O 8º Congresso do Partido dos Trabalhadores ocorre em um momento histórico particularmente desafiador. Em diversas regiões do mundo, observamos o avanço de forças autoritárias que ameaçam a soberania dos países e os rumos da democracia. Esse fenômeno não pode ser compreendido enquanto episódios isolados, mas como um processo mais profundo de radicalização política e de reorganização internacional da extrema-direita. Nesse cenário, a democracia e a soberania dos povos voltam ao centro do debate político global.
Nas relações internacionais, essa conjuntura se expressa na crise do multilateralismo. Os consensos democráticos se enfraquecem, os mecanismos de cooperação são esvaziados e a resolução pacífica de conflitos perde espaço. Em seu lugar, ganham força a lógica da imposição e a ação unilateral dos Estados. Trata-se de uma polarização multinível: enquanto no plano nacional cresce a disseminação do discurso de ódio, no plano internacional há a ruptura de regras básicas de convivência pacífica. Episódios recentes envolvendo países como Venezuela e Cuba, submetidos a agressões e pressões externas dos Estados Unidos, bem como a escalada do conflito no Oriente Médio, evidenciam um contexto em que o direito internacional não tem tido legitimidade para assegurar a paz e a soberania dos povos.
No século XXI, tem ficado evidente que soberania não se limita à capacidade formal de um Estado definir as suas instituições, mas envolve, sobretudo, a possibilidade concreta de promover um projeto de desenvolvimento autônomo. Nesse sentido, a disputa pela soberania está diretamente vinculada à luta por um sistema internacional mais equilibrado, no qual os países não estejam subordinados a interesses externos, sobretudo por meio de agressões e intervenções diretas.
Na América Latina, esse desafio assume contornos históricos. Ao longo do século XX, a região vivenciou ciclos de autoritarismo que comprometeram profundamente suas instituições e violaram direitos fundamentais. Foi um período marcado pela instauração de ditaduras militares em diversos países — como Brasil, Chile e Argentina —, caracterizadas pela repressão sistemática à oposição, censura, perseguições políticas, tortura e desaparecimentos. Esses regimes, consolidados sobretudo a partir da década de 1960, estiveram inseridos no contexto da Guerra Fria e foram, em muitos casos, apoiados direta ou indiretamente por potências estrangeiras, especialmente pelos Estados Unidos, como parte de uma estratégia de contenção de projetos políticos considerados contrários aos seus interesses. Esses processos estiveram, portanto, articulados a interesses geopolíticos mais amplos, evidenciando que a democracia na região sempre esteve vinculada também à questão da soberania.
A redemocratização latino-americana foi fruto da resistência de amplos setores sociais e políticos, que se reorganizaram diante da repressão e reconstruíram projetos democráticos baseados na justiça social e na participação popular. No Brasil, esse processo deu origem ao Partido dos Trabalhadores, que, desde sua fundação, se constituiu como expressão das lutas por democracia, direitos e soberania. Desde sua origem, o PT compreende que a democracia não se limita ao plano interno. A política externa constitui dimensão essencial do projeto democrático, na medida em que envolve a defesa da soberania, a promoção da cooperação internacional e a construção de uma ordem global mais equilibrada. Os princípios consagrados no Artigo 4º da Constituição de 1988 — como a autodeterminação dos povos, a não-intervenção, a defesa da paz e a cooperação entre nações — expressam essa visão estratégica.
Já no século XXI, a América Latina segue sendo um dos principais territórios dessa disputa histórica entre forças fascistas e democráticas. A região vive ciclos de avanços e retrocessos políticos marcados pela tensão entre projetos de transformação social e ofensivas conservadoras. Golpes institucionais, processos de lawfare, campanhas de desinformação e tentativas de desestabilização política tornaram-se instrumentos recorrentes utilizados contra governos progressistas. Apesar dessas dificuldades, a região também demonstra uma extraordinária capacidade de resistência democrática. Mobilizações populares, vitórias eleitorais progressistas e iniciativas de integração regional continuam reafirmando o compromisso das sociedades latino-americanas com a democracia e a justiça social.
Na conjuntura atual, essa perspectiva ganha ainda mais relevância. A política internacional passa por uma transição marcada pelo fortalecimento de dinâmicas multipolares e pelo maior protagonismo do Sul Global. No entanto, persistem assimetrias estruturais no sistema internacional, assim como práticas unilaterais que limitam a autonomia dos países em desenvolvimento. Nesse contexto, a defesa da soberania assume múltiplas dimensões. Trata-se de soberania alimentar, ao enfrentar a fome e garantir o direito à alimentação; soberania climática, ao assegurar condições justas de financiamento e adaptação às mudanças climáticas; soberania financeira, ao ampliar a capacidade de financiamento ao desenvolvimento; e soberania tecnológica, diante dos desafios colocados pela revolução digital e pela inteligência artificial.
