
A 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), realizada em Campo Grande (MS), terminou com a inclusão inédita de 40 espécies, subespécies e populações em listas internacionais de proteção. O número é o maior já registrado pela conferência e reforça o papel do Brasil na defesa da biodiversidade em um momento de agravamento da crise climática e ambiental.
Das 40 espécies incluídas ou reclassificadas, 16 ocorrem no Brasil, evidenciando a importância estratégica do país na conservação da biodiversidade mundial. A conferência também aprovou 69 propostas, incluindo 15 ações concertadas e 39 resoluções, além de uma iniciativa inédita para mobilização de recursos destinada a apoiar países em desenvolvimento.
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Segundo o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, as decisões reforçam a necessidade de proteger rotas migratórias e habitats, considerados essenciais para o equilíbrio ecológico. “Esses elementos não são apenas caminhos geográficos, mas verdadeiras linhas de vida que sustentam a biodiversidade e o equilíbrio ecológico, e protegê-los exige não apenas vontade política, mas também ação coordenada entre diferentes jurisdições, setores e atores”, explicou.
Na prática, isso significa proteger não apenas animais isoladamente, mas todo o sistema que sustenta suas vidas — rios, florestas, áreas úmidas e corredores ecológicos que atravessam fronteiras. Para comunidades tradicionais e ribeirinhas, por exemplo, essa preservação impacta diretamente a segurança alimentar e a economia local.
Proteção ambiental com impacto social
Entre os destaques da COP15 estão a inclusão do surubim-pintado, espécie importante para a segurança alimentar e a renda de comunidades ribeirinhas, e do caboclinho-do-pantanal, ave migratória típica dos campos sul-americanos. Também foi aprovado o Plano de Ação Regional para os Bagres Migratórios da Amazônia, como a dourada e a piramutaba, espécies fundamentais para a pesca e para a economia da região Norte.
Outro avanço relevante foi a proteção internacional da ariranha, animal símbolo do Pantanal e da Amazônia, além da aprovação de medidas voltadas a tubarões, raias e aves migratórias ameaçadas. A secretária-executiva da Convenção, Amy Fraenkel, destacou que proteger espécies migratórias é também proteger ecossistemas inteiros que conectam países, continentes e comunidades.
Brasil ganha protagonismo, mas desafio agora é cumprir
A conferência também teve peso político. Durante o encontro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou o compromisso do Brasil com a preservação ambiental e assinou decretos que ampliam áreas protegidas no Pantanal e no Cerrado, somando mais de 148 mil hectares.
A decisão dialoga com uma mudança recente na política ambiental brasileira, após anos de desmonte de órgãos de fiscalização e aumento do desmatamento. Ao assumir a presidência da conferência pelos próximos três anos, o Brasil passa a ter responsabilidade direta na implementação das medidas aprovadas.
Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Muitas das espécies protegidas enfrentam ameaças como destruição de habitats, pesca predatória, mudanças climáticas e poluição. O caso do cação-cola-fina, por exemplo, evidencia a gravidade da situação: sua população caiu mais de 80% nas últimas gerações.
Além disso, a efetividade das decisões depende de financiamento e cooperação internacional — pontos sensíveis, especialmente para países em desenvolvimento que enfrentam limitações orçamentárias. A criação de uma estratégia de mobilização de recursos, aprovada na conferência, surge justamente como resposta a essa desigualdade.
Outro destaque foi o lançamento do Atlas das Rotas Migratórias das Américas, que mapeia o deslocamento de 622 espécies e oferece base científica para políticas públicas integradas entre países. A ferramenta evidencia como a preservação ambiental exige ação conjunta e planejamento de longo prazo.
Ao final, a COP15 deixa como legado não apenas novas listas de proteção, mas um alerta claro de que sem cooperação internacional e compromisso político, a biodiversidade segue ameaçada. Para o Brasil, o desafio agora é transformar liderança diplomática em ações concretas que garantam proteção ambiental e justiça social, especialmente para quem depende diretamente da natureza para viver.
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com informações do MMA
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