
O anuncio nesta terça-feira (10) de recuperação extrajudicial do Pão de Açúcar deixa evidenciado, entre outros fatores, as contradições do atual modelo macroeconômico brasileiro com crédito caro e alta taxas de juros.
A avaliação é do presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil no Distrito Federal (CTB-DF), Flauzino Antunes.
Segundo ele, o próprio pedido do grupo GPA, responsável pela marca do supermercado, para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas demonstra esse ambiente econômico discrepante.
“A manutenção de taxas de juros elevadas no Brasil tem impacto direto sobre a economia real: aumenta o custo do endividamento das empresas, restringe investimentos e comprime a margem de operação do setor produtivo”, diz.
Leia também: Juros seguem em 15%, aprofundam freio na economia e ampliam críticas ao BC
Para ele, o resultado disso é que grandes grupos passam a recorrer a processos de reestruturação financeira para tentar recompor fôlego de caixa.
“Trata-se de uma das maiores redes de varejo do país, com milhares de trabalhadores e forte presença no mercado de alimentos, que agora enfrenta dificuldades financeiras em um ambiente de crédito caro e consumo fragilizado”, observa.
O dirigente lembra que o grupo Pão de Açúcar nos últimos anos passou por vários controladores, incluindo o grupo francês Casino, um dos responsáveis pela mudança mais profunda do modo de gestão do GPS.
“Essa mudança, entre outros fatores, levou a essa situação de recuperação judicial, pois perdeu o foco e a interação com consumidores e fornecedores, mas só isso não explica tamanha bancarrota”, argumenta.
Desemprego
O sindicalista observa ainda que esse episódio ocorre pouco mais de dois anos após a crise da Americanas S.A., que expôs fragilidades profundas no financiamento e na governança de grandes empresas do varejo.
“Embora os casos tenham natureza distinta, o da Americanas advém de possíveis fraudes contábeis, o novo movimento acende um alerta sobre a vulnerabilidade do setor em um contexto de baixo dinamismo do mercado interno (juros altos e demanda enfraquecida), competição acirrada e elevado endividamento corporativo e principalmente das famílias brasileiras”, afirma.
Questionado sobre o risco do desemprego, Flauzino diz que, em tese, a recuperação extrajudicial não envolve dívidas trabalhistas e não implica automaticamente demissões, mas a experiência brasileira mostra que processos de reestruturação empresarial frequentemente vêm acompanhados de fechamento de unidades, cortes de custos e enxugamento do quadro de pessoal.
“Por isso, há sim o risco de impactos sobre o emprego, sobretudo se a economia continuar submetida a uma política monetária excessivamente restritiva que penaliza a produção, o investimento e o consumo das famílias”, finaliza.
O post Acordo extrajudicial do Pão de Açúcar reflete alta de juros apareceu primeiro em Vermelho.