A experiência brasileira recente ilustra essas disputas. Após um período de retrocessos institucionais e de enfraquecimento da inserção internacional do país, o Brasil retomou um projeto de reconstrução democrática baseado na inclusão social e na afirmação da soberania nacional. A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022, representou não apenas uma mudança de governo, mas a reorientação do país em direção a uma política externa ativa, comprometida com o multilateralismo, a integração regional e a cooperação Sul-Sul.
Essa reorientação se expressa de forma concreta na atuação do Brasil em espaços centrais da governança global, como o G20, o BRICS e a COP. Nesses fóruns, o país tem buscado articular respostas estruturais para desafios globais, seja por meio da promoção de iniciativas voltadas ao combate à fome e à pobreza, seja pelo fortalecimento de mecanismos de financiamento ao desenvolvimento entre países do Sul Global, ou ainda pelo engajamento ativo no debate sobre financiamento climático. Essa é uma estratégia que reposiciona o Brasil como ator relevante na construção de soluções multilaterais, ancoradas na cooperação e na justiça social.
Ao mesmo tempo, a condução da política externa brasileira tem demonstrado que a defesa da soberania pode caminhar de forma articulada com a inserção internacional qualificada. A vitória do Brasil em disputas comerciais com os Estados Unidos, por exemplo, evidencia que negociações bem conduzidas permitem preservar interesses nacionais sem comprometer relações diplomáticas. De maneira complementar, o fortalecimento da integração regional, especialmente por meio do Mercosul, e o avanço de iniciativas inter-regionais, como o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, ampliam as capacidades do país ao estimular a modernização produtiva, a inovação e a geração de empregos.
Esse tipo de desdobramento, cuja negociação contou com protagonismo brasileiro, contribui para diversificar parcerias econômicas e expandir o acesso a mercados regidos por regras mais previsíveis e estáveis. Em um contexto internacional marcado pela crescente adoção de medidas unilaterais e sanções, a construção de acordos estruturados fortalece a segurança econômica e a capacidade de planejamento de longo prazo, consolidando uma inserção internacional que combina abertura, autonomia e soberania.
Ao mesmo tempo, a transição para um mundo mais multipolar abre oportunidades, mas também exige ação política coordenada. A reforma da governança global e a construção de regras mais justas para o comércio, o financiamento e a tecnologia são agendas centrais para os países em desenvolvimento.
Diante desse cenário, reafirma-se a importância do internacionalismo como dimensão constitutiva do projeto político do Partido dos Trabalhadores. Em um mundo interdependente, a defesa da democracia e da soberania exige articulação entre governos, partidos, movimentos sociais e atores políticos comprometidos com a justiça social e com a construção de uma ordem internacional mais equilibrada.
Os partidos políticos desempenham um papel central nesse processo. Como instituições responsáveis por apresentar e construir projetos nacionais, bem como por dialogar com as aspirações da população, os partidos constituem instrumentos legítimos para informar e mobilizar os cidadãos sobre o caráter estratégico da política internacional. Cabe a eles fortalecer a formação política, comunicar os impactos da política externa no cotidiano das pessoas e construir agendas nacionais e internacionais que reflitam os interesses populares nas plataformas de governança.
O 8º Congresso do PT se insere nesse contexto como um espaço estratégico de reflexão e construção partidária. Nele, devemos considerar que as relações internacionais importam — e impactam diretamente a vida do povo brasileiro, influenciando nossa democracia, nossa economia e nossa capacidade de promover um projeto de desenvolvimento soberano. Esse é um debate já presente na sociedade, que mobiliza as redes, ocupa as ruas e exige respostas claras das forças políticas. Nosso governo tem demonstrado, por meio de uma política externa ativa e soberana, que estamos à altura desse desafio. Cabe agora ao Partido dos Trabalhadores vocalizar com clareza e articular essa agenda. Reafirmar a democracia, hoje, significa também fortalecer a luta internacionalista e reconhecer, de forma explícita, que o futuro do Brasil se constrói também no plano das relações internacionais.
Humberto Costa – Senador (PT-PE) e 2° vice-presidente do Senado/ Vice-presidente do Parlamento do Mercosul (Parlasul)/ Secretário de Relações Internacionais do PT
