nasser, Nkrumah, Tito e Zhou, dentre outros: a de que o Sul Global precisa de instrumentos próprios – bancos, moedas, foros políticos – para deixar de ser objeto e tornar‑se arquiteto de uma nova ordem internacional. 

No próximo artigo (#2) trato do “RIC” de Primakov passando pelas lições do conturbado início dos anos 2000, chegando até a 1ª Cúpula do BRICS em 2009. Até breve!

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