
A Flipoços, o maior evento literário do Sul de Minas e um dos mais aguardados do calendário cultural de Poços de Caldas, sempre foi celebrada como espaço de vozes potentes da literatura e do pensamento crítico. Nos últimos anos, recebeu nomes como Itamar Vieira Júnior, Lilia Guerra e Guilherme Terreri (criador de Rita Von Hunty) e promoveu debates importantes para a população poçoscaldense. É inegável sua relevância cultural.
Também é inegável que a Flipoços carrega um histórico de polêmicas. O episódio de racismo recreativo sofrido pelo escritor Wesley Barbosa no ano passado ainda ecoa na memória de quem esteve presente. Antes disso, houve o caso da convidada indígena desrespeitada em sua participação, que gerou nota de repúdio assinada por movimentos culturais do município.
A feira, financiada com dinheiro público via Lei Rouanet e patrocinada por instituições como Itaú Cultural, oscila entre o compromisso com a diversidade e a repetição de violências que diz combater. Este ano, antes mesmo do início oficial da programação, os murmurinhos já começaram.
Uma das convidadas confirmadas é Beatriz Bueno, autora de Parditude. Apresentada ao público poçoscaldense como intelectual e criadora de um conceito inovador, Beatriz chega para falar sobre sua nova obra, na qual defende que pardos não são negros — um tema sensível para uma cidade que foi violentamente embranquecida, processo que culminou no apagamento das identidades e corpos negros que atuaram na construção desse território e do patrimônio daqueles que hoje se consideram a elite local.
Beatriz Bueno não é pesquisadora no sentido formal do termo. Seu vínculo com a universidade foi interrompido quando ela foi desligada do programa de mestrado em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (UFF), em janeiro de 2026. A universidade afirmou que o desligamento se deu por reprovação em disciplinas e descumprimento de atividades obrigatórias, uma decisão estritamente acadêmica. Sem a conclusão do mestrado, Beatriz não possui título de pós-graduação nem vínculo institucional com a produção de conhecimento formal.
Até o momento, não existem artigos revisados por pares em periódicos de relevância científica que desenvolvam o conceito de “parditude” com o rigor metodológico esperado. O que há são publicações de autoria própria, entrevistas em podcasts e circulação em redes sociais. Em outras palavras: produção de influenciadora, não de intelectual.
Isso não significa que uma ideia não possa ter valor fora da academia. Mas, quando essa ideia é usada para questionar políticas públicas consolidadas — como o sistema de cotas raciais e os critérios de heteroidentificação — a ausência de lastro científico se torna um problema político relevante.
A classificação que agrupa pretos e pardos como população negra não é uma invenção recente nem um “binarismo estadunidense”. Ela é fruto de décadas de mobilização do movimento negro brasileiro e foi institucionalizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pelo sistema de cotas (Lei 12.711/2012) e pelo Estatuto da Igualdade Racial. Não é um capricho ideológico, mas uma ferramenta política que permitiu visibilizar desigualdades estruturais e construir políticas públicas que alcançam mais de 50% da população.
Ao defender que pardos não são negros, Beatriz Bueno reproduz, na prática, uma lógica de embranquecimento. Se o pardo é descolado da negritude, abre-se espaço para que pessoas mestiças sejam absorvidas por um espectro mais próximo da branquitude, desmobilizando exatamente o contingente populacional que sustenta as políticas de ação afirmativa.
Pesquisadores como Kabengele Munanga e Sueli Carneiro, já alertaram para os riscos de fragmentar a população negra por critérios de cor ou ascendência justamente quando o que está em jogo é a desigualdade racial estrutural — que atinge pretos e pardos de forma muito mais próxima entre si do que em relação a brancos.
Se no campo racial Beatriz se apresenta como vítima de “cancelamento” e perseguição ideológica, no campo de gênero sua atuação revela uma face bem diferente. Viralizou recentemente um comentário seu em uma publicação sobre a posse da deputada Érika Hilton (Psol-SP) na Comissão dos Direitos da Mulher da Câmara. Beatriz comentou: “Somos todos Ratinho”. A frase não foi um mero desabafo.
Ao dizer isso, Beatriz ecoou um discurso comum em setores transfóbicos que recusam o reconhecimento de mulheres trans como mulheres, utilizando o deboche para reduzir a identidade de uma parlamentar negra e trans a um insulto rasteiro. Trata-se de violência política e simbólica contra corpos que já são marginalizados no país. A incoerência é gritante. Beatriz critica o que chama de “binarismo racial” importado dos EUA, mas opera com um binarismo de gênero rígido e excludente, que nega justamente as nuances da própria realidade brasileira, com sua diversidade de corpos e identidades.
O discurso de Beatriz Bueno não é inofensivo. Ele ganha contornos ainda mais graves quando proferido em uma cidade como Poços de Caldas, que carrega as marcas do embranquecimento e do apagamento de sua população negra, e em um país que lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas LGBTQIAPN+ e de negros.
A Flipoços é financiada pela Lei Rouanet (Lei 8.313/1991), que prevê incentivo fiscal a projetos culturais com “relevância cultural”. Desde 2022, há um debate jurídico e político sobre a possibilidade de negar incentivo a projetos que promovam discurso de ódio ou discriminação. O Itaú Cultural, patrocinador do evento, tem um histórico consolidado de apoio à diversidade e à equidade racial. A presença de Beatriz Bueno coloca, portanto, uma questão de incoerência institucional: um banco que financia projetos antirracistas está, indiretamente, validando um discurso que fragiliza as bases desses mesmos projetos.
Eventos financiados com renúncia fiscal não são espaços de liberdade irrestrita. Há um contrato social implícito de que o recurso público será usado para promover diversidade, pluralidade e, minimamente, compromisso com a vida e a dignidade de grupos historicamente vulnerabilizados.
Não se trata de “cancelar” Beatriz Bueno ou de cercear sua liberdade de expressão. Trata-se de perguntar: por que um evento financiado com dinheiro público, em uma cidade que já foi palco de racismo recreativo e violência contra corpos dissidentes, escolhe justamente uma figura que nega a negritude de pardos, ataca mulheres trans e se posiciona contra as políticas de ação afirmativa mais importantes da história recente do país?
A Flipoços não é obrigada a concordar com o movimento negro ou com o movimento LGBTQIAPN+. Mas, ao bancar esse discurso com verba pública, ela deixa de ser um espaço de debate para se tornar uma trincheira de reação. Em um país absurdamente violento com pessoas negras e trans como o nosso, convidar quem trabalha ativamente contra a existência dessas pessoas não é pluralidade — é cumplicidade.
O discurso de Beatriz Bueno representa um retrocesso nas agendas de equidade racial e diversidade de gênero. Por fim, reforço a importância de uma curadoria que vá ao encontro do compromisso ético e social do evento e que não desrespeite nossos corpos e identidades, nem reforce todas as violências que os movimentos sociais de Poços de Caldas vêm tentando desmontar há anos.
O post Flipoços, parditude, transfobia e o uso ético do dinheiro público apareceu primeiro em Vermelho.