Um tenente assassina a própria esposa com um tiro na cabeça. Uma soldado de 21 anos, com pouco tempo de corporação, atira à queima-roupa em uma trabalhadora desarmada que voltava para casa.
Embora por motivações diferentes, dois casos recentes de violência comprovam um padrão estabelecido durante a gestão de Tarcísio de Freitas à frente do Governo do Estado de São Paulo: a Polícia Militar tem matado cada vez mais.
Para além dos episódios de grande repercussão nacional, as estatísticas são alarmantes. O número de pessoas mortas por policiais militares em serviço aumentou 35,5% no primeiro bimestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, passando de 76 para 103 vítimas no estado de São Paulo.
Os dados foram reunidos pela Agência Brasil, no início de abril, a partir de relatório dinâmico divulgado pelo Ministério Público paulista (MPSP).
Os dados mostram, ainda, que a PM de Tarcísio já matou quase três vezes mais do que na gestão anterior. Em 2023, primeiro ano da atual gestão, 357 pessoas foram mortas por policiais militares em serviço — acréscimo de 95 vítimas em relação ao ano anterior.
Em 2024, o número deu um salto, chegando a 653 registros, alta de 83% em relação ao ano anterior. No ano seguinte, novo aumento elevou os registros para 703 mortos.
O Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), do MPSP, divulga dados das mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP). As informações são repassadas diretamente pelas polícias Civil e Militar à promotoria, conforme determinações legais e resolução da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP).
Neste ano, ao incluir também os casos de mortes causadas por policiais civis, já foram 130 pessoas mortas apenas em janeiro e fevereiro. Com média de duas mortes por dia, a letalidade policial aumentou 41% em relação ao mesmo período do ano passado.
Os números indicam que a tendência de alta da violência policial persiste após um recorde recente: entre outubro e dezembro do ano passado, São Paulo registrou 276 mortes provocadas por intervenções policiais, maior número já registrado em um trimestre desde o início da série histórica, em 1996.
Vítimas mulheres
Em fevereiro de 2026, três mulheres foram mortas pela polícia. Foi o início de ano com mais mortes de mulheres desde o começo da série histórica da Secretaria da Segurança Pública, em 2013.
Até então, nenhum mês havia registrado mais de duas mortes de mulheres. O número ainda não inclui Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, morta por uma policial militar em Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, na madrugada de 3 de abril.
Ou seja, quando se trata de matar mulheres, o governo Tarcísio também concentra parte significativa dos casos. Os quase quatro anos de sua gestão concentram cerca de 40% das mortes de mulheres provocadas por policiais desde o início da série histórica, que soma 43 vítimas. Foram 17 casos entre 2023 e 2026.
Só em 2025, houve seis mortes, ano em que as polícias mataram 877 pessoas, o segundo maior número já registrado, atrás apenas de 2017.
É importante lembrar que o número de mulheres mortas pode ser ainda maior, já que em 58 ocorrências o gênero da vítima não é identificado.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Impunidade
A prisão do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto pela morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, em fevereiro de 2026, só ocorreu após grande repercussão nacional. O padrão, no entanto, é de ausência de punição.
É o que mostra o relatório do projeto Mapas da (In) Justiça, elaborado pelo Centro de Pesquisa Aplicada em Direito e Justiça Racial da FGV Direito São Paulo, que analisou 859 inquéritos policiais no período.
De acordo com o documento, nenhum policial que atua no estado de São Paulo foi responsabilizado por abordagens letais e violentas praticadas entre 2018 e 2024. Em todos os casos analisados, o Ministério Público, órgão responsável pelo controle externo da atividade policial, optou pelo arquivamento.
“A análise das decisões judiciais em 859 inquéritos policiais revelou a predominância de uma lógica que legitima preventivamente a ação policial e inviabiliza a responsabilização penal dos agentes. Em 100% dos casos, nenhum policial foi preso em decorrência da morte provocada durante a ação”, afirma o documento.
A maior parte das vítimas (62%) era preta ou parda. A pesquisa revelou ainda que a maioria das mortes (78%) ocorreu em vias públicas e foi provocada por policiais em serviço (88%).
Os dados podem ser ainda mais elevados, já que os pesquisadores tiveram acesso a apenas parte dos casos, devido ao sigilo de diversos inquéritos policiais.